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Frango com polenta
alimenta memórias

Orlando Filho/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Projeto Conversas de Memória promove bate-papo
e almoço com o prato tradicional de São Bernardo


Camila Galvez Do Diário do Grande ABC

02/09/2013 | 07:00


Mesa farta, reunião de família e o tradicional frango com polenta no prato. A cena pode tanto acontecer na Itália quanto em São Bernardo, onde a tradição desembarcou junto aos primeiros imigrantes italianos, no fim do século 19, e veio para ficar. Hoje, a cidade é conhecida pela Rota do Frango com Polenta, que reúne diversos restaurantes na região da Avenida Maria Servidei Demarchi, no bairro Demarchi.

Mas frango com polenta já foi coisa muito caseira, feita em família, com a participação da criançada para garantir que não se parasse de mexer a mescula (colher de pau utilizada no preparo do prato). O prêmio da meninada era comer a crosta que ficava no fundo da panela com as mãos, sentados em círculo no quintal de terra batida nos fundos das casas.

Essas e outras lembranças culinárias foram o tema da reunião do Conversas de Memória, projeto promovido pela Seção de Documentação e Pesquisa de São Bernardo. A cada dia, um tema diferente é debatido pelos cerca de 30 frequentadores do espaço, localizado na Alameda Glória, 197, Centro. A participação é aberta ao público e gratuita.

Um dos primeiros a chegar na quarta-feira foi seo Giordano Zanon, 75 anos, vestido impecavelmente com calça social e blazer escuros, contrastando com os olhos de um vivo azul. Por cima da roupa, seo Giordano logo vestiu o avental, onde se lia ‘Alimentando Memórias’, pegou a mescula e relembrou a infância na região de Monfalcone, a 458 quilômetros de Roma. “Minha mãe sempre pedia para eu mexer a polenta. Comíamos com salame, presunto, copa e outros embutidos, e até no café da manhã, com leite. Mas na época da Segunda Guerra faltou carne, e tudo o que tinha era para os alemães, que estavam acampados ao lado da nossa casa. A polenta virou o básico da alimentação da minha família.”

Em vez de traumatizar, a lembrança aquece o coração de seo Giordano. “Lembro das bicicletas e dos tamancos das mulheres batendo nas ruas, e da família reunida nos tempos de paz.”

O prato também tem sabor de infância para a produtora cultural Hilda Breda, 61. Os bisavós dela eram italianos, e seus avós e pais mantiveram a tradição do país em casa. “Na minha infância, São Bernardo era só italianos. A gente costumava falar ‘olha lá um brasiliano’ quando via algum por aí.”

Na casa de chão de terra e fogão a lenha da menina Hilda, nas colônias do hoje bairro Assunção, a panela para a polenta era de ferro, e o milho utilizado no preparo da refeição, processado nos moinhos da região. O frango vinha do quintal, e o molho era feito com tomates frescos plantados nas hortas das casas, que também tinham jardins cobertos de dálias. “Sabia-se que a polenta estava pronta quando ela começava a saltar da panela. Então, virava-se sobre um tabuleiro de madeira e, com um prato de esmalte, dava-se a forma para o alimento. Depois, à mesa, cortávamos os pedaços com linha de costura, porque com faca grudava tudo.” Para complementar, comia-se com queijo formaggio ralado ou em pedaços, e, como salada, o radicci, ou nosso conhecido almeirão.

ALMOÇO

As sensações provocadas pelo tradicional prato foram reproduzidas na quarta-feira com o preparo do frango com polenta. O almoço reuniu diversas famílias tradicionais da cidade, animado pelas músicas de João de Deus, da Orquestra de Violeiros de Mauá. “Filme triste, que me fez chorar...”. A música, famosa na voz do Trio Esperança, e o vinho produzido por famílias da cidade embalaram o almoço.

Até mesmo seo João Gava, do alto de seus 100 anos, compareceu para relembrar o tempo que viveu em São Bernardo, onde nasceu. “Venho de ônibus mesmo, sozinho. Tenho força e saúde e viajo bastante. Não podia deixar de vir hoje, ainda mais com esse almoço delicioso.” Seo João lembrou dos avós, mas, no lugar do frango, a família comia passarinhos. “Meu pai caçava no mato e a gente se deliciava.”

