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Pandemia afeta mais pessoas com deficiência

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Até outubro, 733 foram demitidos na região, volume que supera 2019 inteiro, com 529 cortes


Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

03/12/2020 | 00:01


Mais de 20 mil pessoas foram demitidas neste ano no Grande ABC, cenário motivado pela pandemia do novo coronavírus. A crise no mercado de trabalho atingiu de maneira mais intensa pessoas que têm alguma deficiência, que já sentiam mais dificuldades para se manter empregadas. Embora o ano passado tenha registrado a contratação de 4.800 profissionais na região, 529 PCDs (Pessoas Com Deficiência) foram dispensadas. E, de janeiro a outubro, 733 profissionais com esse perfil perderam o emprego, mais do que em 2019 inteiro. Além da oferta escassa de vagas qualificadas, esse público enfrenta ainda as barreiras do preconceito e da falta de acessibilidade.

Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e se referem ao saldo de vagas (diferença entre admissões e demissões).

No Grande ABC, o setor de serviços foi responsável pelo maior número de desligamentos de PCDs (-281) neste ano. A maioria dos demitidos tinha deficiência física (-248) e ganhava entre um e dois salários mínimos (-430), ou seja, entre R$ 1.045 e R$ 2.090 mensais.

Atualmente, os PCDs representam apenas 1,46% da força de trabalho formal da região – estimada em 721,1 mil trabalhadores. Ou seja, há apenas 10,5 mil pessoas com deficiência atuando com carteira de trabalho assinada.

“O mercado de trabalho é reflexo da sociedade, que possui como estrutura o capacitismo, a opressão e a discriminação. Ou seja, consideram que somos incapazes de produzir”, afirmou a moradora de Santo André Maria Paula Vieira, 27 anos. Ela que é cadeirante e atua como fotógrafa, modelo e influenciadora digital, com conteúdo voltado principalmente à inclusão, migrou para o empreendedorismo por causa da dificuldade de encontrar emprego formal. “Mesmo assim, precisamos sempre mostrar que somos capazes. Eu tive essa sorte e o privilégio de ter dado certo, mas se trata de uma luta diária.”

Moradora de São Bernardo, Milena Ferreira Rodrigues, 23, é auxiliar administrativa e atualmente faz curso de tecnólogo de RH (Recursos Humanos). Ela está desempregada há um ano. “O número de oportunidades de vagas disponibilizadas no Grande ABC é bem menor do que em São Paulo. Em 2018, consegui emprego na região da (Avenida Engenheiro Luís Carlos) Berrini, onde fiquei por quase dois anos. O trajeto era muito difícil e eu levava cerca de duas horas e meia para chegar até lá. Não conseguia nem ter tempo para estudar”, disse ela, que é cadeirante e precisou passar por uma cirurgia em janeiro, por isso acabou saindo do emprego.

“Eu estava bastante desmotivada. Na verdade, em São Paulo tem mais vagas e o piso salarial é maior, mas o estresse para ir até lá de transporte público e a qualidade de vida não compensam. Desde março, eu mando currículo todos os dias para vagas da região, mas só recebi dois ou três retornos.”

Outro ponto é a acessibilidade nas sete cidades, com a falta de rampas e manutenção nas calçadas e, inclusive, dentro das empresas. “Até mesmo para pessoas com mobilidade reduzida, que usam muleta por exemplo, é muito complicado. Também existe uma grande porcentagem de pessoas com deficiência que não tiveram acesso aos estudos. Por isso, o problema é conseguir colocar essas pessoas dentro do mercado de trabalho”, afirmou a assistente administrativa de Santo André Tainã Zaboto de Jesus, 31. Cadeirante, ela trabalha em home office há cinco anos em empresa de São Paulo.

“Há discriminação entre as deficiências (firmas preferem um tipo de deficiência a outra); há dificuldades no tocante à acessibilidade e as empresas ainda não se deram conta de que é um dever retirar barreiras e promover acessibilidade”, afirmou a advogada Viviane Limongi, especialista em direito à pessoa com deficiência, do escritório Limongi Advogados.

Com inclusão, empresas saem na frente

As empresas que enxergarem a necessidade da inclusão saem na frente, E, para isso, o compliance (conjunto de disciplinas voltadas a se fazer cumprir normas legais), é importante aliado para gerar valor agregado às companhias. “Certamente, essa adequação agrega valor à ética corporativa. Vale lembrar que o direito ao trabalho é princípio da Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência e está encampado no Estatuto da Pessoa com Deficiência”, afirmou a advogada Viviane Limongi. Hoje é celebrado o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

“Ter espaço de trabalho diverso é necessidade, pois quebra barreiras e traz conhecimentos e vivências plurais para dentro do ambiente corporativo”, disse a secretária estadual dos direitos da pessoa com deficiência, Célia Leão, durante o evento on-line Inclusão na Prática, que teve o intuito de desmistificar e incentivar a contratação de PCDs.

A consultoria Talento Incluir divulgou pesquisa sobre o tema, a qual cerca de 5.500 pessoas responderam em todo o País. Do total dos que se declararam empregados, 446 profissionais foram afastados das funções durante a quarentena, sendo mais da metade (63,7%) por decisão exclusiva das empresas. A pesquisa também aponta que 20,2% das pessoas que estavam trabalhando antes da pandemia foram demitidas ou afastadas sem receber (763).

“A pesquisa revela o quanto as empresas e seus gestores ainda tomam atitudes baseadas em vieses inconscientes, associando a pessoa com deficiência à doença, o que não é correto. Além disso, os dados também ressaltam o quanto elas ainda precisam estimular os diálogos entre gestores e profissionais com deficiência”, avaliou a CEO da Talento Incluir, Carolina Ignarra. 



