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Covid deixa rastro de fome nas comunidades

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Com dificuldades para sobreviver, bairros periféricos sentem reflexos da pandemia que vão além da saúde


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

12/07/2020 | 00:54


A crise sanitária que assolou o Brasil não demorou muito para impactar a população mais carente e, com a Covid-19 invadindo comunidades e bairros periféricos, problemas que vão além da doença começaram a se fazer presentes, como o desemprego e, consequentemente, a fome.

Desde o início de março, diversas entidades e cidadãos comuns iniciaram campanhas para auxiliar aqueles que estão passando por dificuldades, inclusive dentro das próprias comunidades, com mutirões de doação. Mas nem as boas ações deram conta de suprir as carências, sobretudo as emocionais, como contou a moradora da comunidade do Jardim Santo André, em Santo André, Maria Roseane de Lima, 33 anos, que é uma entre as milhares de pessoas que vivem o desespero da “geladeira vazia”.

Sem emprego, já que antes da pandemia trabalhava como diarista, ela relata que, dentre tantas questões, a pior delas é, sem dúvidas, passar fome. “Está tudo muito difícil. Mesmo que na comunidade um ajude o outro, e a associação (Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências) faça de tudo para arrecadar doação, não só eu, mas muitas pessoas aqui no bairro não têm o que comer em casa”, lamenta.

Mãe de três filhos, Maria relata que, no início da pandemia, chegou a sentir medo da doença, mas que agora, passados quatro meses, e sem perspectiva de melhora do cenário, está “desanimada”. “Agora nem sinto tanto medo de pegar o coronavírus. Se eu me contaminar, e morrer, pelo menos acaba logo todo este meu sofrimento”, disse, agoniada, ao levantar a questão de que a população mais pobre não “faz falta à ninguém”.

Maria trata de depressão há cinco anos e ressalta que a situação de pânico aumentou ainda mais sua tristeza. “Sem acompanhamento psicológico, já que fecharam todo o atendimento, é mais difícil ainda se manter forte”, garante ela, que era atendida por programa da Prefeitura.

Presidente da Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências, Sônia Cristina Augusto da Silva, 53, disse que a entidade está buscando recursos, inclusive junto à Defesa Civil municipal. “A pandemia parou tudo. Temos problemas com abastecimento de água, coleta de lixo com diversos focos de acúmulo e queda de energia. Até incêndio por fiação mal acabada tivemos. Está muito difícil. E além de tudo isso, muita fome”, elencou.

Presidente da Associação União e Luta dos Moradores do Centreville e idealizadora do projeto Deixa Viver, Marilda Brandão, 45, está mobilizando amigos, empresários e igrejas para ajudar a amenizar a situação de necessidade de famílias do bairro, além do morro da Kibon e Cidade São Jorge. “O problema é que as pessoas não estão só passando fome. As famílias, todo dia, vêm me pedir ajuda. Tem algumas, do morro da Kibon, que estão sem gás, cozinhando com lenha para o lado de fora de casa, porque não têm dinheiro para comprar um botijão”, contou.

Em São Bernardo, a população da favela São Pedro, bairro dos Vianas e Jardim Petrônio também relatam situação difícil. “A Prefeitura não apareceu na comunidade nem uma cesta básica foi entregue”, disse o líder comunitário do Jardim Petrônio, Regio Rodrigues de Andrade, 48, relatando que, ao ver a reportagem publicada no Diário no dia 4 sobre as cestas básicas vencidas e não entregues pela administração, ficou “em estado de choque”. “Alguns moradores procuraram a Prefeitura de São Bernardo, e ouviram que não tinha cesta básica disponível, enquanto, na verdade, estavam todas vencendo e com tanta gente por aí passando fome”, lamentou Andrade.

Líder comunitária do Zaíra 6, em Mauá, Isabel Sales, 45, também lamentou a falta de ajuda do poder público. “Aqui fica muito a desejar. A Prefeitura de Mauá não ajuda em nada. Eu até tentei levantar uma campanha de arrecadação e não teve resultado.”

Questionadas, as prefeituras, em nota, garantiram que realizam ações nos bairros periféricos para minimizar os traumas causados pela pandemia à população carente.

Coronavírus avança sobre os mais pobres

Não bastasse a dificuldade enfrentada por moradores de regiões periféricas do Grande ABC, sobretudo com a falta de alimento, os bairros carentes também são os mais acometidos pela Covid-19, somando mais de metade dos casos.

Segundo os boletins epidemiológicos divulgados pelas prefeituras diariamente, Santo André e São Bernardo são as cidades que têm os bairros mais carentes como os principais afetados pelo novo coronavírus. O município andreense, por exemplo, tem pelo menos 20 bairros periféricos com maior índice de contaminação, já em São Bernardo as duas regiões carentes com maior número de casos na cidade somam mais de 60 sub-divisões de bairros e mais de 175 mil habitantes.

O Diário ouviu mais de um líder comunitário de quatro das sete cidades – Santo André, São Bernardo, Diadema e Mauá –, que afirmam que, embora os casos estejam aumentando, a população da comunidade não segue os cuidados necessários, como o distanciamento físico e o uso de máscaras. Pancadões, aglomeração e negligência estão entre as principais observações.

Agente comunitário do Jardim Irene, em Santo André, Reinaldo Mendonça, 66 anos, garante que as orientações preventivas estão sendo ignoradas. “Mesmo que eu, ou agentes da Prefeitura falem e orientem a população, não adianta. O povo está na rua, e ignora os cuidados.”



