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Confira a íntegra do discurso de posse de FHC

01/01/1999 | 19:08
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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Veja na íntegra o discurso de posse do Presidente Fernando Henrique Cardoso realizado na tarde desta sexta-feira.

Por um Brasil solidário Compareço perante o Congresso Nacional para receber, pela segunda vez, a mais alta distinçao a que um homem público possa aspirar.

Agradeço aos milhoes de brasileiras e brasileiros, aos jovens e aos idosos, aos que moram nas cidades assim como nos campos, que, com o voto, sufragaram as idéias que temos defendido e as mudanças que estamos empreendendo.

Sei da responsabilidade que assumo. Ao concederem ao Presidente da República a possibilidade de um novo mandato, o Congresso primeiro, o povo brasileiro depois, credenciaram-se para exigir de mim mais do que de qualquer outro presidente antes. Empenharei toda minha capacidade e dedicaçao para corresponder à expectativa da naçao brasileira.

DGABC

Estou pronto para a nova jornada. Sinto-me renovado pelo apoio generoso do povo brasileiro. Tenho mais experiência, pelo muito que pude aprender tanto dos acertos, quanto dos erros, de meu primeiro mandato.

Nos últimos anos o Brasil renovou sua fisionomia, com a construçao de estradas de relevância estratégica, quatro hidrovias, um sem número de portos e aeroportos. Promoveu um salto na produçao de energia e uma revoluçao nas telecomunicaçoes. Mudou muito.

Mas quando falo em mudança penso em algo mais profundo, abrangente e capilar, que toca o quotidiano de cada um dos brasileiros e melhora suas vidas.

Milhoes puderam alimentar melhor seus filhos e dar-se conta de que onde há democracia, estabilidade na economia e seriedade de governo nao há razao de ser para o flagelo da fome. Milhares tiveram acesso a bens que antes estavam reservados a uma pequena elite, que sempre pôde tudo. Milhares realizaram aspiraçao tao antiga, quanto legítima, de comprar a casa própria ou morar com mais conforto.

Outros perceberam que a açao solidária dos governos e das prefeituras, de pais e de mestres, está promovendo uma transformaçao profunda nas escolas e uma esperança fundada de melhor qualidade no ensino. É a professora das áreas pobres do Brasil que ganha mais e tem a oportunidade de reciclar-se. É o livro que chega a tempo ou a merenda que é mais nutritiva. É a evasao que diminui, enquanto a matrícula no segundo grau aumenta.

Na saúde, o pesadelo de todos os brasileiros, mais recursos, melhor gerenciamento, mais atençao à saúde da família e um combate obstinado à fraude estao mostrando o caminho que levará no futuro a um efetivo atendimento universal, gratuito e de qualidade, como prescreve a Constituiçao, mas que poucos países, mesmo entre os mais desenvolvidos, conseguiram assegurar.

E assim ocorrem mudanças em várias outras áreas sociais.

Nao obstante todas estas transformaçoes, muitos ainda resistem em enxergar o Brasil novo que está brotando sob nossos olhos. Relutam a reconhecer que estamos avançando, competindo e nos adaptando aos novos tempos, em vários planos: o da globalizaçao, o da reestruturaçao do Estado, o da revitalizaçao da cultura.

Estas mudanças dao a confiança de que a geraçao do Real será diferente. Nossos filhos terao mais e melhores oportunidades na vida.

Tudo começou com a nova moeda. O Real foi um grande divisor de águas. Antes era a inflaçao e concentraçao de renda. Depois, foi a estabilidade, com o início da distribuiçao de renda.

O brasileiro pôde prever o fim do mês, planejar o ano seguinte e colocar sobre a mesa a agenda das suas verdadeiras necessidades. Restaurou-se a confiança para poupar e investir.

O Estado começou a ser transformado para tornar-se mais eficiente, evitar o desperdício e prestar serviços de melhor qualidade à populaçao. Deixa de ser o Estado faz-de-conta-que-faz-tudo; mas continua a ser o instrumento fundamental para garantir serviços para a populaçao mais pobre, gerar as condiçoes para o aumento da produçao e assegurar os direitos básicos de todos.

