Fechar
Publicidade

Segunda-Feira, 13 de Julho

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Política

politica@dgabc.com.br | 4435-8391

‘Fiquei com muita raiva do Delúbio’


Alceu Luis Castilho
Especial para o Diário

17/12/2006 | 21:40


Entre os 513 deputados eleitos ele é quem tem a origem mais parecida com a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu amigo. Foi seu sucessor no Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC e se projetou como presidente da Central Única dos Trabalhadores. Reeleito para a Câmara, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-São Bernardo), toma muito cuidado nas respostas para não fazer críticas ao governo ou ao PT.

“Quem faz isso aparece facilmente na mídia”, alfineta. Mas, em relação ao partido, sua crítica aparece de outro modo, pela forma propositiva. Ao defender o retorno às bases e aos núcleos, ele critica o distanciamento da cúpula em relação ao povo, as campanhas milionárias (com práticas como compra de parlamentares) e até diz que teme pela destruição do PT, pela aproximação com a lógica de outros partidos.

Vicentinho conta que teve raiva de Delúbio Soares e do PT por ter tido uma campanha pobre na disputa pela Prefeitura de São Bernardo, em 2004. E propõe a adoção interna do orçamento participativo. Dividido nesta legislatura entre a causa negra e a sindical, ele identifica racismo entre parlamentares e declara que quer se afirmar como o “deputado dos trabalhadores”.

DIÁRIO – O senhor já tem um levantamento da nova “bancada negra” eleita para a Câmara?

VICENTINHO – Ainda não. Só sei que no Estado de São Paulo a gente teve um crescimento de 100%, pois eu era o único e agora foi eleita a companheira Janete Pietá (PT).

DIÁRIO – O fato de o senhor ter abraçado a questão racial não o distanciou da origem sindical?

VICENTINHO – Continuo sendo o deputado dos trabalhadores. É o que quero nesta gestão. A questão racial aprendi também no sindicato. Quando eu era presidente a gente fez uma vez uma vigília contra a discriminação racial.

DIÁRIO – Existe racismo no Congresso?

VICENTINHO – Existe. Em qualquer lugar. De vez em quando vejo alguns pronunciamentos, algumas frases que, se não demonstram que a pessoa é racista, demonstram que ela é igual a qualquer pessoa do Brasil. Piadas, brincadeiras, a gente vê a cada esquina, a cada momento.

DIÁRIO – O fato de o governador Cláudio Lembo, do PFL, ter consagrado a expressão ‘elite branca’ não indica que o PT e a esquerda perderam o discurso?

VICENTINHO – Continua sendo o tema de nosso partido. A esquerda como um todo não é sensibilizada pela questão social. Entendem que a panacéia vem quando se discute todas as questões, a melhoria da situação do povo brasileiro. Nesse contexto é que viriam também os direitos do povo negro. Pensamos diferente: damos destaque ao povo negro, sem esquecer as questões sociais. Nem vejo contradição entre cota social e cota racial. Mas a esquerda mais clássica não assume o combate ao racismo.

DIÁRIO – Por quê?

VICENTINHO – Acho que falta de sensibilidade mesmo. Que tese é escrita pelos grandes escritores da União Soviética, Europa? Não se vê nada que fale dessa questão. Talvez quem escreveu não viveu essa situação. O Brasil tem a própria história.

DIÁRIO – Sobre sindicalismo: muda alguma coisa no segundo governo Lula?

VICENTINHO – O sindicalismo nos últimos anos tem tido maturidade. Não abre mão de sua base, mas olha onde é preciso conquistar. Não abre mão de fazer greve, mas se tem um dirigente que é oriundo do movimento sindical e aprova teses que são reivindicações do movimento sindical, então sabe que é bom, uma boa coincidência. A luta é salutar e se vai continuar lutando.

DIÁRIO – O senhor tem contato estreito com o Lula?

VICENTINHO – Sim, temos uma relação de amizade. Nos últimos 50 dias nos encontramos três vezes. Eu é que tenho que compreender que ele é o presidente da República. Tem o papel e a história dele. Até queria aproveitar para dizer que, quando o Lula vai para a casa dele, ele quer descansar. Quer ficar com a sua família. Quer descansar. O Lula não tem mais o tempo que a gente tinha. Não tem mais tempo para tomar cerveja, para conversar, brincar.

