
No filme documental inédito Preta - Eu Não Ando Só, que estreia nesta segunda-feira, 20, na TV Globo, no ar após a novela Quem Ama Cuida, há uma cena em que Preta Gil (1974-2025), em meio ao seu tratamento contra um câncer de intestino, faz uma visita ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo. Ela acende uma vela e procura onde fincá-la em um velário já bastante ocupado. Um padre que acompanha a cantora, então, indica um lugar para colocar o objeto, em meio à cera derretida, bastante instável. Preta aceita a sugestão, não muito certa da escolha.
O documentário, sim, é uma certeza corajosa de Preta. Ao iniciar o tratamento que, entre idas e vindas, durou cerca de dois anos e meio, até sua morte, em 20 de julho de 2025, em Nova York, aos 50 anos, Preta começou a fazer vídeos em seu celular mostrando sua rotina em casa e no hospital. Pediu que pessoas de seu convívio fizessem o mesmo. À Mônica Almeida, diretora artística do filme, confiou, em 2023, a missão de transformar o material em um documentário, fosse curada ou não da doença.
Sandra Kogut, que dirige Preta - Eu Não Ando Só, conta que há um áudio da cantora, já nos últimos dias de vida, reafirmando essa vontade. Ele não está no filme, que tem cerca de 1h40 e faz parte do projeto Quanto Mais Preta, Melhor, da Globo, que inclui também uma série no Globoplay (leia mais abaixo). A data de estreia marca 1 ano da morte de Preta.
Outros tantos momentos íntimos e delicados, como, por exemplo, Preta intubada na UTI do Hospital Sírio-Libanês, depois de uma cirurgia que durou mais de 20 horas, estão presentes. Tudo em gravações caseiras que, na edição final do filme, estão ao lado de depoimentos atuais de amigos e familiares, como Carolina Dieckmann, Ivete Sangalo, Luciano Huck, Angélica, Ana Carolina e Otávio Müller, ex-marido de Preta, feitos especialmente para o filme.
Sandra não sabe precisar quantos minutos ou horas de vídeos feitos por celular recebeu. Tudo em estado bruto e sem filtro. "Eu tive que entender o que fazer com esse material. Não podia brigar com aquilo. Tinha uma qualidade humana, afeto, pelo fato de as imagens serem feitas por pessoas que estavam vivendo aquilo, muito próximas a ela", explica a diretora de filmes como Mutum (2007) e Três Verões (2020). O trabalho foi, então, decidir que história contar.
Ao contrário de Mônica, Sandra não era tão próxima de Preta. Conheceu a cantora quando ela era uma adolescente, apresentada pela atriz Regina Casé, uma das convidadas a dar depoimento no documentário. "Talvez isso tenha sido algo bom. Quando você faz um filme, precisa estar perto e longe, dentro e fora", explica Sandra. Ao filmar o projeto, a diretora diz ter reencontrado a essência que havia identificado na homenageada décadas antes. "Preta tinha vivacidade, inteligência, era engraçada. Uma pessoa intensa", resume.
Essa força pela vida, durante a doença, é relatada sobretudo por amigos que estiveram muito próximos a Preta. Dois deles, Malu Barbosa e Marcello Azevedo, eram sócios da artista em empresas como Mynd e Liga Entretenimento. Outros três, os influenciadores Gominho, Jude Paulla e Duh Marinho, formavam, com Preta, o que eles chamavam de Diamond's Family. Eles se revezavam entre acompanhar a artista no hospital, atender suas vontades e organizar questões burocráticas. Manter a esperança e a alegria era uma espécie de obrigação, puxada por Preta.
"Preta era a expressão da vida. Mesmo no momento em que ela estava vivendo a morte mais perto, afirma essa vida. O desejo do filme é isso: registrar uma maneira de ser. Para mim, isso fez todo o sentido", afirma Sandra.
A força tropicalista
Em Preta - Eu Não Ando Só também há uma digressão do registro da doença para traçar a personalidade de Preta, decifrar quem era aquela mulher que, no palco, se definia como "uma preta, gorda e bissexual". Nesse bloco, os depoimentos de Fran Gil, filho de Preta, Gilberto Gil, pai, Caetano Veloso, tio, Maria Gil, irmã, e Moreno Veloso, primo, dão conta de defini-la.
