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Homenagens a figuras racistas e ligadas a ditaduras são alvo de discussão na região


Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC

05/07/2020 | 00:01


A morte de George Floyd, homem negro sufocado por policial nos Estados Unidos em maio, reacendeu debate sobre homenagens a figuras com passados contestáveis no mundo, no Brasil e no Grande ABC. A discussão mundial em torno de honrarias a personagens considerados racistas chegou à região e foi amplificada a personalidades ligadas a ditaduras, nacional ou estrangeiras.

Figura importante para todo o Grande ABC, em especial para Santo André, pois é considerado fundador da cidade, em 8 de abril de 1553, João Ramalho recebe diversas homenagens. Uma das mais famosas é a estátua de bronze datada de 1953. Ramalho participou de atividade escravocrata. 

As honrarias a João Ramalho entram na lista do projeto de lei da deputada estadual Erica Malunguinho (Psol), mulher trans e negra que quer ver retirados os monumentos que exaltam imagem de escravocratas – a estátua do Borba Gato, em Santo Amaro, Zona Sul da Capital, também é contestada pela parlamentar.

Professor de ciências econômicas e ciências da humanidade da UFABC (Universidade Federal do ABC) e integrante do núcleo de estudos africanos e afrobrasileiros da instituição, Ramatis Jacino disse que nomes de ruas e homenagens em formas de estátuas refletem como os episódios históricos do País foram contados. 

Na análise de Jacino, são sempre os vencedores que relatam os fatos. O que, no Brasil, coube às elites que escravizaram negros e índios, pertencentes às potências econômicas e intelectuais, compostas, em sua grande maioria, por pessoas brancas. “Até mesmo os bandeirantes, descritos como desbravadores do Brasil, nada mais eram do que quadrilha que invadia o sertão do País para escravizar a população indígena, forçá-la a trabalhar”, sustentou o historiador.

Para o professor, o poder público tem a obrigação de renomear estes locais com o objetivo de apagar o passado ligado à escravatura e ao racismo. “Para isso, porém, as administrações terão que chamar a sociedade civil, em especial, o movimento negro e dos demais oprimidos para realizar o debate.”

No Grande ABC, as homenagens polêmicas não ficam apenas em figuras racistas. Em São Bernardo, no Rudge Ramos, existe a Vila Mussolini, em celebração à figura do político italiano Benito Mussolini (1883-1945), líder do movimento fascita na Itália. Ruas do bairro trazem os nomes de alguns de seus mais fiéis aliados, como Pietro Badóglio (1871-1956). São atribuídas ao regime de Mussolini, conhecido como Il Dulce, 440 mil mortes. Ele foi um dos alicerces políticos de Adolf Hitler (1889-1945), líder do nazismo alemão, na Segunda Guerra Mundial.

O historiador Ademir Medici, colunista do Diário, relembra que a Vila Mussolini é um dos loteamentos mais antigos da região e foi aberto após a Primeira Guerra Mundial, em 1918. “Quando o homenageado surgia no cenário internacional como integrante, imagine, do Partido Socialista Italiano.”

“A Avenida 31 de Março (também em São Bernardo) homenageia a data máxima do golpe militar de 1964, mas quando foi denominada, esta avenida que interliga os bairros Pauliceia e Taboão cantava-se a revolução redentora brasileira e a maioria dos políticos locais – vereadores e prefeitos – era da Arena (Aliança Libertadora Nacional), que dava sustentação ao regime”, citou.

Homenagens a figuras da ditadura militar, aliás, estão espalhadas por outras cidades da região. Em Mauá, o Parque Capuava acolhe a Avenida Costa e Silva, que homenageia Arthur da Costa e Silva, o 27º presidente da República (1967 a 1969) e que iniciou o período mais duro durante o regime militar que governou o País durante 21 anos. Sob seu comando foi instaurado o AI-5 (Ato Institucional Número 5), que o fez fechar o Congresso, institucionalizar a repressão e banir inimigos políticos. 

INSTITUCIONAL

A equipe do Diário procurou as administrações municipais para questionar se há discussão sobre mudanças de homenagens a figuras controversas da história. 

A Prefeitura de Santo André declarou que não há, por parte do Executivo, debate para rever nomes de ruas. Em São Bernardo, o Paço alegou que repudia manifestações de cunho racista e que realizará o debate do tema. 

Mauá admitiu que há, na cidade, ruas com nomes de personalidades controversas, que há interesse no debate e que o assunto poderá ser tocado pela Secretaria de Justiça e pela diretoria de igualdade racial. O Paço de Ribeirão Pires argumentou que realizará estudo para levantar se há, na cidade, algum tipo de homenagem a pessoas que participaram de movimentos racistas.