DIÁRIO – Quanto ele ficou irritado com a história do dossiê?

VICENTINHO – Sei que ele ficou chateado e continua chateado. Conversei com ele ainda ontem. Quer esclarecimentos, se sentiu realmente traído, que as pessoas não estavam falando a verdade para ele.

DIÁRIO – O senhor disse que não se pode generalizar em relação aos mensaleiros. Mas o João Paulo Cunha, o José Mentor, receberam dinheiro do valerioduto.

VICENTINHO – Eles receberam, deram explicações e em princípio acredito. Eu fui candidato a prefeito de São Bernardo e sofremos muito por falta de dinheiro. Fiquei com muita raiva do Delúbio e do meu partido, porque fizemos uma campanha muito pobre. Mas se ele tivesse dito: Vicentinho, manda o seu tesoureiro pro banco, pegar dinheiro para sua campanha, ele iria para lá - e eu ia cair na armadilha. Faltou mensurar o tamanho da responsabilidade, e portanto não dá para condenar uma pessoa por esse caso. Temos de ser muito cuidadosos, senão a gente pensa que somos maravilhosos e os outros não prestam. Podia acontecer com você, se fosse do partido e estivesse precisando de dinheiro. O partido mandou...

DIÁRIO – Mas aí ninguém é responsável?

VICENTINHO – O tesoureiro é o responsável. O Delúbio é o grande responsável por isso. Ele deveria ter no mínimo analisado essas coisas. Colocou companheiros em situação...

DIÁRIO – Ele tinha essa autonomia toda?

VICENTINHO – Claro. Por isso defendo que no partido haja orçamento participativo. Se o partido defende que a administração tenha orçamento participativo com a comunidade, não pode nos procurar só para pedir dinheiro. Temos de decidir também para onde o dinheiro vai.

DIÁRIO – Em relação ao seu perfil, o senhor tem toda a trajetória na CUT, é depois do Lula o mais conhecido egresso dos sindicatos metalúrgicos. Mas teve uma atuação discreta em sua primeira legislatura. Como está seu trânsito no partido?

VICENTINHO – No Congresso não vou dizer que é uma atuação discreta. Em termos de mídia, sim. Minha atuação foi aprovada pelo Diap, por quatro anos consecutivos. Fui o deputado que mais projetos de lei apresentou no Congresso. Foram 45 até hoje (a entrevista foi realizada no fim de novembro). Fiz mais de 310 pronunciamentos na Câmara. O problema é que para aparecer mesmo, na mídia, ou tem de falar mal do Lula ou do PT. É uma maneira de aparecer. Você se destaca porque fala mal. Ou tem de ser líder da bancada, líder do governo. Ou então você é relator de um projeto importante, que tenha muito repercussão. Quando minha atuação começou a repercutir na mídia, porque era relator da comissão da reforma sindical, veio a maldade do mensalão. Aí parou o debate sindical. Quando ele vier, devo aparecer, muito.

 

DIÁRIO – Os sindicatos estão fora do financiamento eleitoral, com as empresas doando milhões, inclusive para a esquerda. Não há uma distorção aí?

VICENTINHO – O sindicato sempre defendeu autonomia em relação aos partidos políticos. Não é só a lei que proíbe, é uma questão nossa. O ideal é garantir o financiamento público de campanha, sem um único centavo privado.

DIÁRIO – O senhor está satisfeito com a composição da Câmara?

VICENTINHO – Gostaria que tivesse muito mais deputados ligados ao povo, ao povo negro, ao operariado, que a Câmara representasse proporcionalmente como é o povo.

DIÁRIO – E quando isso vai acontecer?

VICENTINHO – Quando o povo tiver mais conscientização. Não eleger artistas, quem aparece na mídia. Mas há perda na própria esquerda, vários formadores de opinião não foram reeleitos, as mulheres...Todas essas pessoas não tiveram as mesmas chances que o Paulo Maluf teve na televisão.


Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

‘Fiquei com muita raiva do Delúbio’

Alceu Luis Castilho
Especial para o Diário

17/12/2006 | 21:40


Entre os 513 deputados eleitos ele é quem tem a origem mais parecida com a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu amigo. Foi seu sucessor no Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC e se projetou como presidente da Central Única dos Trabalhadores. Reeleito para a Câmara, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-São Bernardo), toma muito cuidado nas respostas para não fazer críticas ao governo ou ao PT.

“Quem faz isso aparece facilmente na mídia”, alfineta. Mas, em relação ao partido, sua crítica aparece de outro modo, pela forma propositiva. Ao defender o retorno às bases e aos núcleos, ele critica o distanciamento da cúpula em relação ao povo, as campanhas milionárias (com práticas como compra de parlamentares) e até diz que teme pela destruição do PT, pela aproximação com a lógica de outros partidos.

Vicentinho conta que teve raiva de Delúbio Soares e do PT por ter tido uma campanha pobre na disputa pela Prefeitura de São Bernardo, em 2004. E propõe a adoção interna do orçamento participativo. Dividido nesta legislatura entre a causa negra e a sindical, ele identifica racismo entre parlamentares e declara que quer se afirmar como o “deputado dos trabalhadores”.

DIÁRIO – O senhor já tem um levantamento da nova “bancada negra” eleita para a Câmara?

VICENTINHO – Ainda não. Só sei que no Estado de São Paulo a gente teve um crescimento de 100%, pois eu era o único e agora foi eleita a companheira Janete Pietá (PT).

DIÁRIO – O fato de o senhor ter abraçado a questão racial não o distanciou da origem sindical?

VICENTINHO – Continuo sendo o deputado dos trabalhadores. É o que quero nesta gestão. A questão racial aprendi também no sindicato. Quando eu era presidente a gente fez uma vez uma vigília contra a discriminação racial.

DIÁRIO – Existe racismo no Congresso?

VICENTINHO – Existe. Em qualquer lugar. De vez em quando vejo alguns pronunciamentos, algumas frases que, se não demonstram que a pessoa é racista, demonstram que ela é igual a qualquer pessoa do Brasil. Piadas, brincadeiras, a gente vê a cada esquina, a cada momento.

DIÁRIO – O fato de o governador Cláudio Lembo, do PFL, ter consagrado a expressão ‘elite branca’ não indica que o PT e a esquerda perderam o discurso?

VICENTINHO – Continua sendo o tema de nosso partido. A esquerda como um todo não é sensibilizada pela questão social. Entendem que a panacéia vem quando se discute todas as questões, a melhoria da situação do povo brasileiro. Nesse contexto é que viriam também os direitos do povo negro. Pensamos diferente: damos destaque ao povo negro, sem esquecer as questões sociais. Nem vejo contradição entre cota social e cota racial. Mas a esquerda mais clássica não assume o combate ao racismo.

DIÁRIO – Por quê?

VICENTINHO – Acho que falta de sensibilidade mesmo. Que tese é escrita pelos grandes escritores da União Soviética, Europa? Não se vê nada que fale dessa questão. Talvez quem escreveu não viveu essa situação. O Brasil tem a própria história.

DIÁRIO – Sobre sindicalismo: muda alguma coisa no segundo governo Lula?

VICENTINHO – O sindicalismo nos últimos anos tem tido maturidade. Não abre mão de sua base, mas olha onde é preciso conquistar. Não abre mão de fazer greve, mas se tem um dirigente que é oriundo do movimento sindical e aprova teses que são reivindicações do movimento sindical, então sabe que é bom, uma boa coincidência. A luta é salutar e se vai continuar lutando.

DIÁRIO – O senhor tem contato estreito com o Lula?

VICENTINHO – Sim, temos uma relação de amizade. Nos últimos 50 dias nos encontramos três vezes. Eu é que tenho que compreender que ele é o presidente da República. Tem o papel e a história dele. Até queria aproveitar para dizer que, quando o Lula vai para a casa dele, ele quer descansar. Quer ficar com a sua família. Quer descansar. O Lula não tem mais o tempo que a gente tinha. Não tem mais tempo para tomar cerveja, para conversar, brincar.

