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Armado até os dentes


Rodolfo de Souza

24/05/2018 | 07:00


Há uma foto na internet que muito me chamou a atenção nesta semana. São muitas as fotos que me chamam a atenção na internet, diga-se de passagem. Mas talvez tenha sido pego nesta pelo inusitado da imagem, afinal, há nela um elemento qualquer meio nostálgico, meio poético, e trágico ao mesmo tempo. É possível até que um pintor do século 19 a tivesse retratado com mais propriedade do que o fotógrafo que lá esteve, arriscando o próprio coro. Satisfazendo a sua curiosidade, amigo, a fotografia, objeto de inspiração desta crônica, escarra, sem piedade, em nossa face toda a miséria humana a que estamos submetidos eu e você, dia a dia.

Consiste, pois, na figura de um sujeito, palestino por natureza, diante de algo que queima, com altas labaredas de um tom entre o fogo mesmo e um preto que demonstra estar sendo devorada substância plástica ou de borracha. E ali está ele em posição de ataque contra quem aparentemente se lhe afigura como o intrépido inimigo. Não veste farda o tal, tampouco carrega armas de grosso calibre, braços enormes, barba por fazer, cara de mau e tudo aquilo que brilha no cinema. Traja somente roupa simples e empunha, ao invés de baioneta e fuzil, só um estilingue. Isso mesmo! Um humilde bodoque é o que lhe serve de arma numa guerra insana, como toda guerra deve ser.

Para quem não sabe, estilingue ou atiradeira é instrumento que outrora muito se utilizou para a diversão da molecada. Criançada desajuizada aquela que, felizmente, sequer imaginava o que seria deste seu mundo numa época que não demoraria a chegar. Não que se vivesse no paraíso naqueles tempos. Longe disso! É que não se pode fugir à comparação, e fica sempre a impressão de que antigamente vivia-se bem melhor, num planeta sem violência, sem agressão ao meio ambiente, sem corrupção, sem pobreza e sem guerra. Pura bobagem! Tudo tem que ter um início, afinal. E talvez tenha sido ali o começo, ou bem antes, na fundação do mundo, sabe-se lá. Fato é que a ingenuidade e a censura nos faziam felizes naqueles dias de parco conhecimento.

Mas e o indivíduo da foto, onde fora parar neste frenesi incontido de reflexões a que somos mergulhados todas as vezes em que nos reportamos ao passado que sempre nos soa melhor, carregado de muita felicidade e paixão? Bem, o insólito, retratado com muita competência pelo correspondente de guerra, vem de uma terra muito antiga. “Mas todos os territórios deste planeta têm a mesma idade!” – dirá você, cheio de rigor. Refiro-me aqui, no entanto, a uma civilização que se constituiu bem antes da nossa, lá numa distante e quente região em que o ódio impera soberano há séculos.

E o homem da foto, coitado, briga ao lado dos seus, pelo direito de ir e vir em paz num país digno, de fartura e de liberdade. Falo de um ser humano como qualquer um deste plano absurdo que nega a ele o direito de bem-viver. E quem é dono do poder ali se aproveita do dinheiro e do arsenal que lhe tem sido colocado nas mãos desde que fora criado o seu estado, para submeter o outro, o seu igual, ao despotismo que um dia lhe fora impingido e, do qual padecera. Estranha-me, inclusive, que desempenhe agora o papel de algoz, sem olhar para trás e reviver a dor da humilhação. Talvez fosse necessário refrescar sua memória.



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Armado até os dentes

Rodolfo de Souza

24/05/2018 | 07:00


Há uma foto na internet que muito me chamou a atenção nesta semana. São muitas as fotos que me chamam a atenção na internet, diga-se de passagem. Mas talvez tenha sido pego nesta pelo inusitado da imagem, afinal, há nela um elemento qualquer meio nostálgico, meio poético, e trágico ao mesmo tempo. É possível até que um pintor do século 19 a tivesse retratado com mais propriedade do que o fotógrafo que lá esteve, arriscando o próprio coro. Satisfazendo a sua curiosidade, amigo, a fotografia, objeto de inspiração desta crônica, escarra, sem piedade, em nossa face toda a miséria humana a que estamos submetidos eu e você, dia a dia.

Consiste, pois, na figura de um sujeito, palestino por natureza, diante de algo que queima, com altas labaredas de um tom entre o fogo mesmo e um preto que demonstra estar sendo devorada substância plástica ou de borracha. E ali está ele em posição de ataque contra quem aparentemente se lhe afigura como o intrépido inimigo. Não veste farda o tal, tampouco carrega armas de grosso calibre, braços enormes, barba por fazer, cara de mau e tudo aquilo que brilha no cinema. Traja somente roupa simples e empunha, ao invés de baioneta e fuzil, só um estilingue. Isso mesmo! Um humilde bodoque é o que lhe serve de arma numa guerra insana, como toda guerra deve ser.

Para quem não sabe, estilingue ou atiradeira é instrumento que outrora muito se utilizou para a diversão da molecada. Criançada desajuizada aquela que, felizmente, sequer imaginava o que seria deste seu mundo numa época que não demoraria a chegar. Não que se vivesse no paraíso naqueles tempos. Longe disso! É que não se pode fugir à comparação, e fica sempre a impressão de que antigamente vivia-se bem melhor, num planeta sem violência, sem agressão ao meio ambiente, sem corrupção, sem pobreza e sem guerra. Pura bobagem! Tudo tem que ter um início, afinal. E talvez tenha sido ali o começo, ou bem antes, na fundação do mundo, sabe-se lá. Fato é que a ingenuidade e a censura nos faziam felizes naqueles dias de parco conhecimento.

Mas e o indivíduo da foto, onde fora parar neste frenesi incontido de reflexões a que somos mergulhados todas as vezes em que nos reportamos ao passado que sempre nos soa melhor, carregado de muita felicidade e paixão? Bem, o insólito, retratado com muita competência pelo correspondente de guerra, vem de uma terra muito antiga. “Mas todos os territórios deste planeta têm a mesma idade!” – dirá você, cheio de rigor. Refiro-me aqui, no entanto, a uma civilização que se constituiu bem antes da nossa, lá numa distante e quente região em que o ódio impera soberano há séculos.

E o homem da foto, coitado, briga ao lado dos seus, pelo direito de ir e vir em paz num país digno, de fartura e de liberdade. Falo de um ser humano como qualquer um deste plano absurdo que nega a ele o direito de bem-viver. E quem é dono do poder ali se aproveita do dinheiro e do arsenal que lhe tem sido colocado nas mãos desde que fora criado o seu estado, para submeter o outro, o seu igual, ao despotismo que um dia lhe fora impingido e, do qual padecera. Estranha-me, inclusive, que desempenhe agora o papel de algoz, sem olhar para trás e reviver a dor da humilhação. Talvez fosse necessário refrescar sua memória.

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