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Abu paga suas contas


Renata Petrocelli
Da TV Press

28/11/2004 | 13:47


Em Começar de Novo, o intelectual Dimitri tem sempre um argumento na ponta da língua para tentar colocar um pouco de ordem na cabeça do atormentado amigo Miguel Arcanjo, vivido por Marcos Paulo. Fora das telas, seu intérprete, Antônio Abujamra, Abu para os íntimos, gosta mesmo é de tirar as coisas do lugar. Aos 73 anos, o artista contestador, que já dirigiu mais de cem peças de teatro e classifica a TV como "um rascunho", garante que se diverte fazendo novelas. E parece se divertir ainda mais com as inquietações de quem tenta entender sua lógica. "Recebi centenas de e-mails dizendo que eu não deveria fazer a novela. Respondo que tenho de fazer a feira, que devo dinheiro a todo mundo, que jogo em cavalos e perco", diz.

Dono de uma irreverência ácida, o ator e diretor propala aos quatro ventos sua aversão a entrevistas. Mas, no fundo, parece interpretar mais um de seus inúmeros personagens. Num minuto, garante não agüentar mais ouvir "perguntas medíocres" e, no seguinte, discorre com entusiasmo sobre sua arte. E acaba por revelar o segredo do jogo em que transforma a entrevista, tentando arrancar dela algum sentido artístico. "Quem tem medo deve ser estraçalhado", afirma, com um sorriso sutil.

É esta mesma filosofia que Abujamra aplica no Provocações, programa que comanda há quatro anos na TV Cultura. Neste período, cerca de 500 pessoas – entre intelectuais, artistas e pessoas anônimas, como engraxates, sapateiros, empregadas domésticas e prostitutas – já enfrentaram sua língua afiada.

PERGUNTA: Você aparece raramente em novelas. O que o faz se render a um convite?

ANTÔNIO ABUJAMRA: Ser ator. Eu sou um ator de teatro, de cinema, de TV. Minha profissão é esta. Era diretor até 1988, depois virei ator. Ser ator é absolutamente maravilhoso para mim, porque existe uma zona escura no palco em que o diretor não entra. O palco é só do ator. E ser ator na televisão é outro tipo de colocação. É mais uma execução do seu ofício que uma fornalha para a criação de um gestual, como é o teatro. Então, ser ator me leva a trabalhar nos lugares onde eu exista como ator.

PERGUNTA: Como é contracenar com atores iniciantes depois de ter trabalhado com eles tantos anos no teatro?

ABUJAMRA: Eu dirigi os melhores e os piores atores do Brasil. Dirigi Cacilda Becker, Jardel Filho, Glauce Rocha, Lilian Lemmertz, Denise Stoklos, Vera Holtz. E sempre digo que, assim como no Jockey Club há os caras que treinam melhor éguas, eu sempre fui um grande treinador de éguas. Sempre dirigi melhor as mulheres que os homens brasileiros. Mas, hoje, olhar o trabalho de jovens atores é só olhar. Olhar e pensar que preciso começar a escolher a cor do meu caixão.

PERGUNTA:Que papel você acha que a TV exerce para o artista brasileiro?

ABUJAMRA: Eu acredito que a televisão obrigue o ator a ser mais sabido: que seja claro, rápido, inteligente e que, quando vá fazer teatro, perceba que uma linguagem é uma linguagem, e outra linguagem é outra linguagem. A televisão ajuda num monte de coisas, mas também é maquiavélica no sentido de massacrar pessoas que têm só a beleza e não exercem a força de criar seu talento dentro desta beleza. A beleza sempre atrai tragédia, é preciso ter muito cuidado.

PERGUNTA: E para o público, o que você acha que a TV representa?

ABUJAMRA: Acho que é uma das grandes invenções de todos os tempos. O público está aí, maravilhado por esta tecnologia, pelo futebol, pelo Carnaval, pelas belezas que pode ver, pela provável felicidade que pode vir a ter, pela crença de que a felicidade não é uma idéia velha, pela crença de que a vida não é uma causa perdida. A TV está aí fingindo que as coisas podem dar certo. Poderia ser uma coisa genial, todo mundo sabe disso.

PERGUNTA: É mais fácil se aproximar deste genial tendo um programa próprio na TV?

ABUJAMRA: Acho muito difícil fazer uma coisa boa em televisão. Os donos das emissoras não querem que o povo realmente saiba das coisas. Eles querem é Ibope, querem faturar e faturam muito bem. A televisão ainda é virgem, tem de ser descoberta. E como é que se descobre uma virgem? Como é que se leva uma virgem a fazer as coisas acontecerem gostosamente para ela e para você? Eu já trabalhei muito em TV, dirigi na Tupi, na Excelsior, na Bandeirantes, na Cultura, fiz teleteatro sem parar. Antigamente, alguns diretores pediam coisas que se aproximavam mais de algo artístico. A Globo pode fazer o que quiser e dará certo, poderia experimentar muito mais, coisas fantásticas. E num momento vai dar certo. É claro que um dia cai. Um dia caiu Nero, caiu a Grécia, os Estados Unidos cairão, todo mundo cai. Mas o fato é que a TV ainda precisa ser descoberta.



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