Violência contra a mulher Na região, foram 90 casos entre janeiro de 2024 e maio de 2026, sendo 84 com vínculo amoroso entre as partes
ARTE: Agostinho Fratini/Editoria de Arte

“Sentia-me suja. Parecia que isso dava direito para outras pessoas me assediarem.” Letícia Novaes (nome fictício a pedido da personagem), 21 anos, foi vítima de divulgação de fotos íntimas sem consentimento em 2019, aos 14 anos, após se envolver com um garoto. Segundo ela, esse crime deixou sequelas durante seu crescimento.
No Grande ABC, em 93% dos casos de divulgação de fotos ou vídeos íntimos, os autores possuíam vínculo amoroso com as vítimas, segundo dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública). Entre janeiro de 2024 e maio de 2026, foram 90 ocorrências, sendo que em 84 delas o parceiro, ou parceira, foi acusado de pelo vazamento.
As ocorrências cresceram 23% comparando os cinco primeiros meses de 2026 com o mesmo período do ano passado. Foram 16 episódios neste ano contra 13 em 2025.
Segundo a advogada Cristiane Murakami, especializada em Direito da Mulher, o autor pode responder criminalmente com pena de um a cinco anos de reclusão pelo artigo 218-C do Código Penal Brasileiro. “A maioria dos casos acontece em envolvimentos amorosos, porque são produzidos dentro de uma relação de confiança. Contudo, o crime é utilizado para humilhar, controlar ou se vingar da mulher, atingindo sua dignidade, sua privacidade e podendo causar consequências emocionais profundas”, disse Cristiane, mencionando o gênero das principais vítimas.
Esse foi o caso da são-bernardense Letícia Novaes anos atrás. “Não foi nenhum relacionamento sério, mas conversava com esse menino. Na época queria ter algo e ele se aproveitou disso. Me mandava (imagens) também, mas nunca passou na minha cabeça compartilhar com ninguém. Após um tempo, descobri que ele tinha um grupo com outros garotos, onde ele compartilhava essas fotos”, disse a vítima.
“Na época, comecei a receber mensagens anônimas horríveis e pessoas tocando em mim. Parecia que dava abertura para muita gente me assediar de várias formas. Sentia-me muito suja, fiquei mal e entrei em depressão. Minhas notas começaram a cair e, por muito tempo, tive dificuldade de me relacionar novamente”, comentou Letícia.
Apesar dos problemas, a são-bernardense não procurou ajuda policial por medo e desconfiança. Para a advogada Cristiane Murakami, a denúncia é uma das partes mais importantes para garantir direitos. “Nenhuma mulher deve sentir vergonha, já que isso deveria pertencer a quem escolhe expor a intimidade. Denunciar é um passo importante para romper o ciclo de violência e evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. O aumento de casos na região, por exemplo, pode refletir a facilidade de disseminação pelas redes sociais e uma conscientização das vítimas, mas sabemos que muitas ocorrências não são registradas”, falou a especialista.
Em fevereiro deste ano, Cibelle Monteiro Alves, 22, foi morta pelo ex-namorado, Cassio Henrique da Silva Zampieri, 25, dentro da loja Vivara no Golden Square Shopping, em São Bernardo. Segundo as investigações policiais, o autor havia divulgado imagens íntimas da vítima meses antes do crime.
PERFIL
Segundo dados da SSP, a maioria das vítimas tem entre 21 e 25 anos, com 20 casos entre janeiro de 2024 e maio de 2026. “São faixas etárias em que muitas pessoas estão iniciando ou consolidando relacionamentos, utilizam intensamente as redes sociais e aplicativos de mensagens e compartilham conteúdos digitais com maior frequência”, explicou Cristiane sobre a maior concentração de ocorrências.
Para delatar, vítimas deste tipo de crime podem utilizar as DDMs (Delegacias de Defesa da Mulher) e também canais de denúncia anônima como o telefone 180, voltado à violência contra a mulher.
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