Em 2026 Em caso recente em Santo André, homem teria se recusado a parar o carro; especialistas apontam falta de preparo dos agentes para lidar com pressão
FOTO: André Henriques/DGABC

Santo André registrou na última sexta-feira (17) mais uma morte, a oitava do ano na cidade, por intervenção policial. Com o novo caso, o Grande ABC contabiliza, ao menos, 18 ocorrências, uma média de duas por mês. (Veja, na arte, o perfil das vítimas por sexo, raça e faixa etária)
Na última semana, policiais abordaram um homem de 32 anos, que dirigia um automóvel na Avenida Capitão Mário Toledo de Camargo. Ele foi baleado e morto após desobedecer à ordem de parada e sacar uma arma de fogo, de acordo com informações da SSP (Secretaria da Segurança Pública). O caso foi registrado no 6º Distrito Policial de Santo André e está sendo apurado por meio de IPM (Inquérito Policial Militar) e com a análise das COPs (Câmeras Policiais Portáteis).
De janeiro a maio deste ano, segundo dados mais recentes divulgados pela SSP, a região teve 16 mortes por intervenção policial. Se considerar o mesmo período de 2025, foram 25 óbitos praticados por policiais no Grande ABC – redução de 36% em um ano.
Os registros de 2026 não contabilizam a ocorrência deste mês nem outro caso registrado em 17 de junho, também em Santo André. Na ocasião, segundo a SSP, policiais faziam patrulhamento pela Avenida dos Estados, na Vila Metalúrgica, quando localizaram um veículo roubado. Conforme a Pasta, ao perceber a aproximação da equipe, o suspeito tentou sacar uma arma de fogo, o que levou à intervenção policial.
A advogada criminalista Daphine Almeida dos Santos diz que a atividade policial é exercida em um ambiente extremamente complexo. “O policial, muitas vezes, precisa tomar decisões em poucos segundos, sob forte pressão e diante da possibilidade real de estar de enfrentar alguém armado. Mas exatamente por isso também deve ser o controle sobre a forma como esse poder é exercido”, ressalta.
A segunda cidade com maior número de mortes por intervenção policial em 2026 foi São Bernardo, que contabilizou, nos cinco primeiros meses do ano, sete casos. Um deles foi do representante de vendas, Everton José Marques, 42, morto com cinco tiros após avançar em direção a agentes de segurança, em fevereiro, na Rua da Penha, no bairro Paulicéia.
O presidente da comissão do tribunal do júri da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) São Paulo e mestre em Direito Penal, André Lozano, avalia que a postura do Estado e do Ministério Público não inibem a prática. “Há um incentivo por parte do governo, que não estimula o uso de câmeras corporais, não pune os policiais que matam e ainda faz discursos enaltecendo a violência policial. O Ministério Público e o Judiciário, que deveriam fiscalizar a atividade policial, também elogiam abordagens violentas e fingem que não veem os homicídios cometidos”, afirma o advogado.

PREVENÇÃO
A SSP diz que promove ações permanentes para redução da letalidade policial, com aperfeiçoamento de protocolos operacionais, formação continuada, ampliação do uso de tecnologias e uso de equipamentos de menor potencial ofensivo. “Todas as ocorrências são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias das polícias, do Ministério Público e do Poder Judiciário.”
“Desde 2023, o número de COPs foi ampliado para 15 mil, aumento de 48,1% em relação à gestão anterior. Em outra frente, o programa Muralha Paulista integra dados de 125,5 mil câmeras interligadas e mais de 70% da população paulista está coberta pelo sistema. No mesmo período, foram investidos R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 equipamentos alternativos ao uso da força letal, entre espargidores, bastões retráteis e armas de inca-pacitação neuromuscular”, informa a Pasta.
Modelo de segurança prioriza o enfrentamento
A advogada criminalista Daphine Almeida dos Santos destaca que estudos na área de segurança pública mostram que o modelo brasileiro ainda carrega uma cultura de enfrentamento muito intensa.
“Em diversas situações, a lógica predominante acaba sendo a neutralização imediata da ameaça, quando o ideal seria privilegiar, sempre que possível, técnicas que reduzam o risco para todos os envolvidos. Uma polícia eficiente não é aquela que utiliza mais força, mas que consegue resolver situações de alto risco preservando vidas”, enfatiza.
A especialista em Direito Criminal Silvana Campos acredita que não se trata apenas de falta de preparo. “A polícia está sobrecarregada física e mentalmente, muitos policiais afastados por depressão, pânico e ansiedade. Há falta de contingência, de mais agentes com remuneração adequada e equipamentos de segurança”, diz.
Daphine aponta ainda as profundas desigualdades sociais e territoriais do País como componente histórico importante. “Em determinadas regiões, o contato entre Estado e população acontece quase exclusivamente por meio da atividade policial. Esse contexto contribui para o aumento da tensão nas abordagens e ajuda a explicar por que determinados territórios concentram índices maiores de letalidade”, justifica a advogada.
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