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Arquiteto conta história das enchentes no Grande ABC


José Carlos Pegorim
Do Diário do Grande ABC

24/04/2004 | 18:37


Entre os anos 70 e 80, todas as cidades da região se pavimentaram e canalizaram seus córregos. Limitando cada traço de asfalto, guias e sarjetas à beira da calçada passaram a conduzir as chuvas aceleradamente para galerias pluviais, fazendo chegar as águas instantaneamente aos rios, progressivamente retirados da paisagem urbana. Paradoxalmente, foram nesses anos de concentração do investimento em obras para controlar os rios e as enchentes que elas mais e mais tomaram as páginas dos jornais. Enterradas e sujeitadas, as águas a cada verão se mostravam mais e mais vingativas. Algo saiu errado no plano para domar os rios e a conta foi paga repetidas vezes pelos moradores das cidades.

Em 1968, Santo André já tinha quase 70% da sua população atual (420 mil e 650 mil habitantes, respectivamente) e muitos operários de macacão, mas ainda era uma cidade por fazer do ponto de vista de sua urbanização. Desafiando rios e córregos, os planejadores urbanos fizeram as avenidas de fundo de vale – as marginais e as novas vias sobre os rios, como o Carapetuba e o Cemitério.

As enchentes têm história, e uma parte dela é contada pelo arquiteto Gilson Lameira em uma tese de doutoramento apresentada no fim do mês passado na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo). Lameira foi ex-secretário de Obras (1990-1992) da cidade e coordenador do núcleo de inovações em políticas públicas (1997-2000) nas duas gestões de Celso Daniel. Quadro técnico petista, foi também o responsável pelo lixo e pela limpeza urbana da prefeita paulistana Marta Suplicy.

A tese de Lameira deu às enchentes na região a sua expressão gráfica contando quantas reportagens sobre enchentes o Diário fez entre 1958 e 2002, cerca de mil registros, 238 deles “notáveis”. “Fiz coincidir o período de existência do jornal que, de alguma maneira, começa com a urbanização da cidade.” E transfere a este a responsabilidade de dizer o que pode ser considerado enchente ao noticiá-las. E propõe um tipo de paradoxo: “A construção da cidade constrói as enchentes.”

A decisão de acelerar as águas era tributária do esforço de 50 anos para controlar as águas do Tietê, o mais caudoloso rio da metrópole, responsável por periódicas inundações de várzeas, terras baratas que o frenesi industrial encamparia paulatinamente. O engenheiro Saturnino Brito, em 1929, apresentou o plano de retificação que reduziria a extensão do Tietê de 46 km de meandros para 26 km de quase retas. Ao seu tempo, ele queria eliminar os focos de peste. Morto em seguida, não viveu para ver seu projeto ser posto em prática, não mais pelo viés sanitário, mas porque liberava vastos terrenos próximos ao rio e à ferrovia.

Em 1968, um consórcio de empresas de engenharia contratadas pelo governo do Estado apresentou um plano de drenagem para a Região Metropolitana que enfim mudaria o foco das disputas com os rios. O plano Hibrace, como ficou conhecido, institucionalizou uma estratégia de afastamento das águas – em resumo, fazê-las correr rapidamente para a calha do Tietê e para o interior. No Grande ABC, as obras de infra-estrutura levam cada vez mais depressa a água para os fundos de vale, onde estão os rios. Daí virão as enchentes, muitas enchentes.

Segundo Lameira, o verão de 69/70 foi o primeiro a ter “enchentes sistêmicas” – foram oito naquela estação. Nos 20 anos seguintes, foram feitas praticamente todas as obras de canalização e pavimentação. Na sua primeira passagem pela Prefeitura, Lameira fez 13 obras desse tipo. “Em 90, só tinha o (Jardim) Las Vegas para pavimentar; resta hoje só o (os bairros próximos) Pedroso e além.” E em 90, “há um agravamento das enchentes espetaculares”.

Estava claro que a estratégia de aceleração das águas havia se esgotado. Em 1996, de acordo com Lameira, um segundo plano contratado pelo Estado, o Hidroplan, constatou o “colapso do modelo”. Em resumo: “Caiu a ficha.”

A extraordinária história da luta contra as enchentes, “sempre o primo pobre do discurso oficial”, avalia Lameira, ganharia um novo capítulo. Visto que o volume de água transportado pelos rios da bacia do Tamanduateí em dias de chuva só faria crescer, a melhor solução hidráulica pareceu ser a reversão da cabeceira do rio para a Baixada Santista, e dos ribeirões dos Couros e dos Meninos para a Billings. Como se fossem um ralo artificial.

“O que fez o governo do Estado abrir mão dessa idéia foi o Consórcio do Grande ABC, que democratizou a discussão, trazendo (para esta) os técnicos da região.” A pá de cal foi a grita ambientalista. Entram em cena os piscinões, ou a história recente das enchentes.



