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Chico para ver e ouvir


Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

18/05/2006 | 10:02


As interpretações e arranjos denotam o deslumbramento de quem produziu a primeira canção, ainda com muito esforço e sem os vícios de compositores estabelecidos. No quesito literário, um retrato lírico do Rio, cidade que preserva os encantos de outros tempos no olhar do cantor-escritor-poeta, apesar da violência e da miséria de sua gente. São esses os dois aspectos fundamentais de Carioca (Biscoito Fino, R$ 38), novo álbum de Chico Buarque e seu primeiro de inéditas desde 1998, ano de lançamento de As Cidades.

Ironicamente, Chico dedicou o trabalho a São Paulo, terra de seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, onde passou grande parte de sua adolescência e ganhou dos colegas o apelido que dá nome ao disco. Apesar da "homenagem", produziu um atestado de carioquice, com as benesses e os transtornos decorrentes disso expressos em 12 canções.

Em Subúrbio, choro-canção que abre o disco, demonstra fina sintonia com a linguagem contemporânea desta área em que o Estado há muito deixou de ser a instituição oficial. "Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae/ Fala na língua do rap/ Desbanca a outra/A tal que abusa de ser tão maravilhosa/(...) Lá não tem claro-escuro/ A luz é dura, a chapa é quente/Que futuro tem aquela gente toda".

Chico trata sobre o impossível e relembra do pai, em Outros Sonhos. A canção, misto de fox-trote e xote inclui uma estrofe em espanhol de um autor anônimo sempre cantarolada por Sérgio. "Soñe que el fogo helaba/ Soñe que la nieve ardia/Y por soñar lo imposible/ Soñe que tu me querias" ("Sonhei que o fogo gelava/ Sonhei que a neve ardia/ E por sonhar o impossível/ Sonhei que você me queria"). É nesta música que ele escancara sua posição favorável à descriminalização das drogas, ao falar sobre um sonho em que "a maconha era comprada na tabacaria".

A realidade e seu aspecto mais urgente e trágico é descrita no rap-baião Ode aos Ratos, parceria de com o velho companheiro Edu Lobo para a peça Cambaio, de Adriana e João Falcão. O amor em sua forma mais primitiva e contundente é o tema de Porque Era Ela, Porque Era Eu, que faz parte da trilha do filme, A Máquina, de João Falcão.

Um relato da juventude e do fascínio exercido pelas divas do cinema é a base da canção As Atrizes. "Com tantos filmes na minha mente, é natural que toda atriz/ Presentemente, represente muito pra mim". Dura na Queda, samba de gafieira tão típico do universo poético de Chico, com sua descrição de uma foliã desvairada que sobrevive a muitos carnavais, que segundo ele, recebeu o título Ela Desatinou 2, em referência a um velho sucesso do compositor. Foi gravada originalmente pela cantora Elza Soares, no disco Do Cóccix até o Pescoço, lançado em 2002.

Há outros bons momentos como Renata Maria que marca a primeira dobradinha musical de Chico com Ivan Lins, feita sob encomenda para a cantora Leila Pinheiro; o bolero Leve, feito com Carlinhos Vergueiro; e Imagina, que conta com a participação especial da cantora paulistana Mônica Salmaso. A melodia da canção foi composta pelo "maestro soberano" Tom Jobim, ainda em início de carreira, em 1947, a partir de um exercício de piano. O disco pode ser comprado em edição que contém o DVD Desconstrução (R$ 55 em média), do diretor Bruno Natal, com o making of das gravações de Carioca.

Outras faixas

Dura na Queda - Samba de gafieira típico do universo de Chico gravado originalmente pela cantora Elza Soares

As Atrizes - Mostra um Chico com alma de adolescente, deslumbrado pelas encantadoras musas do cinema. "Com tantos filmes na minha mente/ É natural que toda atriz/ Presentemente, represente muito para mim".

Ela Faz Cinema - mais um exemplo do fascínio do músico pela arte dramática. "Quando ela chora, não sei se é dos olhos pra fora/Não sei do que ri/ Eu não se ela agora está fora de si".

Bolero Blues - Parceria com Jorge Helder encharcada de saudosismo e melancolia.

Leve - Belo bolero composto com Carlinhos Lyra. O personagem da canção é um sedutor nato que não quer saber de compromissos e, cinicamente, dá conselhos à mulher que magoou. "Não beba muita cachaça/Não se esqueça depressa de mim, sim?/Pense que eu cheguei de leve/Machuquei você de leve/E me retirei com pés de lã".

Sempre - Balada composta para o filme O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues.



