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Ribeirão Pires é o berço do Grande ABC

11/03/2013 | 14:47
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A localização exata da Vila de Santo André da Borda do Campo, fundada em 1553 por João Ramalho, é uma das incógnitas históricas do Grande ABC. Apesar de ser considerado a origem da formação da região, o povoado durou apenas sete anos, até 1560, e deixou poucos vestígios. Historiadores apontam que pode ter ficado onde hoje é o Carrefour da Rua Vergueiro, em São Bernardo, ou ainda nas margens do Córrego Guarará ou em Paranapiacaba, ambos em Santo André. O consenso é que seria em algum lugar entre as duas cidades.

O violonista Robson Miguel, que é também pesquisador indígena e cacique da Aldeia Guarani de Itaóca, em Mongaguá, pensa diferente. Baseado na forma como os índios nomeiam as coisas que os cercam, ele garante: a antiga Vila de Santo André, na verdade, ficava em Ribeirão Pires. A localização seria na nascente do Rio Piqueri, hoje chamado Ribeirão Pires, perto de onde foi erguida a Capela do Pilar, em 1714.

A afirmação é polêmica, já que não há indícios que comprovem a exata localização do povoado. Mas a explicação de Robson Miguel é convincente. Para isso, é necessário lembrar que o índio não utiliza toponímias, ou seja, não nomeia as coisas como faz o homem branco. Uma cadeira, nas diversas línguas indígenas, é apenas ‘lugar para sentar', por exemplo. Da mesma forma são nomeadas as localidades, incluindo características referentes aos cinco sentidos humanos a fim de explicar a localização geográfica do ponto. Dentro desta lógica, Tamanduateí é rio de muitas curvas; Ibirapuera é madeira podre; Itapemirim, caminho de pedras pequenas.

DGABC

A região onde ficava a aldeia de João Ramalho, que teria chegado ao Brasil por volta de 1510, era chamada pelos índios tupis-guaranis que ali habitavam de caaguaçu, que quer dizer mato alto ou floresta alta. Robson Miguel acredita ser essa a ‘borda do campo' incluída no nome de batismo da vila andreense, em homenagem ao santo celebrado no dia 8 de abril, data oficial da fundação. "Se a vila era caaguaçu ou na borda do campo, só pode ficar antes de Mauá, nome indígena que quer dizer morro alto. Era esse o último morro antes do campo, ou seja, da área de planalto onde a Vila de São Paulo de Piratininga foi instalada."

Mas por que o povoamento ficaria exatamente na região da Capela do Pilar? Para Robson Miguel, por causa da proximidade da água e pelos vestígios de que antes havia ali uma aldeia indígena. "Os povoamentos dependiam de rios para prosperar."

A Vila de João Ramalho, porém, não durou muito. Apesar de ser considerado importante ponto de fortificação e proteção da Vila de São Paulo de Piratininga, seus habitantes deixaram o local em 1560 para viver na antiga aldeia do índio Tibiriçá, pai de Bartira, uma das índias com quem João Ramalho era casado.

Com a mudança, a localização da vila se perdeu, mas a história oral dos indígenas a preservou durante gerações. "Sei que minhas afirmações vão gerar polêmica, mas o fato é que a história dos brancos não leva em consideração a história dos índios porque somos povos que não conhecem caneta e papel. Mas a história oral tem seu valor."

CEMITÉRIO

Robson Miguel é conhecido por outra teoria polêmica. Em 2011, o violonista e cacique afirmou que as origens do cemitério atrás da Capela do Pilar são indígenas. Ele o batizou de Apy Ore Reku Arandú, ou memória viva indígena.

A prova disso, conforme ele, são os ciprestres plantados em redondél, que seriam lápides de pajés e caciques. Além disso, a forma como a igreja foi construída dá indícios de que antes havia ali a oca-mãe de uma aldeia.

Na ocasião, a Prefeitura divulgou a descoberta durante a 75ª edição da tradicional Festa de Nossa Senhora do Pilar, que teve participação de índios da aldeia de Robson Miguel, além da apresentação do Hino Nacional em Guarani, de autoria do próprio violonista.

 

João Ramalho, um polêmico fundador

O fundador da Vila de Santo André da Borda do Campo, o português João Ramalho, despertou a ira da igreja ao se casar e ter filhos com várias índias, entre elas Bartira, filha do cacique Tibiriçá. Um dos primeiros padres a viver no Brasil, Leonardo Nunes, conhecido pelos índios como Abarebebé (homem voador), chegou a excomungá-lo em missa na Capela de Santo Antonio, a casa religiosa do povoamento na época.

O historiador indígena Robson Miguel, inclusive, credita ao padre a criação do povoado andreense. "Ele teria sugerido a João Ramalho e Martim Afonso de Souza que fundassem a vila, porque ficava a duas horas de viagem de São Vicente por parte do Caminho de Peabiru. Além disso, era uma forma de proteger São Paulo de Piratininga dos índios Tamoyos, que viviam nas proximidades de onde é hoje Mogi das Cruzes e tinham por hábito comer pessoas para adquirir força."

O interesse do padre era também catequizar os índios que viviam com João Ramalho. "Ele não era um bom exemplo e chegou a ser expulso de uma missa."

Mesmo considerado um bruto, com várias mulheres e que não respeitava os mandamentos cristãos, João Ramalho foi essencial na defesa da Vila de São Paulo de Piratininga em 1562, segundo relatos do padre José de Anchieta. Uma coligação de nativos descontentes atacou o povoado, manteve-o sob cerco durante dois dias e chegou a avançar sobre o quintal dos jesuítas. João Ramalho tomou para si a tarefa de comandar a resistência, o que fez bravamente. Morreu em 1580, já em idade avançada para a época.

Peabiru, o caminho para a terra sem mal

O Caminho do Peabiru era uma trilha indígena datada de 3.000 a.C., aberta na mata pelos povos guaranis. Eles seguiam o sol em busca da Iwi Marã'ei, ou a terra sem males.

Era calçada de pedras, tinha 1,40 metro de largura e rebaixamento de 40 centímetros do solo. Era usada como rota de comunicação entre os guaranis e os incas, ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. A trilha saia do litoral do Peru e chegava ao Brasil em três pontos, no litoral do Paraná, de Santa Catarina e de São Paulo. Atualmente restam cerca de 30 quilômetros da trilha preservados no Paraná. Mas acredita-se que ela passava ao longo da margem esquerda do Rio Tamanduateí, onde hoje se encontra a Avenida dos Estados, e por outras importantes ruas, como a Caminho do Pilar, em Santo André, e a Vergueiro, em São Bernardo.




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