O Brasil voltou a ser respeitado no exterior. Os investimentos estrangeiros multiplicaram-se, gerando novos horizontes para os brasileiros.

Também no plano externo o Brasil colhe os frutos da democracia, da estabilidade econômica e de uma renovada confiança no potencial de nosso mercado. O País torna-se mais relevante para o mundo. Ao mesmo tempo, o mundo se torna mais relevante para o bem estar dos brasileiros.

Em um sistema internacional onde aumenta a interdependência, é inevitável que sejamos afetados por eventos originados em outras regioes do mundo, mesmo as mais longínquas. Os problemas dos outros torna- se também nossos. Da mesma forma, nossos problemas passam a afetar mais diretamente outros países.

Mais do que nunca, é necessário que o Brasil saiba identificar os seus interesses nacionais e falar com firmeza para defendê-los nos foros internacionais.

O interesse nacional, hoje, nao se coaduna com isolamento. Afirmamos nossa soberania pela participaçao e pela integraçao, nao pelo distanciamento.

É o que estamos fazendo no Mercosul - dimensao prioritária e irreversível de nossa diplomacia. É o que estamos realizando com a criaçao de um espaço integrado de paz, democracia e prosperidade compartilhada na América do Sul. É o que se reflete em nossa visao da integraçao hemisférica e de laços mais sólidos com a Uniao Européia, a Rússia, a China e o Japao, sem detrimento para os nossos vínculos históricos com a Africa.

O Brasil está assim consolidando uma inserçao ativa e soberana no sistema internacional.

Senhores Membros do Congresso Nacional, nos últimos anos, se é verdade que muito foi feito, ainda resta muito por fazer.

Nossos desafios continuam imensos. Mas estamos em melhores condiçoes para enfrentá-los. Preparamos o terreno. Plantamos a semente. Daqui para a frente, a nossa tarefa é dupla. Preservar as realizaçoes e partir para novas conquistas. A continuidade delas é indispensável, pois a esperança do povo é como a do semeador, na frase de Gilberto Amado: "ao lançar a semente sem ver crescer a planta no solo árido, o braço do semeador se fatiga".

Estamos fazendo um acerto de contas com o passado e, ao mesmo tempo, tratando de impedir que a prosperidade que resulta da ampliaçao dos fluxos de capitais, conhecimentos e tecnologia venha contaminada pelo vírus da exclusao. Reunimos hoje as condiçoes para construir um Brasil efetivamente solidário e mais justo.

O objetivo central do Governo que ora se inicia será o de radicalizar a democracia, democratizar o mercado aumentando a competiçao e promover mais ampla oportunidade para todos os brasileiros. Isso requer determinaçao política e crescimento econômico continuado.

Senhores Congressistas, oitenta e três milhoes de eleitores compareceram às urnas nas últimas eleiçoes. O povo brasileiro deu uma demonstraçao inequívoca, sem precedente por sua dimensao, de crença na democracia.

O País desfruta de plena liberdade de opiniao e de imprensa, de que muito nos orgulhamos. O direito de manifestar o pensamento e de crítica é fundamental para vitalidade democrática.

Mas precisamos avançar mais. Queremos aprofundar a parceria com a sociedade. Faz pouco tempo, o que entre nós se chamava de "opiniao pública" era apenas o eco das reivindicaçoes dos setores privilegiados da sociedade, que sabem fazer ruído na defesa de seus interesses. Hoje, a opiniao pública expandiu-se e incorpora sindicatos de trabalhadores, igrejas, movimentos sociais e as chamadas organizaçoes nao governamentais.

Mas ainda existe uma maioria silenciosa que nao se faz ouvir. As medidas de política social do Governo buscam atender a esta maioria, mesmo, se for o caso, contra os ruídos dos que se escudam nos mais pobres para defender seus privilégios.

A sociedade civil assume, com mais eficiência e menor custo, funçoes que antes eram privativas do setor público. E o Estado se fortalece ao articular-se com ela.

A vertebraçao da sociedade, em sintonia com a descentralizaçao das políticas públicas, cria as condiçoes para que os serviços do Estado cheguem efetivamente aos que mais precisam e nao, como sempre foi, aos que mais têm




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