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Livro mostra que resistência corsária sobrevive


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

30/09/2001 | 17:42


Histórias de pirataria sempre tiveram ar romântico, seja entre marinheiros seja entre hackers navegadores da Internet de hoje. Surge, porém, uma abordagem inédita: corsários e bucaneiros teriam formado culturas de resistência à civilização ocidental, econômica e sexualmente opressora, baseadas no islamismo, e atraíram europeus.

Assim é Utopias Piratas: Mouros, Hereges e Renegados (Conrad, 192 págs., R$ 25), do estudioso norte-americano de heresias e piratarias Peter Lamborn Wilson. Neste livro, ele sugere como cidades-estados muçulmanas independentes no norte da África na primeira metade do século XVII teriam inspirado os ideais democráticos que vingaram a partir do século XVIII.

Wilson publicou TAZ (Temporary Autonomous Zone), sobre “zonas autônomas temporárias” de caráter volátil e passageiro, cuja pretensão é realizar utopias aqui e agora. Sua inspiração seriam estas utopias piratas, sua materialização hoje em dia seriam festas, raves, Carnaval, websites de livre informação etc, e a internet seria seu lugar ideal, livre de Estado e de leis.

Wilson reproduz algumas aventuras e relatos de piratas em um texto fluente, mesmo na parte mais teórica. Simpático aos piratas muçulmanos que viviam em Rabat, Salé e Argel, ele derruba os conceitos europeus que vingavam sobre a região: antro de ladrões, de barbárie, de perversão e masmorra para cristãos.

Ele questiona como uma sociedade assim teria sobrevivido durante 300 anos e o que teria feito europeus embarcarem na onda da pirataria, além da pilhagem de ouro. O islã era uma religião nova e mais liberal do que a cristã, e as cidades do norte da África conseguiam uma independência incomum: o sustento econômico vinha de fora das fronteiras, da ação violenta dos corsários.

Sua organização pressupunha eleição de representantes e a máquina administrativa admitia promoções. Quanto à violência, nada além do que se via nas sociedades européias de então. Oprimidos por um sistema de exploração selvagem e sem vantagens, e sob os dogmas de uma religião castradora, os europeus teriam percebido que do outro lado havia uma diferença.

O autor desafia historiadores a revisar a história escrita pelos “pseudo-racionalistas europeus (e euro-americanos) apologistas da pirataria praticada por estados nações cristãos brancos, em oposição à pirataria praticada por meros ‘anarquicalistas’ mouros”.

Uma ligação neste novo trabalho com a nossa época pode estar na virtualização do mundo moderno. Movimentos subversivos, como a pirataria, e anarquistas nômades, como hackers, nunca falaram a linguagem das grandes corporações nem a do mercado. Uma teoria rebelde, portanto.



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Livro mostra que resistência corsária sobrevive

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

30/09/2001 | 17:42


Histórias de pirataria sempre tiveram ar romântico, seja entre marinheiros seja entre hackers navegadores da Internet de hoje. Surge, porém, uma abordagem inédita: corsários e bucaneiros teriam formado culturas de resistência à civilização ocidental, econômica e sexualmente opressora, baseadas no islamismo, e atraíram europeus.

Assim é Utopias Piratas: Mouros, Hereges e Renegados (Conrad, 192 págs., R$ 25), do estudioso norte-americano de heresias e piratarias Peter Lamborn Wilson. Neste livro, ele sugere como cidades-estados muçulmanas independentes no norte da África na primeira metade do século XVII teriam inspirado os ideais democráticos que vingaram a partir do século XVIII.

Wilson publicou TAZ (Temporary Autonomous Zone), sobre “zonas autônomas temporárias” de caráter volátil e passageiro, cuja pretensão é realizar utopias aqui e agora. Sua inspiração seriam estas utopias piratas, sua materialização hoje em dia seriam festas, raves, Carnaval, websites de livre informação etc, e a internet seria seu lugar ideal, livre de Estado e de leis.

Wilson reproduz algumas aventuras e relatos de piratas em um texto fluente, mesmo na parte mais teórica. Simpático aos piratas muçulmanos que viviam em Rabat, Salé e Argel, ele derruba os conceitos europeus que vingavam sobre a região: antro de ladrões, de barbárie, de perversão e masmorra para cristãos.

Ele questiona como uma sociedade assim teria sobrevivido durante 300 anos e o que teria feito europeus embarcarem na onda da pirataria, além da pilhagem de ouro. O islã era uma religião nova e mais liberal do que a cristã, e as cidades do norte da África conseguiam uma independência incomum: o sustento econômico vinha de fora das fronteiras, da ação violenta dos corsários.

Sua organização pressupunha eleição de representantes e a máquina administrativa admitia promoções. Quanto à violência, nada além do que se via nas sociedades européias de então. Oprimidos por um sistema de exploração selvagem e sem vantagens, e sob os dogmas de uma religião castradora, os europeus teriam percebido que do outro lado havia uma diferença.

O autor desafia historiadores a revisar a história escrita pelos “pseudo-racionalistas europeus (e euro-americanos) apologistas da pirataria praticada por estados nações cristãos brancos, em oposição à pirataria praticada por meros ‘anarquicalistas’ mouros”.

Uma ligação neste novo trabalho com a nossa época pode estar na virtualização do mundo moderno. Movimentos subversivos, como a pirataria, e anarquistas nômades, como hackers, nunca falaram a linguagem das grandes corporações nem a do mercado. Uma teoria rebelde, portanto.

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