Entrevista da Semana Presidente do Instituto Seci (Socioesportivo, Educacional, Cultural e Inovador) lidera uma instituição que atende atualmente 845 jovens em projetos desenvolvidos em Santo André e também no Ceará
FOTO: Denis Maciel/DGABC

À frente de uma das maiores organizações sociais do Grande ABC, Guilherme Ferreira de Souza acompanha a transformação na vida de centenas de crianças e adolescentes por meio do esporte, da educação e da cultura. Presidente do Instituto Seci (Socioesportivo, Educacional, Cultural e Inovador), ele lidera uma instituição que atende atualmente 845 jovens em projetos desenvolvidos em Santo André e também no Ceará. Souza fala sobre a trajetória do instituto, os desafios enfrentados pelas famílias em situação de vulnerabilidade, o papel do esporte na formação de crianças e os planos para expandir o modelo de atuação do Seci para outras regiões do País.
RAIO-X
Nome: Guilherme Ferreira de Souza
Aniversário: 28 de agosto
Onde nasceu: São Caetano
Onde mora: Santo André
Formação: Bacharel em Relações Internacionais
Um lugar: O mar
Time do coração: São Paulo
Alguém que admira: Nelson Mandela
Um livro: Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche
Uma música: Odara, de Caetano Veloso
Um filme: O Rei Leão (1994), de Roger Allers e Rob Minkoff
Como funciona o trabalho da instituição, quais atividades são oferecidas e quantas crianças e adolescentes são atendidos atualmente?
O Instituto Seci é uma organização social dedicada ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes por meio da educação, do esporte e da cultura. Partimos da convicção de que toda criança tem direito a descobrir seus talentos, ampliar seus horizontes e construir um projeto de vida que seja genuinamente seu. Hoje, o Instituto mantém quatro frentes de trabalho. Em Santo André, o Educação em Movimento, realizado em parceria com a Petrobras, integra futebol, reforço escolar, inglês, meditação e práticas corporais para os alunos. Além desse projeto, temos o No Tatame, que oferece aulas de judô, karatê e jiu-jítsu, e o Solta o Som, voltado à formação musical, com aulas de instrumentos, canto, gravação de áudio e uma banda formada pelos próprios jovens. No Ceará, na Praia do Preá, temos o projeto No Mar, em que são realizadas aulas de kitesurfe e natação. Atualmente, o Seci atende 845 crianças e adolescentes e registra mais de 1.300 matrículas em suas atividades, refletindo o envolvimento de muitos participantes em diferentes projetos oferecidos pelo Instituto. Dessa forma, oferecemos experiências que desenvolvem disciplina, expressão, convivência em grupo e maior segurança para enfrentar os desafios da escola e da vida.
O Seci é hoje uma das maiores organizações sociais do Grande ABC. Como o Sr. observa a responsabilidade que carrega a instituição?
Sinto essa responsabilidade todos os dias. Para muitas dessas crianças e adolescentes, o Seci representa uma oportunidade que talvez não exista em outro lugar: um espaço onde são acolhidas com afeto, reconhecidas em suas individualidades e estimuladas a desenvolver habilidades que vão muito além do esporte ou da sala de aula. É por isso que trabalhamos continuamente para fortalecer parcerias e captar recursos que garantam a continuidade e a expansão desse trabalho, permitindo que cada vez mais jovens tenham acesso a experiências que podem transformar seus caminhos.
O esporte continua sendo a principal porta de entrada para a transformação social ou a educação passou a ter um peso ainda maior nesse processo?
O esporte continua sendo uma importante porta de entrada para o nosso trabalho, especialmente o futebol, que hoje reúne 532 matrículas. Ele desperta o interesse de muitas crianças e adolescentes e cria um vínculo que nos permite ampliar o acesso a outras oportunidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, entendemos que esporte e educação caminham juntos. Cerca de metade dos alunos matriculados no reforço escolar também participa das aulas de futebol, mostrando como essas experiências se complementam. Outro exemplo é o Futebol Bilíngue, iniciativa que integra a prática esportiva às aulas de inglês, ampliando ainda mais o repertório dos participantes. A área educacional também vem crescendo e atualmente conta com cerca de 200 matrículas. Nosso objetivo é que o esporte seja o ponto de partida para que cada criança e adolescente encontre no Seci uma formação completa, ampliando suas perspectivas de futuro. Aqui, educação, cultura e esporte se complementam porque acreditamos que o desenvolvimento integral exige múltiplas linguagens: do corpo, da mente, da criatividade e da convivência.
Como manter a qualidade do trabalho e a atenção a todas as crianças enquanto a estrutura da instituição cresce?
Crescer só faz sentido se conseguirmos preservar a qualidade do atendimento. Por isso, a expansão do Seci sempre acontece acompanhada de investimentos na formação da equipe e na estrutura da instituição. Promovemos capacita-ções contínuas para nossos educadores e colaboradores, para que estejam preparados para atender às necessidades dos alunos e acompanhar as mudanças na educação e no desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo, buscamos aprimorar constantemente nossos espaços e recursos, garantindo que o aumento no número de atendimentos seja acompanhado de um ambiente adequado para o aprendizado e a convivência. Nosso compromisso é crescer sem perder aquilo que faz diferença: o cuidado com cada criança e adolescente que passa pelo Instituto, valorizando suas individualidades e trabalhando em colaboração com as famílias e o território onde atuamos.
