Setecidades Titulo Veja fotos
35 anos sem Raul Seixas: shows na região selam afastamento dos palcos

Duas apresentações no Grande ABC, em 1985, selam negativamente a carreira do cantor, que morreu em 21 de agosto de 1989; retorno acontece em Santo André

Renan Soares
21/08/2024 | 10:45
Compartilhar notícia
Show de Raul em São Caetano, em 1985, último antes de pausa na carreira (FOTO: Celso Luiz/DGABC)

ouça este conteúdo

Há 35 anos, em 21 de agosto de 1989, morria Raul Seixas, o “Maluco Beleza” que revolucionou o rock brasileiro. Conhecido por suas letras poéticas repletas de críticas sociais, Raulzito – que iniciou sua carreira junto aos Panteras, com esse nome, em 1968 – deixou um legado que atravessa gerações, influenciando a música e a cultura popular do País, ao unir o rock americano com o baião. Foi no Grande ABC, em 1985, que dois shows marcaram a carreira do artista de Salvador, antes de um hiato de apresentações ao vivo.

O primeiro dos dois shows conta com diversas versões nas redes sociais do público presente, mas há uma certeza: o espetáculo na danceteria Adrenalina ocorreria no dia 12 de abril de 1985, uma sexta-feira, segundo anúncios divulgados em edições do Diário na época. O episódio é de grande repercussão na carreira de Raul, mas não por sua presença no palco. Ao contrário, o artista não apareceu para o show, o que gerou revolta no público presente, que destruiu o local, em ação que decretou o fim daquele espaço de apresentações.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, veiculada em 14 de abril de 1985, o incidente começou já no sábado, por volta das 2h30 da madrugada. Existem dois relatos diferentes no texto: o primeiro, de um grupo de jovens, que dizem que um fã mais exaltado gritou que o artista era “irresponsável”, o que desencadeou a fúria dos presentes, que subiram ao palco e começaram a destruir os instrumentos. O segunda, de um comerciante, aponta que a destruição se deu após um segurança da casa dar tiros para o alto para “acalmar” o público.

A QUEDA

Em relação a Raul, trechos do livro Raul Seixas, a história que não foi contada (2000), escrito por Elton Frans, empresário do artista na época, apontam que o concerto foi fechado pelo “Maluco Beleza” junto a José Sotero, da empresa 707. No dia do show, Frans relata que foi à casa de Raul e foi informado por Lena, esposa do artista na época, que ele estava doente, mas a verdade, segundo o empresário, era diferente: Raul estaria muito mal após beber a tarde inteira. A esposa apontava que Raul não teria condições, enquanto Frans falava que a casa estava lotada e a falta poderia render processos judiciais.

Pouco tempo depois, Frans recebeu uma ligação de representantes da Adrenalina, que ameaçavam até matar Raul caso ele não comparecesse, devido ao temor por um incidente no local. Após a discussão, um dos contratantes chegou a ir à residência de Raulzito, chamando a polícia e culpando Lena pelos problemas do artista com o álcool. O empresário relata que, durante a confusão, Raul Seixas repetia: “estou mal, bicho… estou mal”. Sem o artista, Frans e os contratantes retornaram à casa de shows, onde a confusão já acontecia, com a presença da polícia e do Corpo de Bombeiros. Uma pessoa teria morrido, e cerca de 100 teriam se ferido.

“Se não pagou os prejuízos aos donos da danceteria, o custo desse episódio foi de qualquer forma muito alto para ele. Começou com o cancelamento do show marcado para o dia seguinte no Aramaçan, em Santo André. Um pouco mais tarde, a Som Livre (gravadora) rescindiu seu contrato. Raul ficaria mais de dois anos sem contrato – até que, em 1987, assinou com a Copacabana”, diz Frans em seu livro. 

A estimativa da Folha de S.Paulo era de que a casa de espetáculos tinha 3.000 pessoas, e o empresário aponta 4.500 ingressos vendidos e 8.000 presentes no momento.