O frango com polenta ativou ainda as memórias culinárias de seo Vicente Carlos D’Angelo, 71. “Minha infância foi recheada de delícias, macarronada, pizza, rabanada. Com tudo isso, minha mãe viveu 94 anos.” E seo Vicente, assim como todos ali, também esbanja saúde e ajuda a manter a memória são-bernardense viva.

Iniciativa estimula lembranças e ajuda na formação da história

O projeto Conversas de Memória existe desde dezembro de 2010 e reúne, mensalmente, média de 30 a 40 pessoas por encontro. É realizado sempre na última quarta-feira do mês, e resgata lembranças relacionadas a diversos temas ligados à história de São Bernardo.

“A ideia é valorizar a memória coletiva dos moradores, e mostrar que o que eles fizeram e vivenciaram tem valor para o município”, destaca o chefe da Seção de Pesquisa e Documentação, Jorge Magyar.

O projeto também abastece o banco de história oral do município, que existe desde os anos 1970, com a gravação de depoimentos individuais de quem participa das reuniões. “Quando identificamos histórias interessantes, marcamos de fazer a entrevista e gravá-la. Foi assim com o seo João Gava, fomos até Santos para gravar o depoimento dele, que viveu a maior parte de seus 100 anos em São Bernardo.”

Além de tudo isso, o Conversas de Memória é para seus frequentadores oportunidade de sair de casa e vivenciar algo diferente. “Uma lembrança ilumina a outra e descortina a função social da memória. Muitos que aqui vem deixaram de lado os problemas, a solidão e a depressão, comuns nesta fase da vida”, garante Magyar.

 

Além dos depoimentos, o projeto também ajuda a ampliar o acervo. “A cada encontro recebemos doações de fotos e outros itens históricos dos frequentadores, que têm interesse em preservá-los e, por isso, disponibilizam para a Seção de Pesquisa. É uma forma de manter a história em constante movimento por meio da participação de quem a faz diariamente: a população da cidade”, afirma o chefe do departamento.



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Frango com polenta
alimenta memórias

Projeto Conversas de Memória promove bate-papo
e almoço com o prato tradicional de São Bernardo

Camila Galvez Do Diário do Grande ABC

02/09/2013 | 07:00


Mesa farta, reunião de família e o tradicional frango com polenta no prato. A cena pode tanto acontecer na Itália quanto em São Bernardo, onde a tradição desembarcou junto aos primeiros imigrantes italianos, no fim do século 19, e veio para ficar. Hoje, a cidade é conhecida pela Rota do Frango com Polenta, que reúne diversos restaurantes na região da Avenida Maria Servidei Demarchi, no bairro Demarchi.

Mas frango com polenta já foi coisa muito caseira, feita em família, com a participação da criançada para garantir que não se parasse de mexer a mescula (colher de pau utilizada no preparo do prato). O prêmio da meninada era comer a crosta que ficava no fundo da panela com as mãos, sentados em círculo no quintal de terra batida nos fundos das casas.

Essas e outras lembranças culinárias foram o tema da reunião do Conversas de Memória, projeto promovido pela Seção de Documentação e Pesquisa de São Bernardo. A cada dia, um tema diferente é debatido pelos cerca de 30 frequentadores do espaço, localizado na Alameda Glória, 197, Centro. A participação é aberta ao público e gratuita.

Um dos primeiros a chegar na quarta-feira foi seo Giordano Zanon, 75 anos, vestido impecavelmente com calça social e blazer escuros, contrastando com os olhos de um vivo azul. Por cima da roupa, seo Giordano logo vestiu o avental, onde se lia ‘Alimentando Memórias’, pegou a mescula e relembrou a infância na região de Monfalcone, a 458 quilômetros de Roma. “Minha mãe sempre pedia para eu mexer a polenta. Comíamos com salame, presunto, copa e outros embutidos, e até no café da manhã, com leite. Mas na época da Segunda Guerra faltou carne, e tudo o que tinha era para os alemães, que estavam acampados ao lado da nossa casa. A polenta virou o básico da alimentação da minha família.”