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Arquiteto conta história das enchentes no Grande ABC

José Carlos Pegorim
Do Diário do Grande ABC

24/04/2004 | 18:37


Entre os anos 70 e 80, todas as cidades da região se pavimentaram e canalizaram seus córregos. Limitando cada traço de asfalto, guias e sarjetas à beira da calçada passaram a conduzir as chuvas aceleradamente para galerias pluviais, fazendo chegar as águas instantaneamente aos rios, progressivamente retirados da paisagem urbana. Paradoxalmente, foram nesses anos de concentração do investimento em obras para controlar os rios e as enchentes que elas mais e mais tomaram as páginas dos jornais. Enterradas e sujeitadas, as águas a cada verão se mostravam mais e mais vingativas. Algo saiu errado no plano para domar os rios e a conta foi paga repetidas vezes pelos moradores das cidades.

Em 1968, Santo André já tinha quase 70% da sua população atual (420 mil e 650 mil habitantes, respectivamente) e muitos operários de macacão, mas ainda era uma cidade por fazer do ponto de vista de sua urbanização. Desafiando rios e córregos, os planejadores urbanos fizeram as avenidas de fundo de vale – as marginais e as novas vias sobre os rios, como o Carapetuba e o Cemitério.

As enchentes têm história, e uma parte dela é contada pelo arquiteto Gilson Lameira em uma tese de doutoramento apresentada no fim do mês passado na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo). Lameira foi ex-secretário de Obras (1990-1992) da cidade e coordenador do núcleo de inovações em políticas públicas (1997-2000) nas duas gestões de Celso Daniel. Quadro técnico petista, foi também o responsável pelo lixo e pela limpeza urbana da prefeita paulistana Marta Suplicy.

A tese de Lameira deu às enchentes na região a sua expressão gráfica contando quantas reportagens sobre enchentes o Diário fez entre 1958 e 2002, cerca de mil registros, 238 deles “notáveis”. “Fiz coincidir o período de existência do jornal que, de alguma maneira, começa com a urbanização da cidade.” E transfere a este a responsabilidade de dizer o que pode ser considerado enchente ao noticiá-las. E propõe um tipo de paradoxo: “A construção da cidade constrói as enchentes.”

A decisão de acelerar as águas era tributária do esforço de 50 anos para controlar as águas do Tietê, o mais caudoloso rio da metrópole, responsável por periódicas inundações de várzeas, terras baratas que o frenesi industrial encamparia paulatinamente. O engenheiro Saturnino Brito, em 1929, apresentou o plano de retificação que reduziria a extensão do Tietê de 46 km de meandros para 26 km de quase retas. Ao seu tempo, ele queria eliminar os focos de peste. Morto em seguida, não viveu para ver seu projeto ser posto em prática, não mais pelo viés sanitário, mas porque liberava vastos terrenos próximos ao rio e à ferrovia.

Em 1968, um consórcio de empresas de engenharia contratadas pelo governo do Estado apresentou um plano de drenagem para a Região Metropolitana que enfim mudaria o foco das disputas com os rios. O plano Hibrace, como ficou conhecido, institucionalizou uma estratégia de afastamento das águas – em resumo, fazê-las correr rapidamente para a calha do Tietê e para o interior. No Grande ABC, as obras de infra-estrutura levam cada vez mais depressa a água para os fundos de vale, onde estão os rios. Daí virão as enchentes, muitas enchentes.

Segundo Lameira, o verão de 69/70 foi o primeiro a ter “enchentes sistêmicas” – foram oito naquela estação. Nos 20 anos seguintes, foram feitas praticamente todas as obras de canalização e pavimentação. Na sua primeira passagem pela Prefeitura, Lameira fez 13 obras desse tipo. “Em 90, só tinha o (Jardim) Las Vegas para pavimentar; resta hoje só o (os bairros próximos) Pedroso e além.” E em 90, “há um agravamento das enchentes espetaculares”.

Estava claro que a estratégia de aceleração das águas havia se esgotado. Em 1996, de acordo com Lameira, um segundo plano contratado pelo Estado, o Hidroplan, constatou o “colapso do modelo”. Em resumo: “Caiu a ficha.”

A extraordinária história da luta contra as enchentes, “sempre o primo pobre do discurso oficial”, avalia Lameira, ganharia um novo capítulo. Visto que o volume de água transportado pelos rios da bacia do Tamanduateí em dias de chuva só faria crescer, a melhor solução hidráulica pareceu ser a reversão da cabeceira do rio para a Baixada Santista, e dos ribeirões dos Couros e dos Meninos para a Billings. Como se fossem um ralo artificial.

“O que fez o governo do Estado abrir mão dessa idéia foi o Consórcio do Grande ABC, que democratizou a discussão, trazendo (para esta) os técnicos da região.” A pá de cal foi a grita ambientalista. Entram em cena os piscinões, ou a história recente das enchentes.

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