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Covid deixa rastro de fome nas comunidades

Com dificuldades para sobreviver, bairros periféricos sentem reflexos da pandemia que vão além da saúde

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

12/07/2020 | 00:54


A crise sanitária que assolou o Brasil não demorou muito para impactar a população mais carente e, com a Covid-19 invadindo comunidades e bairros periféricos, problemas que vão além da doença começaram a se fazer presentes, como o desemprego e, consequentemente, a fome.

Desde o início de março, diversas entidades e cidadãos comuns iniciaram campanhas para auxiliar aqueles que estão passando por dificuldades, inclusive dentro das próprias comunidades, com mutirões de doação. Mas nem as boas ações deram conta de suprir as carências, sobretudo as emocionais, como contou a moradora da comunidade do Jardim Santo André, em Santo André, Maria Roseane de Lima, 33 anos, que é uma entre as milhares de pessoas que vivem o desespero da “geladeira vazia”.

Sem emprego, já que antes da pandemia trabalhava como diarista, ela relata que, dentre tantas questões, a pior delas é, sem dúvidas, passar fome. “Está tudo muito difícil. Mesmo que na comunidade um ajude o outro, e a associação (Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências) faça de tudo para arrecadar doação, não só eu, mas muitas pessoas aqui no bairro não têm o que comer em casa”, lamenta.

Mãe de três filhos, Maria relata que, no início da pandemia, chegou a sentir medo da doença, mas que agora, passados quatro meses, e sem perspectiva de melhora do cenário, está “desanimada”. “Agora nem sinto tanto medo de pegar o coronavírus. Se eu me contaminar, e morrer, pelo menos acaba logo todo este meu sofrimento”, disse, agoniada, ao levantar a questão de que a população mais pobre não “faz falta à ninguém”.

Maria trata de depressão há cinco anos e ressalta que a situação de pânico aumentou ainda mais sua tristeza. “Sem acompanhamento psicológico, já que fecharam todo o atendimento, é mais difícil ainda se manter forte”, garante ela, que era atendida por programa da Prefeitura.

Presidente da Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências, Sônia Cristina Augusto da Silva, 53, disse que a entidade está buscando recursos, inclusive junto à Defesa Civil municipal. “A pandemia parou tudo. Temos problemas com abastecimento de água, coleta de lixo com diversos focos de acúmulo e queda de energia. Até incêndio por fiação mal acabada tivemos. Está muito difícil. E além de tudo isso, muita fome”, elencou.

Presidente da Associação União e Luta dos Moradores do Centreville e idealizadora do projeto Deixa Viver, Marilda Brandão, 45, está mobilizando amigos, empresários e igrejas para ajudar a amenizar a situação de necessidade de famílias do bairro, além do morro da Kibon e Cidade São Jorge. “O problema é que as pessoas não estão só passando fome. As famílias, todo dia, vêm me pedir ajuda. Tem algumas, do morro da Kibon, que estão sem gás, cozinhando com lenha para o lado de fora de casa, porque não têm dinheiro para comprar um botijão”, contou.

Em São Bernardo, a população da favela São Pedro, bairro dos Vianas e Jardim Petrônio também relatam situação difícil. “A Prefeitura não apareceu na comunidade nem uma cesta básica foi entregue”, disse o líder comunitário do Jardim Petrônio, Regio Rodrigues de Andrade, 48, relatando que, ao ver a reportagem publicada no Diário no dia 4 sobre as cestas básicas vencidas e não entregues pela administração, ficou “em estado de choque”. “Alguns moradores procuraram a Prefeitura de São Bernardo, e ouviram que não tinha cesta básica disponível, enquanto, na verdade, estavam todas vencendo e com tanta gente por aí passando fome”, lamentou Andrade.

Líder comunitária do Zaíra 6, em Mauá, Isabel Sales, 45, também lamentou a falta de ajuda do poder público. “Aqui fica muito a desejar. A Prefeitura de Mauá não ajuda em nada. Eu até tentei levantar uma campanha de arrecadação e não teve resultado.”

Questionadas, as prefeituras, em nota, garantiram que realizam ações nos bairros periféricos para minimizar os traumas causados pela pandemia à população carente.

Coronavírus avança sobre os mais pobres

Não bastasse a dificuldade enfrentada por moradores de regiões periféricas do Grande ABC, sobretudo com a falta de alimento, os bairros carentes também são os mais acometidos pela Covid-19, somando mais de metade dos casos.

Segundo os boletins epidemiológicos divulgados pelas prefeituras diariamente, Santo André e São Bernardo são as cidades que têm os bairros mais carentes como os principais afetados pelo novo coronavírus. O município andreense, por exemplo, tem pelo menos 20 bairros periféricos com maior índice de contaminação, já em São Bernardo as duas regiões carentes com maior número de casos na cidade somam mais de 60 sub-divisões de bairros e mais de 175 mil habitantes.

O Diário ouviu mais de um líder comunitário de quatro das sete cidades – Santo André, São Bernardo, Diadema e Mauá –, que afirmam que, embora os casos estejam aumentando, a população da comunidade não segue os cuidados necessários, como o distanciamento físico e o uso de máscaras. Pancadões, aglomeração e negligência estão entre as principais observações.

Agente comunitário do Jardim Irene, em Santo André, Reinaldo Mendonça, 66 anos, garante que as orientações preventivas estão sendo ignoradas. “Mesmo que eu, ou agentes da Prefeitura falem e orientem a população, não adianta. O povo está na rua, e ignora os cuidados.”

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