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Dignidade da mulher

Bispo Dom Pedro Cipollini
23/07/2026 | 10:13
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Seri Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Cresce em nossa sociedade as agressões às mulheres e aumenta o feminicídio. O que está acontecendo? Na verdade, isto não é algo novo, vem de longe. Acontece que, devido aos meios de comunicação e o crescimento da consciência sobre os direitos humanos, os casos aparecem mais, e se tornou visível o quanto a dignidade da mulher é espezinhada. Na verdade, a questão de fundo é esta: a dignidade da mulher.

As agressões às mulheres se dão de forma variada e múltipla em todas as sociedades de nosso tempo. Vai desde a discriminação social, cárcere privado, salários desiguais para o mesmo serviço desempenhado por elas e os homens, humilhações de todo tipo, agressões físicas, assassinatos e todos os vícios que o machismo exacerbado, presente nas diversas culturas, externam de múltiplas formas. Isto apesar de se reconhecer como óbvio que, “todos são iguais perante a Lei”.

Um dos sinais dos tempos, apontados por São João XXIII, é a nova condição da mulher na sociedade. A mulher torna-se cada vez mais consciente da sua própria dignidade humana, recusa-se a ser tratada como objeto ou instrumento, reivindica direitos e deveres de acordo com sua dignidade de pessoa, tanto na vida familiar como na sociedade. A causa de gênero é permeada por barreiras da tradição, historicamente construídas em culturas patriarcais e regimes feudais, que precisam ser rompidas.

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A Bíblia nos atesta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27), mas por muitos séculos a sociedade interpretou este texto como sendo o homem a imagem de Deus. E a mulher, sua imagem “só pela metade”, ou seja, só quando ela se torna mãe e transmite a vida. No mais seria a culpada de todas as desgraças da humanidade, porque Eva ouviu a serpente e levou a humanidade ao pecado. Como se Adão também não tivesse aderido à serpente e pecado igualmente.

Muitas mulheres padecem condições de exclusão e abandono vivendo em situações muito duras, especialmente quando são abandonadas com os filhos pelos seus maridos ou companheiros. Na maioria dos lares brasileiros, em especial nos mais pobres, são as mulheres que sustentam a vida e criam os filhos. Entre elas encontramos os mais admiráveis gestos de heroísmo cotidiano na defesa e cuidado da fragilidade. São mensageiras de Deus como a samaritana, que após seu encontro com Jesus tornou-se missionária, chamando pessoas para escutá-lo (cf. Jo 4,39).

Jesus valorizou as mulheres e respeitou sua dignidade para espanto de uma cultura machista e patriarcal, como aquela na qual viveu. São múltiplos os episódios que atestam isto. Inclusive muitas mulheres o seguiam e ajudavam no seu ministério (cf. Lc 8,1-3) e ele retribuiu, fazendo de Maria Madalena a “apóstola dos apóstolos”, pois foi a ela que Jesus ressuscitado encarregou de levar a boa notícia aos apóstolos (cf. Jo 20,17).

A máxima valorização da mulher foi operada por Deus na história, pela escolha de Maria de Nazaré, para ser a mãe de Jesus, o Filho de Deus, conforme relatam os Evangelhos. No rosto de Maria encontramos a ternura e o amor de Deus. Ela se compromete com a história humana, observa com sabedoria a realidade e com sua voz profética, convida a um estilo de vida compartilhada e solidária.

A mulher precisa ocupar mais espaço na sociedade, em especial na política. O gênio feminino que se caracteriza pelo cuidado da vida, é necessário em todas as expressões da vida social. Em especial no âmbito do trabalho, e nos vários lugares onde se tomam decisões importantes, tanto nas estruturas sociais como na própria Igreja. Neste sentido, o papa Francisco e o papa Leão XIV, fizeram nomeações significativas de mulheres, para cargos importantes no governo da Igreja. Já tendo o papa São João Paulo II escrito uma Carta Apostólica sobre a dignidade e vocação da mulher em 1988 (Mulieris dignitatem).

Em meio ao machismo geral, exacerbado pelo racionalismo econômico, existem exceções admiráveis como o filósofo Kant que escreveu: “A sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir”, já antevendo o que hoje se chama “inteligência emocional”, que faz tanta falta em nossos relacionamentos. 

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