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Quando a camisa pesa menos que deveria

Paulo Serra
12/07/2026 | 12:01
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Fernandes Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos de uma partida. Era impossível separar a Seleção do sentimento de pertencimento ao País.

Nesta Copa do Mundo, porém, ficou evidente que algo precisa ser refletido.

O desempenho abaixo do esperado da Seleção Brasileira não pode ser explicado apenas por aspectos técnicos ou táticos. Afinal, talento nunca foi um problema para o Brasil. Continuamos formando jogadores que brilham nos maiores clubes do mundo, disputam as principais ligas e acumulam títulos individuais. Qualidade existe. O que parece faltar é algo muito mais difícil de medir: o significado de vestir a camisa amarela.

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Enquanto o Brasil encontrou dificuldades para transformar talento em desempenho coletivo, outras seleções demonstraram uma característica que faz toda a diferença em torneios de tiro curto: um forte senso de pertencimento.

A Argentina é um exemplo claro disso. Também enfrentou adversários complicados, passou por momentos de pressão e precisou superar dificuldades durante a competição. A diferença esteve na forma como seus jogadores encararam cada desafio. Em muitos momentos, parecia evidente que cada dividida, cada corrida e cada comemoração carregavam um significado que ia além do resultado esportivo. Havia uma conexão visível entre os atletas, a camisa da Seleção e o orgulho de representar seu País.

Não se trata de afirmar que um povo ama mais sua pátria do que outro, nem de reduzir o futebol a demonstrações emocionais. Mas é impossível ignorar que equipes movidas por um propósito coletivo costumam superar limites que, muitas vezes, a técnica sozinha não consegue vencer.

O esporte está repleto de exemplos assim. Grandes conquistas nem sempre pertencem aos elencos mais talentosos, mas frequentemente às equipes que jogam umas pelas outras, que entendem o peso do escudo que carregam e que transformam identidade em combustível.

Talvez essa seja uma reflexão importante também para além das quatro linhas.

Nos últimos anos, o Brasil passou por um processo de intensa polarização política e social. Infelizmente, até símbolos nacionais passaram a ser vistos, muitas vezes, sob lentes ideológicas. A própria camisa da Seleção, que durante décadas foi um patrimônio afetivo de todos os brasileiros, acabou sendo associada a disputas políticas que jamais deveriam monopolizar um símbolo nacional.

Quando um País perde a capacidade de compartilhar seus próprios símbolos, perde também parte do sentimento de comunidade. E nenhuma sociedade prospera quando deixa de reconhecer aquilo que une pessoas com ideias diferentes.

Patriotismo não significa intolerância, exclusão ou superioridade sobre outros povos. Patriotismo é sentir orgulho da própria história, respeitar os símbolos nacionais, celebrar conquistas coletivas e compreender que existem causas maiores do que nossas diferenças individuais.

É possível discordar politicamente e, ao mesmo tempo, vibrar pela Seleção. É possível defender ideias distintas e ainda sentir emoção ao ouvir o Hino Nacional. Essas coisas nunca deveriam ser incompatíveis.

Talvez a Copa deixe um ensinamento que vai além do futebol.

Nenhuma nação constrói grandes resultados apenas com talento. Empresas não crescem apenas com profissionais qualificados. Cidades não se transformam apenas com bons gestores. Países não avançam apenas com recursos naturais ou potencial econômico.

Tudo isso depende também de um ingrediente invisível, mas decisivo: o sentimento de pertencimento.

Quando as pessoas acreditam que fazem parte de algo maior do que elas mesmas, trabalham melhor, cooperam mais, enfrentam dificuldades com mais resiliência e defendem aquilo que consideram seu.

No esporte, isso aparece na entrega dentro de campo. Na vida em sociedade, aparece no compromisso com o bem comum, no respeito às instituições, na valorização da cultura e no orgulho de construir um País melhor.

Mais do que discutir esquemas táticos ou escolhas de treinador, talvez esta Copa esteja nos convidando a uma pergunta mais profunda: o que significa, hoje, representar o Brasil?

Porque talento continua existindo. O que não podemos permitir é que falte o orgulho de vestir a nossa camisa – dentro e fora dos gramados.




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