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Bala perdida, povo perdido


Rodolfo de Souza

16/08/2018 | 07:00


A bala perdida atingiu o rosto da paciente que convalescia de cirurgia, ainda no hospital.

A bala perdida também foi parar no peito do jovem que passava de trem por local de onde costumam partir as tais balas que se perdem, e voam desorientadas até encontrar aconchego no colo de alguém que normalmente não tem lá muito apreço por elas e, sobretudo, por quem ordena a sua partida da arma.

Mas o cotidiano de balas perdidas é a realidade de um povo que nasceu e vive, cheio de orgulho, numa cidade que já foi dona de um prestígio inigualável dentro deste imenso e maltratado cenário tupinambá. Lá fora continua sendo notícia, a despeito da mudança no tom de quem faz o comentário a respeito dela. Nada lisonjeiro, diga-se de passagem. Sua fama de maravilhosa persiste, no entanto, e está mesmo determinada a sobreviver, embora as balas que habitam, soturnas, os seus meandros insistem em apagar as suas cores, deixando só o vermelho para que ela nunca se esqueça de quem está no comando. 

O que teria feito com que a situação chegasse a tal ponto e o povo perdesse o sono, é pergunta que se faz a todo instante. Possivelmente décadas de péssimas gestões públicas sejam as responsáveis pelos desmandos que ora assistimos perplexos. 

Ainda que não haja necessidade de pânico, uma vez que aquela gente conta com a presença, carregada de intimidação, do milico que veio justamente para conter o furor de quem se exalta e extrapola nas comemorações por qualquer coisa, em especial, os bailes nas noitadas. São festas que, ouvi dizer, costumam acabar com tiros para o ar e para todos os lados, numa celebração ímpar que faz lembrar os velhos filmes de cowboy. Aposentaram, ao que tudo indica, os fogos de artifício para exibir poder e liberdade de expressão que só se consegue a bala. Melhor, inclusive, nem comentar as batalhas travadas noite e dia, verdadeiras cusparadas de projéteis na cara de uma cidade que já não suporta mais tanta festa à custa do sossego do povo.

Mas e a intervenção que veio para impor respeito, resultou em quê, afinal? Em nada. Tudo permanece tal qual era antes. Senão pior, até porque, se olharmos com atenção ao nosso redor, notaremos que, tolher os direitos e a liberdade do outro, é prática comum e antiga neste palco gigantesco, onde quem comanda o espetáculo cultiva, dentro da legalidade, o hábito salutar de devorar a presa ainda viva. 

Entretanto, convenhamos, que não se instaurou por completo a desordem generalizada, como desejam alguns. Levemos em conta que o crime, por exemplo, é o que há de mais organizado neste país, seja lá qual for a cor do colarinho que o coloca em prática.

Destaque para o fato de ele dispor de munição suficiente para gastar no coro inimigo e também para soltá-la em voo livre e perdido até que encontre a sua vítima, como numa loteria macabra.

Mas é preciso confiar. Os candidatos que pleiteiam o comando da nação, passam essa segurança ao povo, prometendo-lhe saídas mirabolantes para todos os entraves que impedem o crescimento desta terra de meu Deus. 

Eu sei, amigo leitor, o quanto é difícil acreditar na conversa fiada daquele que só pensa em resolver a vida de quem já tem a vida resolvida. Portanto, eu proponho ao amigo sonhar com o dia em que a bala se rebelará e retornará, determinada, ao cano que a cuspiu. Quanto ao homem, este não mudará. Lamento.



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