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'O Dia da Caça', filme sobre narcotráfico no Brasil, estréia 6ª


Do Diário do Grande ABC

08/06/2000 | 15:36


Alberto Graça tem vivido na estrada nos últimos tempos. Já mostrou "O Dia da Caça" em 22 Estados brasileiros, exibindo-o nas universidades. O filme que estréia sexta-feira já tem no currículo 30 mil espectadores - nesse circuito alternativo. As exibiçoes foram acompanhadas de pesquisas: 84% do público achou O "Dia da Caça" bom ou ótimo, mas o melhor, destaca o diretor, é que 92% dos entrevistados declararam-se dispostos a recomendar o filme para amigos e parentes.

É um policial, um thriller sobre a açao do narcotráfico no país, numa trilha que, saindo de Brasília, chega até a Amazônia, fazendo, de forma cada vez mais violenta, o percurso de volta. As cenas da Amazônia sao boas, mas nao é delas que vem a polêmica que "O Dia da Caça" poderá provocar. Talvez essa polêmica nao venha nem mesmo da ligaçao que Graça sugere entre o tráfico e o poder, a política, centralizada em Brasília. A CPI do Narcotráfico está aí para confirmar que tem fundo de verdade o que, inicialmente, para o cineasta, era só ficçao.

O que talvez choque é o personagem do travesti, Vander, interpretado por Paulo Vespúcio. Em plena era do politicamente correto, de olhar simpático às minorias, Graça cria um travesti do mal, um gay sádico e perverso. Mas leal. É o que eleva Vander da caricatura, dando-lhe uma dimensao que vai além do clichê em que parece se instalar. Nao é ele o protagonista da trama. É Nando, interpretado por Marcello Antony, da novela "Terra Nostra". Nando, segundo o próprio Nando, é um Hamlet do tráfico.

No começo, ele vive à margem desse universo, ao qual já pertenceu. Tem uma oficina mecânica. A lealdade o leva a aceitar a missao proposta por Canosa, por meio de um emissário, o policial federal branco (Jonas Bloch). Nando aceita a missao de buscar 30 quilos de droga na Amazônia. Leva Vander, seu amigo, seu irmao desde os tempos do reformatório. É uma cilada, uma queima de arquivo, uma briga de quadrilhas. Logo Nando e Vander estao com a cabeça a prêmio, caçados por criminosos e por federais.

Da trama também participam Felipe Camargo, como um jornalista que segue a trilha de Canosa, e Barbara Schulz, uma deusa (a mulher mais bonita a aparecer no cinema nacional nos últimos tempos) que faz a amante franco-brasileira de um traficante que morre e ela segue com Nando e Vander. Canosa é pouco mais que um nome na história - uma foto, na qual ele aparece abraçado com Nando. Canosa é Nelson Pereira dos Santos, o diretor, e a sua presença é explicada por Alberto Graça, que diz ser Nelson o grande "traficante de imagens do cinema brasileiro".

Outra referência: Graça trabalhou com Miguel Faria Jr. em "O Homem Célebre" e Faria Jr. também é o diretor de "República dos Assassinos", em que Anselmo Vasconcelos cria um dos personagens mais alucinantes do cinema brasileiro, o travesti Eloína. Vasconcelos está agora em "O Dia da Caça", que tem outro travesti perturbador, Vander. "Nao foi uma coisa pensada, mas, inconscientemente, acho que talvez tenha a ver; o trabalho do Anselmo foi genial e com certeza foi uma referência para o que eu queria com Vander", diz o diretor.

Vander é o braço armado de Nando. Usa uma luva de pregos para dilacerar suas vítimas. Encarna a fascinaçao do mal, mas, como já se disse, nao é o mal absoluto. Sua devoçao a Nando torna o personagem ambíguo. Pode ser que o interesse de Vander por Nando tenha uma origem sexual mas, quando o amigo liga-se à francesa, Vander, que inicialmente a considera uma inimiga, diz que agora ela faz parte de sua família, também. A ligaçao de Vander com o policial, Branco, reproduz até certo ponto a de Eloína com o tira de "República dos Assassinos", baseado no tristemente célebre Mariel Mariscot.

Com todos os defeitos que possa ter (e, efetivamente, tem, sendo o maior deles a reciclagem de cenas e situaçoes já vistas até demais em thrillers americanos), "O Dia da Caça" é um filme para ser visto. Tem qualidades de produçao e até de narraçao. Graça quis fazer um filme que fosse visto por diferentes públicos, do intelectual da USP ao trocador de ônibus. "Um filme popular e autoral", ele resume. Para promover "O Dia da Caça", o diretor criou, com recursos da Lei Rouanet, o programa Cinema em Movimento, para mostrar o filme nas universidades. Exibiu-o em 55 universidades de 22 Estados, realizando seis sessoes em cada uma delas.

No total, foram cerca de 300 sessoes, durante as quais "O Dia da Caça" foi visto por 30 mil espectadores. Simultaneamente, ocorreram debates, envolvendo nao só o diretor, mas também jornalistas, como Arthur Xexéo. O programa continua: o filme entra amanha em 40 municípios de todo o País e, a partir do dia 14, será exibido para os sem-tela, em praça pública nas cidades que nao possuem cinemas. Só isso já faz de "O Dia da Caça" um filme a ser conferido no panorama brasileiro atual.



