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A vida num mundo
no qual não há vozes

Com poucos entendedores de Libras, a linguagem de sinais,
deficientes auditivos têm dificuldade na hora de se comunicar


Camila Galvez
Do Diário do Grande ABC

07/04/2013 | 07:00


Ir ao banco, passar por consulta médica, participar da reunião de pais na escola do filho. Atividades simples do dia a dia tornam-se complicadas para pessoas com deficiência auditiva. Não é sempre que há funcionários dos setores público e privado treinados em Libras, a Língua Brasileira de Sinais. Sem eles, a comunicação é dificultada.

Heitor Augusto Negresiolo, 28 anos, é um exemplo de pessoa que driblou a deficiência, mas ainda depende de intérpretes para realizar atividades de rotina. Ele trabalha na GM, em São Caetano, desde 2006 e conta com o apoio dos colegas para se comunicar, sendo que um deles é fluente na língua de sinais. Mas, no geral, precisa da mãe, Aparecida de Fátima Negresiolo, 56, para acompanhá-lo em lugares onde sabe que não encontrará pessoas aptas a conversar em Libras. Para dar essa entrevista, inclusive, ele também contou com a ajuda dela.

Aparecida é presidente da Adavida (Associação dos Deficientes Auditivos Visuais e Deficientes Auditivos), criada em 1997 em Santo André para auxiliar o processo de aprendizagem de crianças surdas. Hoje, entre outros trabalhos, ensina a língua de sinais para deficientes ou não. "Acreditamos no bilinguismo, ou seja, no aprendizado das Libras em conjunto com a Língua Portuguesa."

É isso que ajuda Negresiolo quando necessita se comunicar no trabalho ou em outros tipos de situações. Por ser alfabetizado, ele pode escrever o que precisa. "Quando ele era criança, eu escrevia o nome das coisas em tudo, móveis, roupas, material escolar, e explicava em Libras o que era", relembra Aparecida.

Negresiolo, porém, só aprendeu a ler e escrever quando, aos 6 anos, saiu da sala de aula convencional e foi para a Fundação Anne Sulivan, em São Caetano, especializada em diversos tipos de deficiência. Lá, a explicação do conteúdo era feita toda em Libras. "Hoje em dia se discute muito a inclusão, mas é preciso criar ambiente propício para o desenvolvimento da criança, com intérpretes e salas de apoio", garante a presidente da Adavida.

AULAS
A pedagoga Fernanda Vanessa Alves Ribeiro, 34, dá aulas na Adavida e garante que é preciso força de vontade para aprender a se comunicar com os deficientes auditivos. "Não é difícil, mas como qualquer idioma, as Libras exigem estudo e dedicação. Tem gente que aprende fácil, e tem gente que passa a vida estudando e não consegue", diz ela, que tem surdez parcial e ouve com a ajuda de aparelho, mas é fluente na língua de sinais.

Fernanda cursou o Ensino Superior graças ao auxílio dos colegas, que a ajudavam a traduzir as matérias. O marido, porém, não conseguiu prosseguir nos estudos, já que é totalmente surdo, assim como Negresiolo, que concluiu o Ensino Médio. "É preciso se esforçar muito. No fim, vale a pena, mas não são todos que encontram o apoio necessário e intérpretes para ajudar."

Além de atuar na Adavida, Fernanda ensina Libras em empresas e trabalha como interprete em universidades. "Vivo entre dois mundos: o dos ouvintes e o dos surdos. E gosto de ajudar os dois lados a se entenderem."

DEDICAÇÃO
A técnica do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) de São Bernardo Leilane Vizibelli é prova de que a dedicação é o principal fator para aprender Libras. Ela e oito colegas fizeram curso intensivo de uma semana, oferecido pelo próprio INSS, mas Leilane foi a única que conseguiu colocar o que aprendeu em prática e se comunicar com os surdos. "Desde que fiz as aulas, sou responsável por atender todos os clientes surdos da agência. Fiquei ‘famosa' entre eles por sempre me esforçar ao máximo para entender e ser entendida."

Para Leilane, a satisfação de mergulhar no mundo deles e poder ajudar é indescritível. "Eles me contavam sobre suas vidas, seus problemas e suas conquistas. Um casal de surdos em especial fez questão de me apresentar seus três filhos, todos ouvintes. Eles não são apenas clientes: tornaram-se amigos.".