Em vez de traumatizar, a lembrança aquece o coração de seo Giordano. “Lembro das bicicletas e dos tamancos das mulheres batendo nas ruas, e da família reunida nos tempos de paz.”

O prato também tem sabor de infância para a produtora cultural Hilda Breda, 61. Os bisavós dela eram italianos, e seus avós e pais mantiveram a tradição do país em casa. “Na minha infância, São Bernardo era só italianos. A gente costumava falar ‘olha lá um brasiliano’ quando via algum por aí.”

Na casa de chão de terra e fogão a lenha da menina Hilda, nas colônias do hoje bairro Assunção, a panela para a polenta era de ferro, e o milho utilizado no preparo da refeição, processado nos moinhos da região. O frango vinha do quintal, e o molho era feito com tomates frescos plantados nas hortas das casas, que também tinham jardins cobertos de dálias. “Sabia-se que a polenta estava pronta quando ela começava a saltar da panela. Então, virava-se sobre um tabuleiro de madeira e, com um prato de esmalte, dava-se a forma para o alimento. Depois, à mesa, cortávamos os pedaços com linha de costura, porque com faca grudava tudo.” Para complementar, comia-se com queijo formaggio ralado ou em pedaços, e, como salada, o radicci, ou nosso conhecido almeirão.

ALMOÇO

As sensações provocadas pelo tradicional prato foram reproduzidas na quarta-feira com o preparo do frango com polenta. O almoço reuniu diversas famílias tradicionais da cidade, animado pelas músicas de João de Deus, da Orquestra de Violeiros de Mauá. “Filme triste, que me fez chorar...”. A música, famosa na voz do Trio Esperança, e o vinho produzido por famílias da cidade embalaram o almoço.

Até mesmo seo João Gava, do alto de seus 100 anos, compareceu para relembrar o tempo que viveu em São Bernardo, onde nasceu. “Venho de ônibus mesmo, sozinho. Tenho força e saúde e viajo bastante. Não podia deixar de vir hoje, ainda mais com esse almoço delicioso.” Seo João lembrou dos avós, mas, no lugar do frango, a família comia passarinhos. “Meu pai caçava no mato e a gente se deliciava.”

O frango com polenta ativou ainda as memórias culinárias de seo Vicente Carlos D’Angelo, 71. “Minha infância foi recheada de delícias, macarronada, pizza, rabanada. Com tudo isso, minha mãe viveu 94 anos.” E seo Vicente, assim como todos ali, também esbanja saúde e ajuda a manter a memória são-bernardense viva.

Iniciativa estimula lembranças e ajuda na formação da história

O projeto Conversas de Memória existe desde dezembro de 2010 e reúne, mensalmente, média de 30 a 40 pessoas por encontro. É realizado sempre na última quarta-feira do mês, e resgata lembranças relacionadas a diversos temas ligados à história de São Bernardo.

“A ideia é valorizar a memória coletiva dos moradores, e mostrar que o que eles fizeram e vivenciaram tem valor para o município”, destaca o chefe da Seção de Pesquisa e Documentação, Jorge Magyar.

O projeto também abastece o banco de história oral do município, que existe desde os anos 1970, com a gravação de depoimentos individuais de quem participa das reuniões. “Quando identificamos histórias interessantes, marcamos de fazer a entrevista e gravá-la. Foi assim com o seo João Gava, fomos até Santos para gravar o depoimento dele, que viveu a maior parte de seus 100 anos em São Bernardo.”

Além de tudo isso, o Conversas de Memória é para seus frequentadores oportunidade de sair de casa e vivenciar algo diferente. “Uma lembrança ilumina a outra e descortina a função social da memória. Muitos que aqui vem deixaram de lado os problemas, a solidão e a depressão, comuns nesta fase da vida”, garante Magyar.

 

Além dos depoimentos, o projeto também ajuda a ampliar o acervo. “A cada encontro recebemos doações de fotos e outros itens históricos dos frequentadores, que têm interesse em preservá-los e, por isso, disponibilizam para a Seção de Pesquisa. É uma forma de manter a história em constante movimento por meio da participação de quem a faz diariamente: a população da cidade”, afirma o chefe do departamento.

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