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'O Dia da Caça', filme sobre narcotráfico no Brasil, estréia 6ª

Do Diário do Grande ABC

08/06/2000 | 15:36


Alberto Graça tem vivido na estrada nos últimos tempos. Já mostrou "O Dia da Caça" em 22 Estados brasileiros, exibindo-o nas universidades. O filme que estréia sexta-feira já tem no currículo 30 mil espectadores - nesse circuito alternativo. As exibiçoes foram acompanhadas de pesquisas: 84% do público achou O "Dia da Caça" bom ou ótimo, mas o melhor, destaca o diretor, é que 92% dos entrevistados declararam-se dispostos a recomendar o filme para amigos e parentes.

É um policial, um thriller sobre a açao do narcotráfico no país, numa trilha que, saindo de Brasília, chega até a Amazônia, fazendo, de forma cada vez mais violenta, o percurso de volta. As cenas da Amazônia sao boas, mas nao é delas que vem a polêmica que "O Dia da Caça" poderá provocar. Talvez essa polêmica nao venha nem mesmo da ligaçao que Graça sugere entre o tráfico e o poder, a política, centralizada em Brasília. A CPI do Narcotráfico está aí para confirmar que tem fundo de verdade o que, inicialmente, para o cineasta, era só ficçao.

O que talvez choque é o personagem do travesti, Vander, interpretado por Paulo Vespúcio. Em plena era do politicamente correto, de olhar simpático às minorias, Graça cria um travesti do mal, um gay sádico e perverso. Mas leal. É o que eleva Vander da caricatura, dando-lhe uma dimensao que vai além do clichê em que parece se instalar. Nao é ele o protagonista da trama. É Nando, interpretado por Marcello Antony, da novela "Terra Nostra". Nando, segundo o próprio Nando, é um Hamlet do tráfico.

No começo, ele vive à margem desse universo, ao qual já pertenceu. Tem uma oficina mecânica. A lealdade o leva a aceitar a missao proposta por Canosa, por meio de um emissário, o policial federal branco (Jonas Bloch). Nando aceita a missao de buscar 30 quilos de droga na Amazônia. Leva Vander, seu amigo, seu irmao desde os tempos do reformatório. É uma cilada, uma queima de arquivo, uma briga de quadrilhas. Logo Nando e Vander estao com a cabeça a prêmio, caçados por criminosos e por federais.

Da trama também participam Felipe Camargo, como um jornalista que segue a trilha de Canosa, e Barbara Schulz, uma deusa (a mulher mais bonita a aparecer no cinema nacional nos últimos tempos) que faz a amante franco-brasileira de um traficante que morre e ela segue com Nando e Vander. Canosa é pouco mais que um nome na história - uma foto, na qual ele aparece abraçado com Nando. Canosa é Nelson Pereira dos Santos, o diretor, e a sua presença é explicada por Alberto Graça, que diz ser Nelson o grande "traficante de imagens do cinema brasileiro".

Outra referência: Graça trabalhou com Miguel Faria Jr. em "O Homem Célebre" e Faria Jr. também é o diretor de "República dos Assassinos", em que Anselmo Vasconcelos cria um dos personagens mais alucinantes do cinema brasileiro, o travesti Eloína. Vasconcelos está agora em "O Dia da Caça", que tem outro travesti perturbador, Vander. "Nao foi uma coisa pensada, mas, inconscientemente, acho que talvez tenha a ver; o trabalho do Anselmo foi genial e com certeza foi uma referência para o que eu queria com Vander", diz o diretor.

Vander é o braço armado de Nando. Usa uma luva de pregos para dilacerar suas vítimas. Encarna a fascinaçao do mal, mas, como já se disse, nao é o mal absoluto. Sua devoçao a Nando torna o personagem ambíguo. Pode ser que o interesse de Vander por Nando tenha uma origem sexual mas, quando o amigo liga-se à francesa, Vander, que inicialmente a considera uma inimiga, diz que agora ela faz parte de sua família, também. A ligaçao de Vander com o policial, Branco, reproduz até certo ponto a de Eloína com o tira de "República dos Assassinos", baseado no tristemente célebre Mariel Mariscot.

Com todos os defeitos que possa ter (e, efetivamente, tem, sendo o maior deles a reciclagem de cenas e situaçoes já vistas até demais em thrillers americanos), "O Dia da Caça" é um filme para ser visto. Tem qualidades de produçao e até de narraçao. Graça quis fazer um filme que fosse visto por diferentes públicos, do intelectual da USP ao trocador de ônibus. "Um filme popular e autoral", ele resume. Para promover "O Dia da Caça", o diretor criou, com recursos da Lei Rouanet, o programa Cinema em Movimento, para mostrar o filme nas universidades. Exibiu-o em 55 universidades de 22 Estados, realizando seis sessoes em cada uma delas.

No total, foram cerca de 300 sessoes, durante as quais "O Dia da Caça" foi visto por 30 mil espectadores. Simultaneamente, ocorreram debates, envolvendo nao só o diretor, mas também jornalistas, como Arthur Xexéo. O programa continua: o filme entra amanha em 40 municípios de todo o País e, a partir do dia 14, será exibido para os sem-tela, em praça pública nas cidades que nao possuem cinemas. Só isso já faz de "O Dia da Caça" um filme a ser conferido no panorama brasileiro atual.

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