Nos cinemas Diretor transforma o poema fundador da literatura ocidental em um filme de rara grandiosidade, equilibrando realismo, espetáculo e uma trilha sonora monumental de Ludwig Göransson
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Foi no século VIII a.C. que o lendário poeta cego Homero lançou as bases da literatura ocidental por meio das epopeias Ilíada e Odisseia. Algumas boas centenas de anos depois, coube ao diretor norte-americano Christopher Nolan revisitar esse marco da cultura universal para as telas do cinema, seguindo os passos do italiano Mario Camerini, responsável por Ulysses (1954), até então a adaptação mais conhecida da jornada de Odisseu.
A premissa permanece a mesma. A Odisseia acompanha Odisseu, rei de Ítaca, em sua longa tentativa de retornar ao lar após a Guerra de Troia. O que deveria ser uma breve viagem transforma-se em uma epopeia marcada por obstáculos quase intransponíveis: o ciclope Polifemo, as sereias, a feiticeira Circe, monstros marinhos e, acima de tudo, a ira do deus Poseidon. Enquanto isso, Penélope permanece fiel ao marido durante duas décadas, resistindo à pressão dos pretendentes que tentam ocupar o trono de Ítaca, sobretudo Antínoo.
Nolan, porém, evita uma adaptação puramente reverente. O diretor promove ajustes pontuais que enriquecem a narrativa sem descaracterizar a essência do poema. O principal deles é o maior destaque dado a Sinon, interpretado por Elliot Page. O personagem, o espião grego que se deixa capturar para convencer os troianos de que o Cavalo de Troia era um presente sagrado à deusa Atena, ganha uma dimensão dramática muito mais significativa do que em versões anteriores.
Outra alteração interessante está em Eumeu, o fiel guardador de porcos de Odisseu, vivido por John Leguizamo. Como homenagem ao próprio Homero, Nolan transforma o personagem em uma figura com deficiência visual. Ainda assim, Eumeu permanece responsável por cuidar de Argos, o cão que espera seu dono durante vinte anos. A escolha possui um simbolismo delicado: Homero perpetuou sua obra por meio da tradição oral, tendo sua obra recitada em versos de memória na época em que ninguém poderia "ver" A Odisseia. Hoje, quando finalmente podemos contemplá-la na tela, Nolan devolve esse legado em forma de uma experiência cinematográfica de quase três horas, construída com diálogos de forte carga poética e um desenho sonoro que transforma até o barulho das ondas em parte essencial da narrativa.
É possível que assistir ao filme em uma sala IMAX, equipada com um sistema de som de altíssimo nível, tenha potencializado parte dessa experiência. Ainda assim, seria injusto atribuir apenas à tecnologia o impacto causado pela trilha sonora de Ludwig Göransson. Depois de conquistar três Oscars de Melhor Trilha Sonora Original — Pantera Negra (2019), Oppenheimer (2024) e Pecadores (2026) —, além de um Bafta, dois Globos de Ouro e diversos Grammys, o compositor entrega mais um trabalho digno da temporada de premiações.
Antes mesmo de ser visto, como no passado A Odisseia é ouvido. Filmado integralmente com câmeras IMAX 70 mm, o longa parece ser conduzido musicalmente por Göransson, cuja composição imprime ritmo, tensão e grandiosidade a praticamente todas as sequências. O ápice chega no terceiro ato e durante a perseguição de Polifemo aos guerreiros gregos, quando imagem e música se fundem em um espetáculo de rara intensidade. Em alguns momentos, a mixagem poderia explorar melhor o peso dos graves e dos estrondos, mas a opção por um tratamento sonoro mais orgânico faz sentido dentro da proposta realista de Nolan. Há cenas em que vale a pena esquecer a imagem por alguns segundos apenas para apreciar o trabalho sonoro.