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Pandemia afeta mais pessoas com deficiência

Até outubro, 733 foram demitidos na região, volume que supera 2019 inteiro, com 529 cortes

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

03/12/2020 | 00:01


Mais de 20 mil pessoas foram demitidas neste ano no Grande ABC, cenário motivado pela pandemia do novo coronavírus. A crise no mercado de trabalho atingiu de maneira mais intensa pessoas que têm alguma deficiência, que já sentiam mais dificuldades para se manter empregadas. Embora o ano passado tenha registrado a contratação de 4.800 profissionais na região, 529 PCDs (Pessoas Com Deficiência) foram dispensadas. E, de janeiro a outubro, 733 profissionais com esse perfil perderam o emprego, mais do que em 2019 inteiro. Além da oferta escassa de vagas qualificadas, esse público enfrenta ainda as barreiras do preconceito e da falta de acessibilidade.

Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e se referem ao saldo de vagas (diferença entre admissões e demissões).

No Grande ABC, o setor de serviços foi responsável pelo maior número de desligamentos de PCDs (-281) neste ano. A maioria dos demitidos tinha deficiência física (-248) e ganhava entre um e dois salários mínimos (-430), ou seja, entre R$ 1.045 e R$ 2.090 mensais.

Atualmente, os PCDs representam apenas 1,46% da força de trabalho formal da região – estimada em 721,1 mil trabalhadores. Ou seja, há apenas 10,5 mil pessoas com deficiência atuando com carteira de trabalho assinada.

“O mercado de trabalho é reflexo da sociedade, que possui como estrutura o capacitismo, a opressão e a discriminação. Ou seja, consideram que somos incapazes de produzir”, afirmou a moradora de Santo André Maria Paula Vieira, 27 anos. Ela que é cadeirante e atua como fotógrafa, modelo e influenciadora digital, com conteúdo voltado principalmente à inclusão, migrou para o empreendedorismo por causa da dificuldade de encontrar emprego formal. “Mesmo assim, precisamos sempre mostrar que somos capazes. Eu tive essa sorte e o privilégio de ter dado certo, mas se trata de uma luta diária.”

Moradora de São Bernardo, Milena Ferreira Rodrigues, 23, é auxiliar administrativa e atualmente faz curso de tecnólogo de RH (Recursos Humanos). Ela está desempregada há um ano. “O número de oportunidades de vagas disponibilizadas no Grande ABC é bem menor do que em São Paulo. Em 2018, consegui emprego na região da (Avenida Engenheiro Luís Carlos) Berrini, onde fiquei por quase dois anos. O trajeto era muito difícil e eu levava cerca de duas horas e meia para chegar até lá. Não conseguia nem ter tempo para estudar”, disse ela, que é cadeirante e precisou passar por uma cirurgia em janeiro, por isso acabou saindo do emprego.

“Eu estava bastante desmotivada. Na verdade, em São Paulo tem mais vagas e o piso salarial é maior, mas o estresse para ir até lá de transporte público e a qualidade de vida não compensam. Desde março, eu mando currículo todos os dias para vagas da região, mas só recebi dois ou três retornos.”

Outro ponto é a acessibilidade nas sete cidades, com a falta de rampas e manutenção nas calçadas e, inclusive, dentro das empresas. “Até mesmo para pessoas com mobilidade reduzida, que usam muleta por exemplo, é muito complicado. Também existe uma grande porcentagem de pessoas com deficiência que não tiveram acesso aos estudos. Por isso, o problema é conseguir colocar essas pessoas dentro do mercado de trabalho”, afirmou a assistente administrativa de Santo André Tainã Zaboto de Jesus, 31. Cadeirante, ela trabalha em home office há cinco anos em empresa de São Paulo.

“Há discriminação entre as deficiências (firmas preferem um tipo de deficiência a outra); há dificuldades no tocante à acessibilidade e as empresas ainda não se deram conta de que é um dever retirar barreiras e promover acessibilidade”, afirmou a advogada Viviane Limongi, especialista em direito à pessoa com deficiência, do escritório Limongi Advogados.

Com inclusão, empresas saem na frente

As empresas que enxergarem a necessidade da inclusão saem na frente, E, para isso, o compliance (conjunto de disciplinas voltadas a se fazer cumprir normas legais), é importante aliado para gerar valor agregado às companhias. “Certamente, essa adequação agrega valor à ética corporativa. Vale lembrar que o direito ao trabalho é princípio da Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência e está encampado no Estatuto da Pessoa com Deficiência”, afirmou a advogada Viviane Limongi. Hoje é celebrado o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

“Ter espaço de trabalho diverso é necessidade, pois quebra barreiras e traz conhecimentos e vivências plurais para dentro do ambiente corporativo”, disse a secretária estadual dos direitos da pessoa com deficiência, Célia Leão, durante o evento on-line Inclusão na Prática, que teve o intuito de desmistificar e incentivar a contratação de PCDs.

A consultoria Talento Incluir divulgou pesquisa sobre o tema, a qual cerca de 5.500 pessoas responderam em todo o País. Do total dos que se declararam empregados, 446 profissionais foram afastados das funções durante a quarentena, sendo mais da metade (63,7%) por decisão exclusiva das empresas. A pesquisa também aponta que 20,2% das pessoas que estavam trabalhando antes da pandemia foram demitidas ou afastadas sem receber (763).

“A pesquisa revela o quanto as empresas e seus gestores ainda tomam atitudes baseadas em vieses inconscientes, associando a pessoa com deficiência à doença, o que não é correto. Além disso, os dados também ressaltam o quanto elas ainda precisam estimular os diálogos entre gestores e profissionais com deficiência”, avaliou a CEO da Talento Incluir, Carolina Ignarra. 

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