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Jorge Bomfim: arquitetando a renovação


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

24/08/2002 | 18:00


Jorge Bomfim está preocupado com o que chama “crise de sensibilidade”. Ele é um dos poucos arquitetos do país cuja obra pode ser reconhecida pela fusão harmônica de conceitos estéticos e tecnológicos. Aos 68 anos, mais de 40 deles dedicados à arquitetura na região, Bomfim contribui muito para a arquitetura de Santo André e São Bernardo. Seu alerta é contra o colunismo arquitetônico e a ditadura cultural no país. “Temos poucos arquitetos brilhantes. As exceções têm dificuldade de financiar vôos estéticos mais altos, enquanto arquitetos-decoradores vivem aparecendo nas colunas sociais. Na cultura em geral vivemos uma ditadura: só ouvimos na música o que as gravadoras querem. Na arquitetura não é diferente: o dinheiro está nas mãos de construtores e os decoradores ditam as regras. Fica difícil a transposição de capacidades”.

Bomfim é uma das raras exceções. Ele pode se dar ao luxo de projetar e construir boa parte de seus projetos, o que quer dizer que o valor monetário não dita as regras, pois ele insiste que sua obra tenha personalidade, e se vale do bom senso estético para isso. “Costumo dizer que arquitetura é a arte de organizar espaço dentro de uma função social”, afirma.

Em seu escritório no Centro de Santo André, no prédio que ele mesmo projetou, Bomfim desenha seus projetos na velha prancheta e na régua T, que ele não abandonou apesar da disponibilidade de recursos no computador. Guarda também duas telas de sua autoria, em estilo concretista, que não pensa em expor. Timidez é a justificativa mais apropriada. Uma gravura de Luiz Sacilotto, artista que ele aprecia, e outra tela de Maurício Nogueira Lima, além de um móbile de Henrique Pait.

Da janela, uma ampla visão do centro da cidade. “Santo André não tem mais centro, só relacionamento comercial central. O que seria um centro de convívio, de encontro, de troca de idéias, está descaracterizado. As pessoas não se encontram mais, só na sala de TV. As referências foram sumindo, como o bar Quitandinha, o bar do Chico, isso descaracteriza a cidade. Faz parte do crescimento, mas um planejamento poderia criar condições para que isso não ocorresse. Estamos, infelizmente, na dependência da sensibilidade dos donos de imóveis”.

Ele voltou recentemente de um congresso internacional de arquitetos em Berlim. A atual capital alemã sediou o encontro porque concentra o maior canteiro de obras da Europa, pois está sendo remodelada desde a reunificação da Alemanha. Portanto, é uma vitrina da arquitetura contemporânea mundial. Bomfim observou, no entanto, que o Brasil perdeu uma boa oportunidade de mostrar sua arquitetura. “A embaixada do Brasil em Berlim tem projeto de arquiteto alemão, sem a cara brasileira”.

No passado não muito distante, arquitetos brasileiros eram referência para o mundo. Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Vilanova Artigas, por exemplo. “A arquitetura brasileira era um diferencial. Hoje, até importamos arquitetos. O que as construtoras levam em conta é o nome do arquiteto. Esse é o conceito atual: quem tem nome vende, sem renovação tecnológica, sem renovação artística, sem renovação arquitetônica”.



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Jorge Bomfim: arquitetando a renovação

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

24/08/2002 | 18:00


Jorge Bomfim está preocupado com o que chama “crise de sensibilidade”. Ele é um dos poucos arquitetos do país cuja obra pode ser reconhecida pela fusão harmônica de conceitos estéticos e tecnológicos. Aos 68 anos, mais de 40 deles dedicados à arquitetura na região, Bomfim contribui muito para a arquitetura de Santo André e São Bernardo. Seu alerta é contra o colunismo arquitetônico e a ditadura cultural no país. “Temos poucos arquitetos brilhantes. As exceções têm dificuldade de financiar vôos estéticos mais altos, enquanto arquitetos-decoradores vivem aparecendo nas colunas sociais. Na cultura em geral vivemos uma ditadura: só ouvimos na música o que as gravadoras querem. Na arquitetura não é diferente: o dinheiro está nas mãos de construtores e os decoradores ditam as regras. Fica difícil a transposição de capacidades”.

Bomfim é uma das raras exceções. Ele pode se dar ao luxo de projetar e construir boa parte de seus projetos, o que quer dizer que o valor monetário não dita as regras, pois ele insiste que sua obra tenha personalidade, e se vale do bom senso estético para isso. “Costumo dizer que arquitetura é a arte de organizar espaço dentro de uma função social”, afirma.

Em seu escritório no Centro de Santo André, no prédio que ele mesmo projetou, Bomfim desenha seus projetos na velha prancheta e na régua T, que ele não abandonou apesar da disponibilidade de recursos no computador. Guarda também duas telas de sua autoria, em estilo concretista, que não pensa em expor. Timidez é a justificativa mais apropriada. Uma gravura de Luiz Sacilotto, artista que ele aprecia, e outra tela de Maurício Nogueira Lima, além de um móbile de Henrique Pait.

Da janela, uma ampla visão do centro da cidade. “Santo André não tem mais centro, só relacionamento comercial central. O que seria um centro de convívio, de encontro, de troca de idéias, está descaracterizado. As pessoas não se encontram mais, só na sala de TV. As referências foram sumindo, como o bar Quitandinha, o bar do Chico, isso descaracteriza a cidade. Faz parte do crescimento, mas um planejamento poderia criar condições para que isso não ocorresse. Estamos, infelizmente, na dependência da sensibilidade dos donos de imóveis”.

Ele voltou recentemente de um congresso internacional de arquitetos em Berlim. A atual capital alemã sediou o encontro porque concentra o maior canteiro de obras da Europa, pois está sendo remodelada desde a reunificação da Alemanha. Portanto, é uma vitrina da arquitetura contemporânea mundial. Bomfim observou, no entanto, que o Brasil perdeu uma boa oportunidade de mostrar sua arquitetura. “A embaixada do Brasil em Berlim tem projeto de arquiteto alemão, sem a cara brasileira”.

No passado não muito distante, arquitetos brasileiros eram referência para o mundo. Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Vilanova Artigas, por exemplo. “A arquitetura brasileira era um diferencial. Hoje, até importamos arquitetos. O que as construtoras levam em conta é o nome do arquiteto. Esse é o conceito atual: quem tem nome vende, sem renovação tecnológica, sem renovação artística, sem renovação arquitetônica”.

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