A apresentação da dupla gaúcha Kleiton e Kledir, marcado para o dia posterior, acabou sendo cancelada.

EXPLICAÇÃO

Em matéria publicada no Diário de 1° de dezembro daquele ano, Raul deu sua versão e disse que o show não aconteceu porque não foi pago. “Quando eu não compareço a uma apresentação é porque não me pagaram. Todo contrato que faço exijo 50% do cachê antecipadamente. Se não me pagam, eu não vou. Cansei de ser caloteado. Na danceteria Adrenalina, em São Bernardo, eu não fui porque eles não cumpriram o contrato”, disse Raul Seixas, que ainda debateu sobre rock e Rita Lee na conversa com o Diário.

O ato final de Raul Seixas antes de seu hiato foi em 1° de dezembro daquele mesmo ano, no Ginásio Lauro Gomes, em São Caetano, atualmente Anacleto Campanella. O músico se atrasou para a apresentação e, sem condições de cantar, contou com a ajuda da plateia para realizar a apresentação, que seria sua última antes da pausa dos palcos, retornando à música em 1987 – com lançamento de disco – e aos palcos apenas em 1988. Não há estimativa de público para o show. Raul Seixas morreu aos 44 anos, após uma parada cardíaca causada por pancreatite crônica e hipoglicemia, resultado de complicações decorrentes de anos de abuso de álcool e de saúde debilitada. 

Região também marca retorno aos palcos, com show em 1988

Raul Seixas também teve a região como ponto de mudança positiva em sua carreira, já que voltou aos palcos após hiato de três anos também no Grande ABC, no Clube Atlético Aramaçan, em Santo André, em apresentação junto com Marcelo Nova, do Camisa de Vênus, na última turnê de sua vida, em 18 de setembro de 1988. “Quando o cara subiu no palco aquilo veio abaixo. Não existia show de estádio em que víssemos aquilo”, lembrou ao Diário o produtor do espetáculo, Carlos Prozzo, em 2015. A apresentação da dupla em Salvador, no Teatro Carlos Alves, em outubro, teria mais destaque no futuro.

Raul Seixas voltou aos palcos com o álbum Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, gravado em estúdios na Capital (independente) e em São Bernardo (da gravadora Copacabana), que marcou seu retorno triunfal ao rock brasileiro em 1987. Seus álbuns A Pedra do Gênesis, lançado em 1988, e A Panela do Diabo, em 1989, uma colaboração com Marcelo Nova, foram os últimos trabalhos antes de sua morte. Celso Luiz, fotógrafo do Diário, contou que conviveu durante cerca de dois anos com Raul, de 1986 a 1988. Celso disse que uma vez foi a uma coletiva de imprensa do baiano e o fotógrafo de Raul o convidou para ir até a casa do artista.

“A partir daí passei a ir com frequência à casa do Raul. Passei também a registrar os shows dele”, diz.

Uma das diversas fotos que Celso clicou de Raulzito rendeu a contracapa do disco Uah-bap-lu-bap-lah-béin-bum. “Recebi o que seria algo em torno de R$ 1.500 pela foto, além de dez LPs. Pena que não tenho mais nenhum deles. Ele era único, diferente de tudo, não vivia com luxo, na sua casa não havia móveis. Aprendi muito com ele”, afirma.

Raul Seixas desenvolveu um estilo único que mesclava rock, baião, psicodelia e filosofia esotérica. Sua carreira ganhou destaque na década de 1970, quando lançou álbuns clássicos como Krig-Há, Bandolo! (1973) e Gita (1974). Raul também foi parceiro do escritor Paulo Coelho, com quem escreveu várias de suas canções mais famosas, como Sociedade Alternativa. O conceito de Sociedade Alternativa, inspirado no ocultismo de Aleister Crowley, propunha a liberdade total do indivíduo e a rejeição das convenções sociais.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


Conteúdo acessível em Libras usando o VLibras Widget com opções dos Avatares Ícaro, Hosana ou Guga. Conteúdo acessível em Libras usando o VLibras Widget com opções dos Avatares Ícaro, Hosana ou Guga.
;