DIÁRIO – Quanto ele ficou irritado com a história do dossiê?

VICENTINHO – Sei que ele ficou chateado e continua chateado. Conversei com ele ainda ontem. Quer esclarecimentos, se sentiu realmente traído, que as pessoas não estavam falando a verdade para ele.

DIÁRIO – O senhor disse que não se pode generalizar em relação aos mensaleiros. Mas o João Paulo Cunha, o José Mentor, receberam dinheiro do valerioduto.

VICENTINHO – Eles receberam, deram explicações e em princípio acredito. Eu fui candidato a prefeito de São Bernardo e sofremos muito por falta de dinheiro. Fiquei com muita raiva do Delúbio e do meu partido, porque fizemos uma campanha muito pobre. Mas se ele tivesse dito: Vicentinho, manda o seu tesoureiro pro banco, pegar dinheiro para sua campanha, ele iria para lá - e eu ia cair na armadilha. Faltou mensurar o tamanho da responsabilidade, e portanto não dá para condenar uma pessoa por esse caso. Temos de ser muito cuidadosos, senão a gente pensa que somos maravilhosos e os outros não prestam. Podia acontecer com você, se fosse do partido e estivesse precisando de dinheiro. O partido mandou...

DIÁRIO – Mas aí ninguém é responsável?

VICENTINHO – O tesoureiro é o responsável. O Delúbio é o grande responsável por isso. Ele deveria ter no mínimo analisado essas coisas. Colocou companheiros em situação...

DIÁRIO – Ele tinha essa autonomia toda?

VICENTINHO – Claro. Por isso defendo que no partido haja orçamento participativo. Se o partido defende que a administração tenha orçamento participativo com a comunidade, não pode nos procurar só para pedir dinheiro. Temos de decidir também para onde o dinheiro vai.

DIÁRIO – Em relação ao seu perfil, o senhor tem toda a trajetória na CUT, é depois do Lula o mais conhecido egresso dos sindicatos metalúrgicos. Mas teve uma atuação discreta em sua primeira legislatura. Como está seu trânsito no partido?

VICENTINHO – No Congresso não vou dizer que é uma atuação discreta. Em termos de mídia, sim. Minha atuação foi aprovada pelo Diap, por quatro anos consecutivos. Fui o deputado que mais projetos de lei apresentou no Congresso. Foram 45 até hoje (a entrevista foi realizada no fim de novembro). Fiz mais de 310 pronunciamentos na Câmara. O problema é que para aparecer mesmo, na mídia, ou tem de falar mal do Lula ou do PT. É uma maneira de aparecer. Você se destaca porque fala mal. Ou tem de ser líder da bancada, líder do governo. Ou então você é relator de um projeto importante, que tenha muito repercussão. Quando minha atuação começou a repercutir na mídia, porque era relator da comissão da reforma sindical, veio a maldade do mensalão. Aí parou o debate sindical. Quando ele vier, devo aparecer, muito.

 

DIÁRIO – Os sindicatos estão fora do financiamento eleitoral, com as empresas doando milhões, inclusive para a esquerda. Não há uma distorção aí?

VICENTINHO – O sindicato sempre defendeu autonomia em relação aos partidos políticos. Não é só a lei que proíbe, é uma questão nossa. O ideal é garantir o financiamento público de campanha, sem um único centavo privado.

DIÁRIO – O senhor está satisfeito com a composição da Câmara?

VICENTINHO – Gostaria que tivesse muito mais deputados ligados ao povo, ao povo negro, ao operariado, que a Câmara representasse proporcionalmente como é o povo.

DIÁRIO – E quando isso vai acontecer?

VICENTINHO – Quando o povo tiver mais conscientização. Não eleger artistas, quem aparece na mídia. Mas há perda na própria esquerda, vários formadores de opinião não foram reeleitos, as mulheres...Todas essas pessoas não tiveram as mesmas chances que o Paulo Maluf teve na televisão.

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;