O IMAX, entretanto, também evidencia uma das maiores frustrações para o público brasileiro. O País possui pouquíssimas salas capazes de reproduzir o formato da maneira ideal e nenhuma oferece exatamente a configuração máxima para a qual Nolan concebeu o filme. Ainda assim, mesmo fora das condições perfeitas, a grandiosidade visual permanece evidente.
Grande parte desse resultado passa pelo elenco. Matt Damon interpreta Odisseu repetindo uma característica que domina como poucos: o homem “comum” colocado diante de uma missão extraordinária, novamente tentando encontrar o caminho de volta para casa, como já havia feito em Perdido em Marte (2015) e Interestelar (2014). Anne Hathaway entrega uma Penélope de enorme sensibilidade, enquanto Tom Holland convence como Telêmaco, filho do herói que cresce à sombra da ausência do pai. Robert Pattinson imprime presença ameaçadora ao ambicioso Antínoo, e o elenco de apoio reúne nomes como Zendaya, Charlize Theron, Lupita Nyong''''o, Jon Bernthal e Samantha Morton, todos inseridos de maneira orgânica no universo mitológico criado por Nolan.
Entre tantas boas escolhas, talvez nenhuma simbolize melhor o acerto do diretor quanto Benny Safdie no papel de Agamêmnon. À primeira vista, Jon Bernthal pareceria a escolha mais óbvia para viver o lendário comandante grego, pela imposição amedontradora. Nolan, no entanto, utiliza figurino, enquadramentos e encenação para transformar Safdie em uma figura monumental, mesmo sem mostrar sua face, cuja imponência dispensa qualquer estereótipo físico. É um exemplo de como direção de arte, fotografia, escolha de elenco e atuação trabalham em perfeita sintonia.
Se ainda existiam dúvidas sobre a capacidade de Nolan em conciliar fantasia e realismo, A Odisseia praticamente as dissolve. Mesmo em suas obras mais fantásticas – incluindo a trilogia Batman –, o diretor sempre buscou um forte compromisso com o mundo físico. Aqui, essa característica alcança talvez seu ponto máximo. As filmagens em locações reais, espalhadas por Grécia, Itália, Marrocos, Escócia e Islândia, conferem uma dimensão quase tangível à mitologia, enquanto os enquadramentos privilegiam tanto a escala monumental das paisagens quanto a intimidade emocional dos personagens.
Nem tudo, porém, funciona com a mesma precisão. A própria dimensão da epopeia obriga Nolan, também responsável pelo roteiro, a acelerar determinados acontecimentos. Em alguns momentos, cortes abruptos e passagens excessivamente condensadas sacrificam o desenvolvimento de eventos importantes da jornada de Odisseu, criando a sensação de que determinados capítulos mereciam mais tempo para respirar.
A principal virtude da adaptação, contudo, está na maneira como interpreta a chamada Lei de Zeus – o princípio da hospitalidade, um dos pilares da cultura grega antiga. Embora preserve a religiosidade do poema, Nolan desloca o foco para sua dimensão profundamente humana. A hospitalidade aparece como um pacto civilizatório capaz de unir pessoas, mas igualmente vulnerável à ambição, à violência e à corrupção moral. Ao explorar como a generosidade pode ser transformada em instrumento de abuso, o diretor atualiza uma reflexão escrita há quase 3.000 anos: nenhuma sociedade se sustenta sem respeito, reciprocidade e ética, e basta o egoísmo e a violência prevalecerem para que até os laços mais sagrados sejam rompidos.
Homero criou. Nolan reinterpretou. Se, na antiguidade, multidões se reuniam para ouvir os versos do poeta ecoarem pela tradição oral, hoje existe apenas um palco capaz de reproduzir essa mesma sensação de encantamento coletivo. Graças à combinação entre a direção rigorosa de Christopher Nolan e a monumental trilha sonora de Ludwig Göransson, A Odisseia reafirma que o cinema continua sendo o lugar onde os grandes épicos encontram sua forma mais grandiosa.
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