Quando uma organização social cresce muito, existe o risco de perder a proximidade com a comunidade. Como o Seci trabalha para evitar isso?
O crescimento do Seci nunca aconteceu distante da comunidade, porque ela faz parte do nosso trabalho desde o início. Todas as iniciativas nascem desse princípio, pois nada é pensado apenas para a comunidade, mas junto dela. Essa é a chave que orienta nossas escolhas e fortalece nossa atuação. Por isso, contamos com uma equipe dedicada ao relacionamento com as famílias, que acompanha de perto suas necessidades e mantém um diálogo constante, fortalecendo a confiança e a participação no dia a dia da instituição. Essa proximidade também se traduz em ações concretas. Sempre que recebemos o apoio de parceiros, organizamos a entrega de brinquedos, roupas e cestas básicas para as famílias que mais precisam. Entendemos que cuidar do desenvolvimento de uma criança também passa por olhar para o contexto em que ela vive. Uma criança não se desenvolve de forma isolada; ela depende de vínculos, de referências e de um entorno que a apoie. Por isso, buscamos estar presentes para além das atividades do Instituto, mas também nos momentos em que a comunidade mais precisa.
O Instituto tem ampliado suas parcerias com grandes empresas e projetos privados, como a Petrobras. Na visão do Sr., o que empresas e investidores procuram hoje em uma organização social antes de destinar seus recursos?
Hoje, as empresas procuram organizações capazes de demonstrar impacto com planejamento, visão de médio e longo prazo e governança. Não basta executar bons projetos; é necessário apresentar uma direção bem definida, indicadores consistentes e capacidade de evolução. No Seci, temos fortalecido essa estrutura por meio de uma Teoria da Mudança que parte de uma convicção simples: toda criança tem direito a aprender, a se expressar, a praticar esportes e a pertencer a uma comunidade. Esse conjunto de direitos orienta nossas decisões, organiza nossas atividades e dá clareza aos resultados que buscamos alcançar. Além disso, credibilidade é um fator decisivo. Quem investe no terceiro setor quer compreender como cada recurso é utilizado e quais transformações ele torna possível. Por isso, mantemos uma gestão responsável, processos de prestação de contas e uma relação baseada na confiança, permitindo que nossos parceiros acompanhem, com clareza, os resultados construídos em conjunto.
Como o Sr. imagina o Instituto Seci no futuro? Existe algum sonho ou projeto que ainda não saiu do papel e que gostaria de concretizar?
Daqui a dez anos, vejo um Instituto Seci presente em múltiplos contextos pelo Brasil, mas reconhecível em cada um deles pelo mesmo cuidado, pela mesma escuta e pela mesma convicção de que toda criança tem direito a uma vida plena. A expansão que imaginamos é a consolidação de uma metodologia que já provou que funciona e que pode ser replicada sem perder aquilo que a torna eficaz. O que aprendemos nesses mais de 10 anos é que o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes exige consistência, multidisciplinaridade e enraizamento comunitário. Esse processo é replicável, escalável e validado pela trajetória de centenas de crianças que passaram pelo Instituto. O sonho que ainda não saiu do papel é sermos reconhecidos como referência nacional de política pública. Não no sentido de nos tornarmos um braço do Estado, mas de influenciar a forma como o poder público concebe e financia programas voltados à infância e à adolescência. Queremos que gestores, secretarias e legisladores olhem para o que construímos aqui e entendam que investir em desenvolvimento não é gasto, é infraestrutura social. Que uma criança com acesso ao esporte, à cultura e ao aprendizado de qualidade representa uma redução da vulnerabilidade futura. Desenvolvimento humano não tem atalho. Para o setor privado, a visão é parecida. Queremos ser vistos como parceiros estratégicos, um ativo essencial para empresas que entendem que operar em um país com desigualdade estrutural exige comprometimento com a base da pirâmide, por meio de investimento com método, governança e resultado.
Para encerrar, qual mensagem o Sr. deixaria para as crianças e adolescentes que estão começando hoje sua trajetória dentro do Seci?
Que acreditem em si mesmas. Essa é a mensagem mais importante que posso deixar. Sei que nem sempre é fácil. Muitas dessas crianças chegam ao Seci carregando histórias difíceis, dúvidas sobre o próprio valor e incertezas sobre o futuro. É exatamente por isso que estamos aqui: para mostrar, todos os dias, que acreditamos nelas antes mesmo que elas acreditem em si mesmas. Uma aula, um treino, uma apresentação, uma conversa com um educador, cada um desses momentos é uma oportunidade de descobrir algo novo sobre si mesmo, de perceber que é capaz, que tem voz, que tem valor. O Seci existe para multiplicar essas oportunidades e para garantir que nenhuma criança passe por aqui sem sentir que alguém apostou nela de verdade. Para quem está começando agora: aproveitem, experimentem, errem e tentem de novo. Confiem nos educadores que estão ao seu lado. E, acima de tudo, saibam que a trajetória de vocês importa e que nós, do Seci, temos fé absoluta em quem vocês são e em quem vocês vão se tornar. Fé nas crianças. Sempre.
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