Abandono Casa do Olhar Luiz Sacilotto, aparelho público andreense
dedicado à arte, completa duas décadas com espaço vazio

A Casa do Olhar Luiz Sacilotto, aparelho público andreense dedicado à arte, completa 20 anos na terça-feira. Inaugurada com três meses de atraso em 1992, a instituição não teve nenhuma festa ou atividade comemorativa promovida pela Prefeitura ou coordenação.
O espaço que hoje abriga oficinas de História da Arte, Fotografia Urbana e Pintura, com aulas semanais, passou por muitos percalços para se firmar no município. A começar com a mudança de estrutura física da instituição em 1993, que teve que sair do imóvel e dividir espaço com a Casa da Palavra por quatro anos.
Com a volta de Celso Daniel, um dos idealizadores da Casa, à Prefeitura (no período entre 1997 e 2002), a instituição mudou-se novamente para a casa da Rua Campos Sales, no Centro, onde segue até hoje.
Lá, foram criados grupos para debate de fotografia e xilogravura. "A proposta inicial era de que a Casa fosse um centro de desenvolvimento e estudo da arte contemporânea", conta a artista plástica Paula Caetano, que foi coordenadora do equipamento por duas ocasiões.
O fotógrafo Marcelo Vitorino, de Santo André, participou do núcleo de fotografia a partir dos anos 1990 até 2008. Hoje, ele critica os rumos que o local tomou. "A Casa tinha no seu DNA uma relação com a arte contemporânea, ambiente para reflexão, debate e estímulo à pesquisa. Hoje, oferece cursos básicos de formação que outros espaços da cidade já oferecem, como a Emia (Escola Municipal de Iniciação Artística)", acredita.
O péssimo estado físico do imóvel à época em que Vitorino frequentava o espaço não refletia suas atividades culturais, que buscavam se diversificar. Segundo Paula Caetano, a Casa tinha reconhecimento nacional e grandes nomes da arte, como o próprio Luiz Sacilotto (1924-2003) e Tuneu.
Ligada ao Departamento de Cultura, a Casa do Olhar Luiz Sacilotto costuma ter na coordenação profissionais em cargos comissionados. E a cada troca de prefeito, uma troca na coordenação também. Segundo o Diário apurou, o atual administrador do local não tem nenhuma ligação ou formação relacionada à arte. "Assim como um museu, uma casa de artes plásticas ou de música, a Casa do Olhar tem que ter alguém da área. Ou esse diálogo fica praticamente impossível", acredita Paula.
Saulo di Tarso, que administrou o espaço entre 2007 e 2008, é crítico às atuais atividades. "A impressão que se tem é que a atual administração tem completa incompreensão do que é a Casa do Olhar", acredita.
"Não tenho dúvida alguma de que a grande conquista durante o tempo que estive lá foi o restauro da Casa", conta Paula, que deixou o cargo em 2007. Mas, nos últimos anos, a Casa teve poucos motivos para se orgulhar.
FUTURO
Tarso acredita que a Casa possa voltar a ter a força artística que tinha no passado se apostar em novas parcerias. "Durante muito tempo Santo André foi vista como um local de operários e nunca tivemos oportunidades para desenvolvimento intelectual. A Universidade Federal do ABC traz o que é insuperável para a arte moderna: tecnologia e pensamento ligado às artes e humanidades."
Se tivesse havido uma continuidade ao trabalho e às conquistas da Casa, Paula acredita que a Casa do Olhar de Santo André poderia se comparar hoje ao Instituto Tohmie Ohtake, referência nacional e internacional de arte contemporânea.
O gerente de difusão cultural do município, Gabriel Bianchi, espera tempos melhores. "Que ela volte a ter um boom e a trazer gente e público". O imóvel é tombado pelo Comdephaapasa (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André) desde 1992.
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