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Com 1 milhão, população negra é a que mais cresce no Grande ABC

Número de pessoas pretas e pardas aumentou 21,9% em 12 anos, revela Censo; movimentos sociais falam sobre o Dia da Consciência Negra

Thainá Lana
19/11/2024 | 22:22
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FOTO: Denis Maciel/DGABC

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A população negra foi a que mais cresceu no Grande ABC nos últimos 12 anos. No Censo 2010, as pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas somavam 896.064, enquanto no levantamento demográfico de 2022 esse número passou de um milhão – chegou a 1.092.413, o que representa alta de 21,9%.

As pessoas pretas e pardas são agora 40,5% dos 2,6 milhões de habitantes da região. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a alta pode estar relacionada com diversos fatores, como maior reconhecimento racial e migração.

Os moradores que se autodeclaram brancos ainda são maioria, com 1,5 milhão, ou 58,2% da população das sete cidades, porém o total diminuiu 3% em 12 anos – antes eram cerca de 1,6 milhão. Outra população que diminuiu foi a amarela, que caiu de 34.056 para 29.888 (12% de queda). Os indígenas tiveram alta de 17%, indo de 2.358 em 2010 para 2.761 em 2022.

Ainda segundo o levantamento, proporcionalmente ao total de habitantes, Rio Grande da Serra é o município do Grande ABC que concentra o maior percentual de pretos e pardos, com 56,6%. Na sequência aparecem Diadema (53,9%), Mauá (49,1%), Ribeirão Pires (42,1%), São Bernardo (39,4%), Santo André (33,4%) e, por fim, São Caetano (18,5%).

Nesta quarta-feira (20), é celebrado o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Pela primeira vez na história do País, a data será comemorada como feriado em todo o território. O dia, que relembra a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, agora faz parte do calendário nacional – antes era celebrado apenas em seis estados, incluindo São Paulo.

Ativistas de movimentos negros e sociais da região ouvidos pelo Diário enxergam diversas dificuldades enfrentadas por esse grupo e também apontam as áreas que necessitam de investimentos para diminuição da desigualdade racial no Grande ABC.

Nas áreas social e habitacional, o coordenador do Movimento Nacional da População de Rua do Grande ABC, Thiago da Silva Quintanilha, 40 anos, afirma que a população negra é maioria entre as pessoas desabrigadas. Além da falta de moradia, esse grupo sofre diariamente com o preconceito. “O tratamento é completamente diferente. Quando um morador preto entra em um estabelecimento comercial ou pede esmola na rua, logo ele é enxotado do local ou já desconfiam que ele esteja roubando algo. Agora, quando é uma pessoa branca em situação de rua, a tratativa muda”, diz Quintanilha.

Para ele, as políticas públicas voltadas para população em situação de rua precisam ser melhoradas. “Lutamos todos os dias para que os serviços de acolhimento que atendem esse grupo melhorem. Infelizmente, a qualidade ainda é muito inferior. Precisamos fortalecer os equipamentos públicos para atender as pessoas com mais qualidade e humanidade”, diz.

A presidente do Instituto Potências da Quebrada, Elizabete de Jesus Rocha, 45, atua com o protagonismo feminino por meio da criação e desenvolvimento de projetos e ações sociais no município são-bernardense. Em quatro anos, o instituto já impactou mais de 5.000 pessoas, na maioria mulheres negras que vivem em situação de vulnerabilidade.

“A região ainda possui ausências de políticas públicas eficazes que possam responder a uma demanda crescente, do ponto de vista econômico, político e social. É necessário efetivar o grupo de trabalho do Consórcio Intermunicipal para que de fato se consiga avançar nas pautas já demandadas”, sugere.

De Diadema, Wilson Roberto Levi, 72, cofundador do MNU (Movimento Negro Unificado), chama a atenção para investimentos na educação e na economia, para tentar diminuir as desigualdades e ampliar as oportunidades das pessoas pardas e pretas. Além disso, ele cita a necessidade de fortalecimento da cultura negra e jovem, e lembra como exemplos positivos a Casa do Hip Hop e as batalhas de rima promovidas no município.

“A Consciência Negra representa a identidade, o conhecimento interior, a ancestralidade, religiosidade e força para resistir e continuar seguindo. A data é também uma referência a todos os heróis que lutaram para chegarmos até hoje, começando por Zumbi e Dandara e passando por tantos outros, como Cruz e Souza, Luiz Gama e todas as formas de luta”, finaliza o cofundador do MNU e militante há 52 anos do movimento negro.

Elizabete e Levi reforçam ainda a necessidade da aplicação efetiva da Lei Federal 10.639, que em 2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do Brasil.

MARCHA

Nesta quarta-feira, o Fórum Antirracista de São Bernardo realiza a terceira edição da Marcha do 20 de Novembro, às 9h, na Praça da Matriz. O evento enfatiza a luta contra o racismo no município e a busca pela igualdade racial.




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