Segurança pública Em cinco meses, houve 1.406 casos de lesão corporal dolosa na região; influenciador foi denunciado por ex-namoradas
FOTO: Gabriel Rosalin/DGABC

O Grande ABC registrou uma média diária de nove casos de lesão corporal dolosa (agressão física com intenção) contra mulheres, entre janeiro e maio deste ano. Segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública), foram 1.406 ocorrências contabilizadas nas delegacias das sete cidades.
Um tema frequentemente debatido na sociedade voltou ao centro das atenções nesta semana após um novo caso de grande repercussão. Três ex-namoradas do jornalista e influenciador digital Lucas Strabko, 31 anos, conhecido como Cartolouco, relataram ter sido vítimas de diferentes formas de violência durante os relacionamentos com ele. No programa Fantástico, da TV Globo, exibido neste domingo (12), as mulheres mostraram fotos de hematomas das supostas agressões. Ele negou as acusações.
Na região, os casos de agressões físicas aumentaram cerca de 10% em um ano. Nos cinco primeiros meses de 2025, foram 1.279 notificações registradas. Em todo ano, foram 3.063 registros nas delegacias da região.
Para a advogada, especializada em Direito da Mulher, Cristiane Fernandes, os casos de violência devem aumentar de forma progressiva nos próximos anos. “As campanhas de acolhimento, facilidade para o registro do Boletim de Ocorrência Eletrônico e fortalecimento da rede de apoio fazem com que casos que antes ficavam subnotificados cheguem ao conhecimento do Estado. Contudo, as medidas de prevenção e educação são praticamente inexistentes ou funcionam apenas de fachada. Além disso, a sensação de impunidade pela falta de fiscalização eficaz de medidas protetivas (por exemplo) faz com que continue a tendência”, comentou a especialista.
Conforme explicou Cristiane, a lesão corporal dolosa não se configura apenas com socos e tapas, mas também com puxões de cabelo, apertões em partes do corpo, mordidas, empurrões e queimaduras. O autor da agressão, no contexto da violência doméstica, pode pegar de um a quatro anos de prisão. Caso seja grave, gerando incapacidade de funções, a pena sobe para oito anos de reclusão.
A socióloga e ex-secretária de Políticas para Mulheres de Santo André, Silmara Conchão, afirmou que o corpo feminino sofreu um processo de naturalização de violência durante anos. “Persistem relações marcadas pela desigualdade de gênero, sustentadas por um padrão machista de origem histórica e cultural. Há um controle intenso sobre a vida das mulheres, o que contribui para a perpetuação da violência doméstica”, afirmou.
Para a especialista, essa questão cultural também foi fortalecida por grupos misóginos nas redes sociais, o que dificultou avanços de mulheres na sociedade. “Enquanto as causas estruturais e a dependência econômica não forem enfrentadas, o problema tende a permanecer”, concluiu.
LEIA TAMBÉM:
Criança é vítima em 54% dos casos de crime sexual contra menores na região
COMO DENUNCIAR?
Segundo a SSP, as forças policiais monitoram constamente os índices criminais e adotam estratégias de combate a todas as modalidades, incluindo ações preventivas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher.
Como forma de denunciar, as vítimas podem realizar um Boletim de Ocorrência nas DDMs (Delegacias de Defesa da Mulher) ou de forma on-line. Há também o canal anônimo do Ligue 180, específico para casos de violência doméstica.
No Grande ABC, há cinco DDMs, sendo que apenas a de São Bernardo funciona 24 horas. A unidade de Ribeirão Pires está em fase de conclusão de obras e Rio Grande da Serra não possui.
“Há uma urgência de que as delegacias sejam de plantão 24 horas e funcionamento nos sábados e domingos, já que obrigar uma mulher que sofreu violência na sexta-feira à noite a esperar até segunda-feira para obter uma medida protetiva é uma falha grave do Estado”, finalizou a advogada Cristiane.
Crimes contra objetos pessoais aumentam 33% em um ano
O crime de dano material também cresceu nos cinco primeiros meses do ano. Entre janeiro e maio de 2026, foram 260 ocorrências de deterioração de objetos de mulheres, ante 195 no mesmo período do ano passado, alta de 33%.
Segundo a advogada e especialista em Direito da Mulher, Cristiane Fernandes, essa violência consiste em destruir ou inutilizar algum item pessoal.
“O agressor utiliza a destruição de objetos como forma de tortura psicológica e demonstração de poder. Ele não bate na mulher naquele momento, mas quebra o celular para impedir que ela peça ajuda”, explicou.
Para o programa Fantástico, da TV Globo, a ex-namorada do influenciador Lucas Strabko (Cartolouco), Gabriela Augusto, afirmou que ele chegou a quebrar sua televisão e o seu celular.
A socióloga e ex-secretária de Políticas para Mulheres de Santo André, Silmara Conchão, ressaltou que uma relação tóxica vem acompanhada de vários tipos de violências. “As consequências incluem medo constante, ansiedade, depressão, baixa autoestima, sentimento de culpa e a mulher acaba se isolando socialmente”, disse.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.