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Chico para ver e ouvir

Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

18/05/2006 | 10:02


As interpretações e arranjos denotam o deslumbramento de quem produziu a primeira canção, ainda com muito esforço e sem os vícios de compositores estabelecidos. No quesito literário, um retrato lírico do Rio, cidade que preserva os encantos de outros tempos no olhar do cantor-escritor-poeta, apesar da violência e da miséria de sua gente. São esses os dois aspectos fundamentais de Carioca (Biscoito Fino, R$ 38), novo álbum de Chico Buarque e seu primeiro de inéditas desde 1998, ano de lançamento de As Cidades.

Ironicamente, Chico dedicou o trabalho a São Paulo, terra de seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, onde passou grande parte de sua adolescência e ganhou dos colegas o apelido que dá nome ao disco. Apesar da "homenagem", produziu um atestado de carioquice, com as benesses e os transtornos decorrentes disso expressos em 12 canções.

Em Subúrbio, choro-canção que abre o disco, demonstra fina sintonia com a linguagem contemporânea desta área em que o Estado há muito deixou de ser a instituição oficial. "Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae/ Fala na língua do rap/ Desbanca a outra/A tal que abusa de ser tão maravilhosa/(...) Lá não tem claro-escuro/ A luz é dura, a chapa é quente/Que futuro tem aquela gente toda".

Chico trata sobre o impossível e relembra do pai, em Outros Sonhos. A canção, misto de fox-trote e xote inclui uma estrofe em espanhol de um autor anônimo sempre cantarolada por Sérgio. "Soñe que el fogo helaba/ Soñe que la nieve ardia/Y por soñar lo imposible/ Soñe que tu me querias" ("Sonhei que o fogo gelava/ Sonhei que a neve ardia/ E por sonhar o impossível/ Sonhei que você me queria"). É nesta música que ele escancara sua posição favorável à descriminalização das drogas, ao falar sobre um sonho em que "a maconha era comprada na tabacaria".

A realidade e seu aspecto mais urgente e trágico é descrita no rap-baião Ode aos Ratos, parceria de com o velho companheiro Edu Lobo para a peça Cambaio, de Adriana e João Falcão. O amor em sua forma mais primitiva e contundente é o tema de Porque Era Ela, Porque Era Eu, que faz parte da trilha do filme, A Máquina, de João Falcão.

Um relato da juventude e do fascínio exercido pelas divas do cinema é a base da canção As Atrizes. "Com tantos filmes na minha mente, é natural que toda atriz/ Presentemente, represente muito pra mim". Dura na Queda, samba de gafieira tão típico do universo poético de Chico, com sua descrição de uma foliã desvairada que sobrevive a muitos carnavais, que segundo ele, recebeu o título Ela Desatinou 2, em referência a um velho sucesso do compositor. Foi gravada originalmente pela cantora Elza Soares, no disco Do Cóccix até o Pescoço, lançado em 2002.

Há outros bons momentos como Renata Maria que marca a primeira dobradinha musical de Chico com Ivan Lins, feita sob encomenda para a cantora Leila Pinheiro; o bolero Leve, feito com Carlinhos Vergueiro; e Imagina, que conta com a participação especial da cantora paulistana Mônica Salmaso. A melodia da canção foi composta pelo "maestro soberano" Tom Jobim, ainda em início de carreira, em 1947, a partir de um exercício de piano. O disco pode ser comprado em edição que contém o DVD Desconstrução (R$ 55 em média), do diretor Bruno Natal, com o making of das gravações de Carioca.

Outras faixas

Dura na Queda - Samba de gafieira típico do universo de Chico gravado originalmente pela cantora Elza Soares

As Atrizes - Mostra um Chico com alma de adolescente, deslumbrado pelas encantadoras musas do cinema. "Com tantos filmes na minha mente/ É natural que toda atriz/ Presentemente, represente muito para mim".

Ela Faz Cinema - mais um exemplo do fascínio do músico pela arte dramática. "Quando ela chora, não sei se é dos olhos pra fora/Não sei do que ri/ Eu não se ela agora está fora de si".

Bolero Blues - Parceria com Jorge Helder encharcada de saudosismo e melancolia.

Leve - Belo bolero composto com Carlinhos Lyra. O personagem da canção é um sedutor nato que não quer saber de compromissos e, cinicamente, dá conselhos à mulher que magoou. "Não beba muita cachaça/Não se esqueça depressa de mim, sim?/Pense que eu cheguei de leve/Machuquei você de leve/E me retirei com pés de lã".

Sempre - Balada composta para o filme O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues.

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