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Edson Cordeiro volta para a música erudita


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

22/08/2005 | 08:03


O religare está feito. Edson Cordeiro, que parecia ter definitivamente fincado os pés no universo das pistas com quatro álbuns seguidos de disco music (de 1997 a 2001), volta a emprestar a voz para a música erudita, com a qual teve seu flerte mais forte no início da carreira. A mudança de rumo – pelo menos temporariamente – está selada com Contratenor (Paulus, R$ 40 em média), disco em que o cantor de Santo André interpreta músicas do período barroco. A estréia do novo repertório no palco ocorre nesta segunda-feira, às 21h, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo.

Verdade que o cantor gravou e até agradou com algumas árias. Mas só agora considera estar fazendo um trabalho de acordo com o que exige o gênero. Há dois anos estuda canto, com aulas comandadas por Eduardo Janho-Abumrad três vezes por semana. Fora isso, parou de fumar, de tomar bebidas alcoólicas e está bem mais disciplinado.

Há praticamente um reaprendizado, que não dispensa a vocação natural, mas que trabalha a questão da respiração, da colocação da voz, do respeito à partitura. "A música erudita é muito difícil. Você anda quilômetros para ter um pouco de resultado. Estou só no começo. É como se estivesse construindo uma nova carreira", afirma.

Não que a empreitada tivesse tornando-o mais autocrítico em relação ao passado. "Não acho que fiz ruim. Pelo contrário, acredito até ter sido um mérito cantar daquela maneira, só de forma intuitiva", diz.

O repertório que escolheu não é fácil. O foco vai para o século XVIII, época em que os castrati, cantores castrados e, por isso, com voz bastante aguda, faziam enorme sucesso. Era o tempo do virtuosismo vocal.

Para Cordeiro, foram dois os motivos principais dessa escolha: o fato de ter uma voz próxima à daqueles homens (mas não igual) e a paixão pelo estilo. Para se ter uma idéia, basta dizer que é a música que ele põe quando corre na esteira elétrica: "Normalmente eu ligo na MTV, sem volume, e ponho discos de Vivaldi, Haendel... É uma música que te dá esperança, te tira da mediocridade, do desamparo que é a vida. A música salva", sentencia o cantor.

Uma das árias, Or La Tromba, da ópera Rinaldo, de Georg Friedrich Haendel (1685-1759), Cordeiro já costumava cantar antes de subir ao palco, numa espécie de ritual. "Ela me abre o apetite (artístico). Além disso, também ajudava a aquecer as cordas vocais."

Dos camarins para o estúdio, Edson diz que a música mudou. Em virtude do que aprendeu nas aulas e porque, seguindo a tradição barroca, canta toda a ária fiel à partitura; na repetição, faz os improvisos. "Nas óperas, isso só acontece no barroco. Para você ver que a improvisação surgiu bem antes do jazz...", diz.

O cantor também tentou mesclar dois aspectos do barroco: as árias que falam da bravura dos heróis e as litúrgicas. Tem um pouco de virtuosismo e agilidade e um tanto de suavidade. "O barroco é contraste", define. Fora isso, mostra sua veia teatral nos recitativos, em que é preciso não só o dom do canto, mas a representação dramática do personagem.

Entre as 14 faixas, estão recitativo e ária de Ombra Mai Fú (ópera Xerxes), de Haendel; Lascia Ch’io Pianga (Rinaldo), de Haendel; e Che Farò Senza Euridice (Orfeu e Eurídice), de Christoph Willibad von Gluck (1714-1787), na qual ele se sai melhor. Entre outras escolhidas estão Va Tacito e Nascosto (da ópera Giulio Césare), de Haendel; Pallido Il Sole (Antaxerxes), de Johann Adolph Hasse (1699-1783), e Venga Pur (Mitridate Rè Di Ponto), de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). No CD, também se destaca a interpretação ágil, límpida e delicada do pianista Antonio Vaz Lemes, que acompanha Cordeiro em todo o disco.

Contratenor traz encarte trilíngüe: italiano (ou inglês), português e alemão. Isso porque Cordeiro tem público cativo na Alemanha, onde o disco foi lançado primeiramente, em maio. Em outubro, o cantor viajará para o país, para apresentar-se com a banda de jazz Klazz Brothers. Sinal evidente de que não abandonará a música popular. Nem a disco music, ele jura.

Sagrado – De certa forma, o religare de Cordeiro não está só no retorno a um gênero, mas na retomada do elo com a música religiosa. O artista, que começou a cantar ainda menino em uma igreja evangélica no Parque Novo Oratório, em Santo André, agora dá voz a músicas como Stabat Mater, de Antonio Vivaldi (1678-1741); He Was Despissed (Oratório Messias), de Haendel, e a famosa Ave Maria, de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Charles Gounod (1818-1893).

Na família do músico há um bispo, um frei e duas freiras, todos tios de Cordeiro. Mas questionado sobre o teor religioso de seu trabalho, desconversa: "Quando saí da igreja (evangélica) descobri a cantora gospel Mahalia Jackson. Queria levar o louvor comigo. Gostei desse religação, mas não gosto de me definir do ponto de vista religioso. É muito íntimo". Para ele, sagrado é o palco.

Contratenor – Show de Edson Cordeiro, piano e voz. Nesta segunda-feira e dia 29, às 21h. No Teatro Cultura Artística – r. Nestor Pestana, 196. Tel.: 3258-3344. Ingr.: R$ 30.



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