 

Na região há 13 servidores fluentes para 28 mil surdos

A região conta com apenas 13 intérpretes de Libras em serviços municipais, sendo um em São Bernardo, oito em São Caetano, três em Mauá e um em Ribeirão Pires. Santo André disse apenas que mantém intérpretes de Libras nas escolas municipais, mas não informou o número. São Bernardo e São Caetano também possuem especialistas nos colégios. Diadema e Rio Grande da Serra não responderam. Segundo o Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), vivem no Grande ABC cerca de 28 mil pessoas que não escutam nada ou tem grande dificuldade para ouvir, o equivalente a cerca de 1% da população.

Em Santo André, há proposta de criação da Central de Interpretes de Libras, que faria atendimento virtual, por meio de bate-papo on-line, e também agendaria atendimentos em saúde e jurídico.

Em São Bernardo, a Educação é pioneira na disseminação das Libras. Para isso, há professora de audiocomunicação com formação de intérprete que colabora tanto nas ações educacionais como nas demais secretarias, no sentido de dar acesso à Saúde, Assistência Social, Judiciário, Cultura e Esportes aos moradores surdos.

Além disso, a rede municipal conta com quatro escolas que garantem o ensino de Libras como primeira língua, além da alfabetização em Português. Na cidade, são atendidos 250 alunos com deficiência auditiva. Além disso, entre 2010 e 2011, cerca de 500 profissionais, entre professores, funcionários e comunidade escolar, fizeram cursos com docentes surdos na cidade.

Em São Caetano, oito profissionais são responsáveis pela interpretação de eventos e reuniões, além de auxiliar os moradores em todos os serviços do Atende Fácil. Atualmente, há outros 120 funcionários públicos em formação no curso, com duração de 120 horas. A Fundação Anne Sullivan também oferece curso de Libras à população há cerca de 20 anos.

Em Mauá, a Prefeitura criou o curso de Língua Brasileira de Sinais para servidores públicos, que é ministrado no Centro Municipal de Educação Inclusiva Cléberson da Silva, na Vila Magini, e conta com 13 instrutores e dez professores especializados. Atualmente, participam 800 alunos.

Já em Ribeirão, a profissional que atua no atendimento aos moradores também ministra curso gratuito para funcionários públicos municipais. As oficinas são realizadas duas vezes por semana, com duração de duas horas por dia. Ao todo, há 120 pessoas em processo de formação. Eventos como o Festival do Chocolate também contam com estrutura e equipe especializadas para esse tipo de atendimento.

 

Intérpretes ajudam da escola a eventos públicos

Intérpretes de Libras são novidade na Prefeitura de Mauá, que contratou três funcionários em agosto. Inicialmente, a ideia era que acompanhassem os deficientes auditivos matriculados na rede municipal de ensino. A partir deste ano, porém, o trabalho foi ampliado e passou a contemplar a interpretação de eventos, encontros e reuniões, incluindo as escolares.

Um dos intérpretes da administração municipal é Patrícia Ferreira, 40 anos, filha de surdos. Ela aprendeu Libras desde criança para auxiliar os pais, e os acompanha onde quer que vão, de consultas médicas a lojas de roupas. "Só comecei a falar a partir dos 3 anos. Minha língua mãe é a de sinais, só depois o Português."

A profissão de intérprete de Libras foi reconhecida em 2011, mas existe há mais tempo. O primeiro emprego de Patrícia com registro em carteira na área foi em 2005. Mas o fato de saber se comunicar com os pais não a habilita como profissional. "Uma coisa é a conversa informal, a comunicação com a pessoa surda. Outra é fazer a interpretação da Língua Portuguesa para a de sinais, que tem estrutura verbal e gramatical diferenciada." Para atuar como intérprete, Patrícia fez teste de proficiência em Libras.

IGREJA
Além de Patrícia, trabalham em Mauá como intérpretes da Prefeitura Ricardo Ferreira Santos, 35, e Everton Pessoa de Oliveira, 44. Ambos aprenderam a língua de sinais na igreja que frequentavam a fim de ajudar fiéis surdos.

Santos era GCM (guarda-civil municipal) e começou a utilizar a habilidade no idioma para auxiliar surdos a registrar boletins de ocorrência, entre outras necessidades. "Percebi que poderia tornar isso a minha profissão e me especializei."

Oliveira destaca a ética como essencial para a profissão, pois o intérprete tem de passar a informação correta para o surdo. "Ele depende integralmente de nós e precisa confiar no profissional, que deve ser isento durante o diálogo", ressalta.



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