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Homenagens a figuras racistas e ligadas a ditaduras são alvo de discussão na região

Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC

05/07/2020 | 00:01


A morte de George Floyd, homem negro sufocado por policial nos Estados Unidos em maio, reacendeu debate sobre homenagens a figuras com passados contestáveis no mundo, no Brasil e no Grande ABC. A discussão mundial em torno de honrarias a personagens considerados racistas chegou à região e foi amplificada a personalidades ligadas a ditaduras, nacional ou estrangeiras.

Figura importante para todo o Grande ABC, em especial para Santo André, pois é considerado fundador da cidade, em 8 de abril de 1553, João Ramalho recebe diversas homenagens. Uma das mais famosas é a estátua de bronze datada de 1953. Ramalho participou de atividade escravocrata. 

As honrarias a João Ramalho entram na lista do projeto de lei da deputada estadual Erica Malunguinho (Psol), mulher trans e negra que quer ver retirados os monumentos que exaltam imagem de escravocratas – a estátua do Borba Gato, em Santo Amaro, Zona Sul da Capital, também é contestada pela parlamentar.

Professor de ciências econômicas e ciências da humanidade da UFABC (Universidade Federal do ABC) e integrante do núcleo de estudos africanos e afrobrasileiros da instituição, Ramatis Jacino disse que nomes de ruas e homenagens em formas de estátuas refletem como os episódios históricos do País foram contados. 

Na análise de Jacino, são sempre os vencedores que relatam os fatos. O que, no Brasil, coube às elites que escravizaram negros e índios, pertencentes às potências econômicas e intelectuais, compostas, em sua grande maioria, por pessoas brancas. “Até mesmo os bandeirantes, descritos como desbravadores do Brasil, nada mais eram do que quadrilha que invadia o sertão do País para escravizar a população indígena, forçá-la a trabalhar”, sustentou o historiador.

Para o professor, o poder público tem a obrigação de renomear estes locais com o objetivo de apagar o passado ligado à escravatura e ao racismo. “Para isso, porém, as administrações terão que chamar a sociedade civil, em especial, o movimento negro e dos demais oprimidos para realizar o debate.”

No Grande ABC, as homenagens polêmicas não ficam apenas em figuras racistas. Em São Bernardo, no Rudge Ramos, existe a Vila Mussolini, em celebração à figura do político italiano Benito Mussolini (1883-1945), líder do movimento fascita na Itália. Ruas do bairro trazem os nomes de alguns de seus mais fiéis aliados, como Pietro Badóglio (1871-1956). São atribuídas ao regime de Mussolini, conhecido como Il Dulce, 440 mil mortes. Ele foi um dos alicerces políticos de Adolf Hitler (1889-1945), líder do nazismo alemão, na Segunda Guerra Mundial.

O historiador Ademir Medici, colunista do Diário, relembra que a Vila Mussolini é um dos loteamentos mais antigos da região e foi aberto após a Primeira Guerra Mundial, em 1918. “Quando o homenageado surgia no cenário internacional como integrante, imagine, do Partido Socialista Italiano.”

“A Avenida 31 de Março (também em São Bernardo) homenageia a data máxima do golpe militar de 1964, mas quando foi denominada, esta avenida que interliga os bairros Pauliceia e Taboão cantava-se a revolução redentora brasileira e a maioria dos políticos locais – vereadores e prefeitos – era da Arena (Aliança Libertadora Nacional), que dava sustentação ao regime”, citou.

Homenagens a figuras da ditadura militar, aliás, estão espalhadas por outras cidades da região. Em Mauá, o Parque Capuava acolhe a Avenida Costa e Silva, que homenageia Arthur da Costa e Silva, o 27º presidente da República (1967 a 1969) e que iniciou o período mais duro durante o regime militar que governou o País durante 21 anos. Sob seu comando foi instaurado o AI-5 (Ato Institucional Número 5), que o fez fechar o Congresso, institucionalizar a repressão e banir inimigos políticos. 

INSTITUCIONAL

A equipe do Diário procurou as administrações municipais para questionar se há discussão sobre mudanças de homenagens a figuras controversas da história. 

A Prefeitura de Santo André declarou que não há, por parte do Executivo, debate para rever nomes de ruas. Em São Bernardo, o Paço alegou que repudia manifestações de cunho racista e que realizará o debate do tema. 

Mauá admitiu que há, na cidade, ruas com nomes de personalidades controversas, que há interesse no debate e que o assunto poderá ser tocado pela Secretaria de Justiça e pela diretoria de igualdade racial. O Paço de Ribeirão Pires argumentou que realizará estudo para levantar se há, na cidade, algum tipo de homenagem a pessoas que participaram de movimentos racistas.

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