Palavra do Bispo Os escândalos de má gestão econômica e financeira, a corrupção, estão na pauta do dia nos meios de comunicação. O dinheiro é uma tentação constante, é o “deus” deste mundo, um “deus” sem coração. Não raro envolvem religiosos. Inclusive, alguns pastores, por gerirem mal seus bancos. É preciso refletir um pouco sobre religião e dinheiro. Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).
No século XVI, Lutero iniciou o movimento da reforma protestante, que visava a libertação do papado, aquela altura, mergulhado em uma grave crise, provocada inclusive pela ação chamada venda das indulgências. Em um ambiente triunfalista ele vai recordar à Igreja, na qual ele era padre, a “teologia da Cruz”. Da reforma surgiram três grandes comunidades: a Luterana, a Calvinista e Anglicana, são correntes do protestantismo tradicional. Dessas são derivadas centenas de sociedades menores que constituem o protestantismo moderno. Entre estas, os pentecostais e neopentecostais. Estes se distinguem por sua difusão através do proselitismo e do relacionamento com o dinheiro, com base na “teologia da prosperidade”. Possui índole mais radical, mas livre da tradição cristã e certo anti-intelectualismo.
A cultura materialista e hedonista, atual, faz do dinheiro o deus supremo, capaz de dar tudo para fazer a pessoa feliz. No pluralismo religioso, que marca nossa época, as pessoas escolhem ritos e normas que estejam de acordo com sua própria necessidade. E aí vem a calhar a “teologia da prosperidade”. Você dá o dízimo, dá dinheiro a Deus e ele te devolve dando a você o que você deseja: prosperidade. Você louva a Deus dando dinheiro a ele, e ele faz o que você pede! Com isto, muitas Igrejas neopentecostais têm crescido.
É intrigante como essas Igrejas, últimos rebentos derivados da reforma, tem reproduzido todo tipo de comportamento contra o qual Lutero protestou: o poder opressor sustentado pelo dinheiro, o uso do nome de Deus para ganhar dinheiro, o vale tudo por dinheiro. O dinheiro em si não é ruim, mas quando domina uma pessoa, a escraviza e toma o lugar de Deus em sua vida. O dinheiro serve bem para ser teu empregado, mas se virar teu patrão acaba te arruinando, torna a pessoa desumana. E pior, construtora de um mundo desumano, com luta pelo poder, guerras e atrocidades sem fim.
A teologia da prosperidade é o contrário da teologia da Cruz, que é a teologia do Amor de Deus levado ao extremo. O livro de Jó, na Bíblia, é expressão acabada do combate à teologia da prosperidade. Trata do justo que sofre, em uma época dominada pela mentalidade da retribuição divina com bens materiais. A justiça divina nem sempre age segundo nossos critérios e conceitos racionais meramente humanos. Está acima deles.
O ser humano, ao contrário de confiar e colocar sua segurança no dinheiro, deve ter uma confiança ilimitada em Deus. Deus ajuda, mas não atendendo certos pedidos que fazemos. Assim pode livrar você de muitas encrencas, como por exemplo, processos e prisões, por mau uso das riquezas e escândalos que não tem fim. Bem escreveu São Paulo a seu discípulo Timóteo: “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10).
Dom Pedro Carlos Cipollini é bispo diocesano de Santo André.
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