Sobretaxas Estimativa aponta que 3.958 produtos brasileiros vão sofrer com cobranças simultâneas anunciadas pelo governo Trump
Divulgação/Porto de Santos

A tarifa dupla que chega a 37,5% aplicada pelos Estados Unidos contra o Brasil atinge 3.958 produtos nacionais, o equivalente a US$ 10,8 bilhões (R$ 55 bilhões). A estimativa foi divulgada nesta sexta-feira (24) pela CNI (Confederação Nacional da Indústria). A Casa Branca definiu nesta semana cobranças de 25%, em investigação sobre temas como Pix, desmatamento ilegal e pirataria, e de 12,5% por apuração a respeito de trabalho forçado. Ambas as decisões foram tomadas baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio. O setor químico está entre os prejudicados de forma simultânea pelas medidas.
De forma geral, 47,3% das exportações nacionais são atingidas por sanções impostas pelos norte-americanos. O cálculo do ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio considera as tarifas de 12,5%, de 25% e a sobretaxa aplicada ao aço e alumínio, anunciada no ano passado.
A alíquota de 12,5%, sozinha, é capaz de prejudicar 4.060 produtos brasileiros ou US$ 12,4 bilhões (R$ 63 bilhões) em exportações, indicou a CNI. A decisão do governo de Donald Trump alegou que o Brasil é um dos países que “não conseguiram impor nem aplicar de forma eficaz uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado”. Na avaliação da CNI, os argumentos apresentados pelo USTR (sigla em inglês para Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) não encontram respaldo na realidade brasileira. As cobranças globais, que variam de 10% a 12,5%, foram aplicadas a 60 nações.
A Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) também reforçou que não há fundamentos econômicos que justifiquem a aplicação das tarifas ao setor químico brasileiro. Segundo a entidade, essa avaliação não é exclusiva da indústria nacional.
Em carta enviada ao USTR, o ACC (sigla em inglês para Conselho Norte-Americano de Química), principal entidade representativa da indústria química dos Estados Unidos, manifestou preocupação com a medida e informou que as cobranças podem aumentar custos para diversos setores, enfraquecer cadeias produtivas e dificultar os próprios esforços de reindustrialização dos norte-americanos.
“Não há lógica econômica para a imposição dessas tarifas. Se há algum desequilíbrio nessa relação comercial, ele é favorável aos EUA, e não ao Brasil. É um momento difícil, dentro de um contexto geopolítico bastante conturbado e complexo. O governo tem levado para nós que é preciso manter a paciência, a prudência, a cautela e a capacidade de negociação”, explicou o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.
Antes do tarifaço, a entidade tinha pedido ao governo de Trump para que os produtos químicos e petroquímicos brasileiros fossem adicionados na lista de isentos. Segundo a Abiquim, o Polo Petroquímico do Grande ABC é o primeiro do País e referência histórica e estratégica para o setor nacional. Atualmente, concentra 890 empresas ligadas à cadeia química.
Outros setores prejudicados são os de insumos e equipamentos médicos e diagnósticos, que operam com cadeias globais altamente integradas e dependentes de volume. “Como os produtos de saúde exigem longos e rigorosos processos de aprovação regulatória em cada país, a indústria não consegue redirecionar suas vendas de forma rápida para outros mercados”, disse Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde).
De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, 2.000 produtos exportados pelo Brasil para os EUA não estarão sujeitos a nenhuma das duas sanções, como petróleo, carnes, suco de laranja e café instantâneo.
A Pasta apontou que as taxas de 25% vão atingir 18% das exportações do Brasil para os Estados Unidos, o equivalente a US$ 7,4 bilhões com base nos dados de 2024. Itens derivados da madeira e pescados foram excluídos da primeira rodada, mas adicionados à sobretaxa relacionada ao trabalho forçado.
O Palácio do Planalto afirmou que a medida tem “caráter completamente arbitrário e injustificado”. Por isso, iniciará os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade e levará o tema à OMC (Organização Mundial do Comércio).
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), declarou nesta sexta-feira que as tratativas continuarão, mas o tarifaço é “injusto e descabido”. “A Lei da Reciprocidade tem um caminho mais longo, com audiências públicas. Mas o que o presidente Lula tem destacado é: ‘não sair da mesa de negociação com os Estados Unidos’. O que depender de nós é continuar a negociação.”
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