Gil, que, em depoimento de 1977, conta ter passado oito dias chorando após o nascimento de Preta, afirma, agora, para o filme, que ela tinha "força tropicalista". "Neo, pós, trans tropicalista. Ela tinha, sim, uma força tropicalista. Flor que brotou nesse jardim", define o compositor. Caetano corrobora. "Preta era desembaraçadamente plural" e diz que a capacidade dela de exercer funções artísticas e não artísticas vinha, em grande parte, do tropicalismo.
O filme reafirma isso ao mostrar cenas da Festa Preta, que ela realizava no Rio de Janeiro, em edições muito bem-sucedidas. A cantora, no palco, no comando da massa, tinha algo do apresentador Chacrinha, um tropicalista em sua essência.
Moreno Veloso caracteriza a prima como "glutona", seja por comida ou bolsas. Ou pela vida. Maria Gil revela que o amor entre ela e Preta morava nas diferenças. A mãe de Preta, Sandra Gadelha, a Drão, não dá depoimento, mas encontra-se de forma delicada e amorosa no documentário.
A alternância entre os amigos mais próximos, desse núcleo duro do dia a dia da doença, e a família deixa transparecer que havia certo descompasso entre os dois grupos. No Réveillon de 2024 para 2025, quando a situação de Preta se agravou, é Gil que está no hospital - e no controle. Está na cara dele que a situação era delicada. Em outro momento, Gominho aparece falando que alguns amigos próximos da família ficaram preocupados quando Preta resolveu levar para casa, em palavras dele, "um bando de favelados" - eles moravam com a cantora antes mesmo da doença. "Queriam interditá-la. Achavam que ela estava louca."
Para Sandra Kogut, tudo isso faz parte, mais uma vez, das "escolhas" de Preta. "Ela que inventou o mundo no qual ela queria viver, seja afetivamente ou artisticamente, com muita verdade e coragem", diz. "Preta falou sobre pautas que hoje estão super presentes no debate público, como homofobia, racismo e gordofobia lá atrás, de uma maneira muito genuína", completa a diretora.
Preta - Eu Não Ando Só é dedicado a Sol de Maria, neta de Preta, atualmente com 10 anos. Há um depoimento tocante dela no filme. Uma criança em meio à avó Preta e à artista Preta: "Acho que sua avó está doente, eu vi no jornal", disseram os amigos a Sol. "Eu perguntei para minha avó. Ela disse que sim e me perguntou se eu queria saber mais sobre a doença", conta a menina. Sol faz um colar com miçangas coloridas para a avó "ficar boa". Preta usa o adereço em vários momentos de suas internações - a mais longa delas durou três meses.
A conexão entre avó e neta fica evidente depois de uma das cirurgias que Preta enfrentou para tentar extirpar o câncer. A cantora, que acreditava estar curada, liga para o filho, Fran, e diz. emocionado, que irá ver Sol crescer. "Imagino que parte do desejo de fazer esse filme seja de deixar um registro para Sol e para tanta gente dessa geração que ainda vai descobrir o que Preta fez", opina Sandra. "As entrevistas foram todas muito especiais. Nunca havia vivido isso. Falar com pessoas sobre alguém que morreu há tão pouco tempo, com tudo tão à flor da pele."
Além do documentário, a série original do Globoplay, intitulada Meu Nome é Preta, integra a iniciativa Quanto Mais Preta, Melhor. Produzido pela Conspiração Filmes e com direção de Mini Kerti, o seriado tem quatro episódios, liberados semanalmente a partir desta segunda-feira, 20. O último deles entra no ar no dia 8 de agosto.
A produção trará imagens raras de Preta, da infância e de sua trajetória artística, como registros dos projetos Noite Preta e Bloco da Preta, e depoimentos de familiares e amigos.
Preta - Eu Não Ando Só
Na TV Globo, 20/07, após a novela Quem Ama Cuida
Meu Nome é Preta
No Globoplay a partir de 20/07, com episódios semanais até 08/08
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