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Pela valorização dos atletas brasileiros


Dérek Bittencourt

03/08/2021 | 00:01


Os Jogos Olímpicos têm poderes para, a cada quatro anos – geralmente –, proporcionar série de debates sobre esportes e esportistas. Estamos em meio à Olimpíada de Tóquio e, em frente às telas de televisão, celulares e tablets, nos deparamos com diversos questionamentos e indagações, entre elas algumas relativas a desempenhos e resultados. Consequentemente, não é difícil em uma roda de conversa se deparar com pessoas que criticam um atleta por não ter chegado ao pódio ou então alguém que condena favoritos que não alcançaram o ouro. Para mim, honestamente, condicionar o sucesso de um competidor por aquilo que ele fez em apenas uma prova é inconcebível. Mais do que isso. Dizer que desportista é um perdedor ou julgá-lo por não ter ficado em primeiro, segundo ou terceiro lugar é de uma falta de sensibilidade tremenda.

Parto do princípio de que apenas por estar participando do maior evento esportivo do mundo já é uma vitória – ainda mais muitos dos brasileiros, que têm de superar primeiramente a falta de estrutura, incentivo e investimento antes de encarar os melhores do planeta em busca da glória. E mesmo aqueles que contam com patrocínios e treinam em bons clubes, têm pela frente os melhores de cada continente pela frente. Assim sendo, uma vez qualificados para os Jogos, pondero: o que vier é lucro. Óbvio que todos desembarcam com a expectativa de ser medalhista, mas, ao mesmo tempo, cientes de que apenas três (ou quatro, dependendo da modalidade) alcançarão tal feito.

É claro que alguns atletas geram mais expectativas do que outros, mas não podemos confundir isso com a obrigatoriedade de que conquistem medalhas. Vou usar como exemplo alguns dos atletas ligados ao Grande ABC para ilustrar e fundamentar meu pensamento. O são-caetanense Arthur Zanetti, por exemplo, é especialista nas argolas na ginástica artística, tem duas medalhas olímpicas no currículo. Um ouro, em Londres-2012, e uma prata, na Rio-2016. Claro que, consequentemente, entra na disputa como alguém que pode obter êxito novamente. E ontem tentou fazer algo diferente para alcançar mais um pódio olímpico na que pode ter sido sua última aparição em Olimpíada. Caiu, terminou em oitavo. Dá para dizer que é um fracassado? Dias antes, a taekwondista Milena Titoneli, também de São Caetano, acabou derrotada na disputa do bronze, terminando na quinta colocação em sua primeira participação em Jogos Olímpicos. Ou seja, está entre as cinco melhores do mundo! Claro que a atleta ficou chateada, frustrada, mas receber críticas sobre sua posição final é, de maneira rasa, descredibilizar toda sua trajetória até Tóquio. Já as jovens meninas do tênis de mesa – sobretudo as ligadas à região, casos de Bruna Takahashi e Caroline Kumahara –  tiveram pela frente a forte equipe de Hong Kong (top 5 do mundo) logo de cara no torneio feminino e, apesar de fazerem frente, acabaram derrotadas por 3 jogos a 1. Alguém realmente acha que fracassaram? O técnico Hugo Hoyama responde. “Para mim, foi um dos melhores jogos de equipes que já fizemos. Queria parabenizá-las”, exaltou. Reconhecimento. Puro, simples e merecido. E isso não é ‘passar o pano’ para um insucesso. Pelo contrário. É saber identificar que todo o esforço feito para chegar até ali teve seu valor e que uma derrota não deve desmerecer o trabalho árduo de semanas, meses e anos.

Não esqueçamos que esses atletas citados passaram mais de um ano treinando de maneira adaptada em razão da pandemia do novo coronavírus. Zanetti, por exemplo, usou cadeiras da sala de casa para treinar alguns exercícios, transformando sua residência em academia para manter o condicionamento físico. Milena, por sua vez, foi junto de colegas e treinadores para um sítio no Interior, que foi adaptado e transformado em um CT de takewondo para driblar o fechamento dos ginásios da modalidade. As mesa-tenistas, por suas vezes, deixaram as famílias no Brasil e foram para a Europa tentar manter as atividades em alto nível. Portanto, quem vê resultado e o considera como sinônimo absoluto de sucesso ou fracasso não leva em conta a trajetória até ali, o suor, os esforços, a dedicação.

Ocasionalmente, estou falando de atletas que contam com patrocínios e integram equipes, mas que, nem por isso, têm mais ou menos obrigação de trazer uma medalha. E se abrirmos o leque para toda a delegação brasileira em Tóquio, o cenário não muda. Ainda assim, nossos representantes conseguem ficar à frente de adversários de países que aplicam muito dinheiro no esporte, desde as escolinhas e categorias de base até na construção de estruturas com o que há de melhor para o desenvolvimento de esportistas. Ou seja, além de terem de se deparar com críticas e cobranças, ainda enfrentam competidores que, desde crianças, estiveram inseridos em processos muito mais estimulantes, com estruturas mais sólidas, reconhecimento e retaguarda – inclusive (e sobretudo) financeira.

Ouvi e li críticas à forma como a mídia retrata o passado difícil e de superação de alguns atletas. Ora, francamente. Não poder contar a história do começo do surfista Ítalo Ferreira pegando as primeiras ondas em cima de tampas de isopor das caixas de peixe que o pai vendia no Rio Grande do Norte ou falar sobre o início difícil da ginasta Rebeca Andrade em Guarulhos não é romantizar um problema socioeconômico do Brasil. É enfatizar que, apesar disso, eles foram capazes de chegar ao ápice do esporte. E mesmo que não tivessem sido medalhistas, ainda assim devem ser tratados como campeões. Parabéns a todos, sem exceção! 



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