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Arte em construção


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

07/06/2006 | 08:23


Abre nesta quarta-feira, e fica somente nesta quarta-feira, em São Paulo a exposição Consciente Criativo, com 30 peças de arte criadas por operários da construção civil. Nos intervalos entre pôr a mão na massa e assentar um tijolo depois do outro, serventes e ajudantes em maioria deixam de atender as ordens do empreiteiro para dar vazão a seus desejos criativos. Montada no Espaço Promon (av. Juscelino Kubitschek, 1.830), das 10h às 23h, a exposição utiliza um espaço de uso intensivo da elite paulistana para apresentar a arte operária.

Esta exposição é um dos desdobramentos do projeto Mestres da Obra, que começou a partir do escritório de arquitetura Estúdio Brasileiro, de Santo André, e da parceria entre o educador ambiental Daniel Cywinski e o arquiteto Arhur Pugliese, que implantaram o primeiro ateliê de operários em um canteiro de obra civil em Mauá, em 2002. De lá para cá, outros ateliês aconteceram em Santo André, na Epac (Escola Parque de Arte e Ciência) do Parque Central, e em São Paulo, no canteiro de obras onde ficava o presídio do Carandiru, até dezembro passado, e no Cambuci, onde fica empreendimento da construtora Setin. É deste canteiro que vêm a maioria das peças de arte em exposição.

Hoje deve ser, portanto, um dia de entortar a cabeça de sociólogos e marxistas de carteirinha vermelha. A obra do operariado, em tapumes ainda com barro do canteiro e umidade do relento, diante de pessoas de classes economicamente mais favorecidas entre os convidados e a presença dos artistas-operários, as estrelas do dia. Nem o escritor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos primeiros a escalar operários como atores da história, imaginaria esta inversão de conceitos. Pugliese e Cywinski imaginaram. “O Mestres da Obra é um inversor de conceitos. Eles (operários) passam a perceber que quem modifica a paisagem da cidade é o operário civil e que eles também podem fazer arte e se tornar consumidores de cultura. O projeto proporciona subjetivação para um operário acostumado a seguir ordens e diretrizes, que vai da casa para o trabalho e daí para casa. Ele trabalha com os mesmos materiais e ferramentas e constrói algo que ele mesmo criou. Entender o que é um objeto artístico e ter vontade de consumir cultura são outros ganhos”, diz Cywinski.

O projeto Mestres da Obra tinha em seu carro-chefe a implantação de ateliês nos canteiros de obras e o ensino de arte com aproveitamento dos resíduos (madeiras, vergalhões, PVC, concreto, tapumes, tintas etc) que seriam jogados fora depois do uso. Nas mãos dos operários, ganharam contornos em telas, painéis, esculturas, instalações. O mais difícil neste projeto não é fechar seu custo (cerca de R$ 40 mil anuais), mas convencer construtoras a ceder um tempo a seus operários e estes a aproveitar a folga para criar. Conseguir um espaço para expor no Grande ABC, ao contrário de São Paulo, é muito difícil, segundo Cywinski. Na semana que vem, ele e Pugliese implantarão mais um ateliê, desta vez em São Caetano, no canteiro de obras da Setin. Esta construtora é uma das grandes apoiadoras do projeto ao lado da Solvay Indupa, IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) e o Diário.

Além de ser um projeto de ensino de arte e aproveitamento de sucata (de caráter ambiental, inclusive), o Mestres da Obra também é pautado na valorização do operário e a melhoria dos índices de indicadores sociais. O principal deles vem do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), segundo o qual a marginalidade entre desempregados no país é maior entre aqueles que vieram da construção civil. Cywinski prepara uma dissertação de mestrado a partir dos resultados do Mestres da Obra. “Há uma melhora visível na saúde no canteiro da obras, desde os níveis de estresse até a auto-estima e a melhora das relações”, diz.

Do ponto de vista artístico, há obras que chamam a atenção. Uma delas é a luminária Vírus, que foi exposta ano passado na 4ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, de outubro a dezembro; antes, em setembro, ficou em cartaz no saguão do Teatro Municipal de Santo André, junto com as peças que se tornaram estrelas da exposição, como o capacete cravejado de pregos e a chaise long. As novidades na exposição de hoje são releituras que os operários do canteiro da Setin, no Cambuci, fizeram da exposição Volpi: A Música da Cor, em cartaz no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Alfredo Volpi (1896-1988), pintor italiano que escolheu o Brasil para criar e o bairro Cambuci para morar parte de sua vida, também foi um mestre pintor, que elegeu cores e formas como objeto.

Do ponto de vista da crítica social, há obras de impacto. O capacete cravejado, por exemplo, uma coroa de espinhos que simboliza o sacrifício diário do operário, segundo sua própria leitura do dia-a-dia. Voltando a Brecht, a exposição Consciente Criativo responde algumas das perguntas que o escritor fez no poema Perguntas de um Operário que Lê: “Quem construiu a Tebas das Sete Portas?/ Nos livros constam nomes de reis./ Foram eles que carregaram as rochas?/ E a Babilônia destruída tantas vezes?/ Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?/ Quais as casas de Lima dourada abrigavam os pedreiros?/ Na noite em que se terminou a muralha da China para onde foram os operários da construção?/ A eterna Roma está cheia de arcos de triunfo./ Quem os construiu?/ (...) Cada página uma vitória./ Quem preparava os banquetes da vitória?/ De dez em dez anos um grande homem./ Quem paga as suas despesas?/ Tantas histórias./ Tantas perguntas.”


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