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Escritora da região se dedica a obras sobre representatividade

Discriminação racial sofrida por Josy Asca, moradora do bairro Serraria, e pelo filho, motivou criação do 1º livro da autora, que fala de colorismo

Beatriz Mirelle
27/10/2024 | 08:59
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FOTO: Celso Luiz/DGABC

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Escrever histórias em que os personagens principais têm a pele escura e cabelos crespos é a forma que a professora Josy Asca, 41 anos, moradora do bairro Serraria, em Diadema, utiliza para dar visibilidade ao debate sobre discriminação racial e representatividade. Seja em obras para crianças ou para adultos, ela aposta na ideia de que os livros são capazes de tratar de assuntos sensíveis de maneira delicada e que podem estimular mudanças no comportamento dos leitores. 

O interesse de Josy pela escrita surgiu ainda na infância, quando ela produzia cartas e diários. Mas foi apenas depois da gravidez, em 2018, que ela decidiu transformar essa paixão em carreira. 

“Eu e meu marido somos negros. Nosso filho nasceu branco em uma família preta. Então, passamos por diversos constrangimentos, com pessoas perguntando se ele era adotado, se eu era babá dele. Teve uma vez que nosso menino deslocou o cotovelo, eu o levei ao hospital e o médico não nos atendeu até eu comprovar que era mãe dele. Tive que mostrar o RG e, mesmo assim, o profissional ficou desconfiado. Depois desse episódio, escrevi o livro O Amor Não Tem Cor, que publiquei em 2021”, relembra Josy, que possui especialização em Gestão Escolar e Africanidades e Cultura Afro-brasileira. 

Nessa primeira obra, motivada pela história do filho, ela trata sobre colorismo e ancestralidade. No trabalho como professora, para alunos da educação básica da Prefeitura de São Paulo, Josy se deparou com a inspiração para o segundo livro, intitulado Akin e Sua Cor Preciosa, de 2023. 

“Tive um aluno que dizia que não gostava de ser negro, que tinha vergonha do próprio cabelo. Não poderia deixá-lo falar assim. Trabalhei durante todo o ano letivo para empoderá-lo. Mostrava fotos de personalidades negras, contava histórias de sucesso com pessoas pretas, tudo para aumentar a autoestima dele. Naquele período, trabalhei Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus, em sala de aula e fizemos uma peça. No fim do ano, percebi a evolução dele depois de todos esses projetos. Assim, veio a inspiração para minha segunda obra, que conta de um menino empoderado, que ajuda os amigos da escola a se amarem também.” 

Ainda em 2023, ela publicou o Lute Como Uma Professora Negra, obra que mescla experiências pessoais com reflexões sobre a importância da educação antirracista. 

“A escola costuma ser o primeiro lugar que as crianças têm contato com a discriminação racial. Penso na minha infância e em como seria diferente se eu tivesse referências negras positivas na literatura. Eu morei em um prédio de área nobre de São Paulo até os 19 anos, porque meu pai era o zelador do prédio. Nós éramos a única família negra. Não usávamos elevador social, salão de festa, eu nem brincava na quadra. Se a representatividade preta já fosse algo presente na literatura naquela época, isso me ajudaria muito.” 

Neste ano, Josy ganhou o prêmio Luiza Mahin da Prefeitura de São Paulo, concedido a mulheres comprometidas com a valorização da cultura negra. Também participou da coletânea Pretinho e Pretinhas Incríveis, obra feita por 29 escritores negros brasileiros, que compartilha histórias inspiradoras de empoderamento.




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