Mercado de trabalho Ministério do Trabalho aponta que 13,9 milhões de pessoas entre 14 e 24 anos estão ocupadas, índice que supera balanço pré-pandemia
Celso Luiz/DGABC

O Brasil soma 13,9 milhões de jovens ocupados entre 14 e 24 anos, segundo o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego). Esse número, registrado no primeiro trimestre de 2026, superou o nível pré-pandemia em 569 mil pessoas. Do total, 57,8% têm carteira assinada. Entre janeiro e março deste ano, a taxa de desemprego desse público caiu pela metade em relação ao pico registrado em 2021, ao chegar em 13,8%. Apesar do avanço na formalização, o principal desafio para essa parcela da população deixou de ser apenas conquistar o primeiro emprego e passou a ser construir uma trajetória profissional com perspectivas de crescimento e permanência no mercado.
De acordo com a pesquisa, 84% dos trabalhadores nessa faixa etária estão concentrados em ocupações generalistas, como balconistas, escriturários, auxiliar de construção de edifícios e recepcionistas, enquanto 7,8 milhões recebem até 1,5 salário mínimo (R$ 2.431,50).
Para a Jamille Cavalcanti, professora do curso de Administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a pesquisa expõe um cenário marcado por barreiras estruturais. Na visão da especialista, o crescimento da formalização não significa, necessariamente, que os jovens estejam inseridos em empregos capazes de proporcionar desenvolvimento profissional. “Muitos jovens estão em ocupações de baixa complexidade, com salários reduzidos e pouca perspectiva de crescimento. Há dificuldade de construir uma trajetória mais qualificada, com estabilidade e perspectiva de futuro.”
A dificuldade de permanecer no emprego também aparece no levantamento do MTE. Entre adolescentes de 14 a 17 anos, 52% deixam o trabalho antes de completar um ano. Na parcela jovem de 18 a 24 anos, esse percentual é de 38,2%, o que demonstra elevada rotatividade no início da vida profissional.
O operador de loja Arthur de Souza Oliveira, 20, morador do Jardim João de Barro, em São Bernardo, contraria as estatísticas. Há pouco mais de três anos no primeiro emprego com carteira assinada, ele afirma que o trabalho trouxe aprendizado, principalmente no atendimento ao público, mas também obrigou mudanças nos planos pessoais.
Oliveira precisou interromper o curso de Tecnologia da Informação por causa da mudança do campus e da dificuldade para conciliar a rotina de trabalho com os estudos. O plano é retomar a graduação em Recursos Humanos e buscar uma oportunidade na área. Apesar disso, ele diz que permaneceria na empresa caso surgisse uma vaga compatível com sua formação. “Às vezes sinto que sou subestimado. Como sou mais novo, muitas pessoas acham que não tenho experiência suficiente.”
Quem também enxerga o emprego atual como uma etapa da carreira é o auxiliar industrial Luiz Costa, 23, morador da Vila João Ramalho, em Santo André. Efetivado após atuar como jovem aprendiz, ele concilia o trabalho com a faculdade de jornalismo e relata que a rotina exige abrir mão do tempo livre. “Já deixei de fazer viagens, de me reunir com os amigos e até de descansar para priorizar o trabalho.”
Na avaliação da especialista, esse cenário reflete uma mudança na forma como os jovens enxergam o mercado de trabalho. Ela explica que a nova geração ainda valoriza o emprego formal, porém passou a buscar ambientes que ofereçam chances de desenvolvimento. “A nova geração não rejeita o trabalho formal; ela rejeita relações de trabalho percebidas como sem escuta, sem aprendizagem e sem futuro.”
Segundo Jamille Cavalcanti, as empresas devem criar condições para que eles evoluam profissionalmente. “Não basta abrir vagas. Sem integração, feedback, mentoria e perspectiva de crescimento, o primeiro emprego tende a ser apenas uma experiência passageira, e não o início de uma trajetória mais sólida.” Estágio ganha força como primeiro passo profissional
O estágio tem se consolidado como uma das principais portas de entrada para o mercado de trabalho entre universitários. Pela primeira vez, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) incluiu um levantamento sobre a modalidade em seu diagnóstico da juventude e identificou cerca de 1,8 milhão de estagiários no Brasil, dos quais a maior parte atua em vagas remuneradas.
Segundo a subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho da Pasta, Paula Montagner, o estágio representa uma etapa importante na formação dos jovens porque aproxima a teoria da prática e facilita a transição para a formalização. Para ela, esse período também ajuda o estudante a desenvolver competências que serão determinantes para a carreira. “O importante é transformar aquilo que aprendemos agora em um conhecimento que permita, no próximo vínculo ou até no emprego atual, melhorar a inserção e crescer profissionalmente”, diz.
A estudante de Publicidade e Propaganda Ana Clara Tavares, 20 anos, moradora do Jardim Independência, em São Bernardo, conquistou vaga de estágio em abril deste ano. Ela está no quarto semestre da graduação.
Além da necessidade de complementar a renda em casa, a estudante enfrentava a pressão de conquistar uma oportunidade na área de formação. “Eu precisava muito ajudar minha família. Também me cobrava porque praticamente todo mundo da minha turma já estava estagiando e eu ainda não tinha conseguido uma oportunidade na área”, conta.
A rotina, porém, exige organização. Entre faculdade, trabalho e deslocamentos, a estudante passa cerca de quatro horas por dia no transporte público quando precisa ir presencialmente ao escritório. “Quando você passa muito tempo no estágio ou está muito cansada, perde momentos do dia a dia, de lazer e até para cuidar de si.”
Apesar dos impasses, Ana considera que a experiência tem ampliado sua formação profissional e permitido colocar em prática conhecimentos adquiridos na universidade. “Conviver com pessoas que trabalham na área há muito tempo ajuda. Todo dia descubro coisas que não veria na faculdade.”
‘Nem-nem’: 6,2 milhões não estudam nem trabalham
Enquanto o mercado de trabalho registra aumento da formalização entre os jovens brasileiros, uma parcela expressiva da população continua distante tanto da educação como do emprego. O Ministério do Trabalho indica que 6,2 milhões de jovens não estudam nem trabalham e representam 18,7% das pessoas entre 14 e 24 anos.
Dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2025 mostram que 22,8% das mulheres jovens estavam fora do trabalho, da escola e da qualificação profissional, ante 12,4% dos homens. Entre os jovens pretos e pardos, o percentual era de 19,8%, contra 14% entre os brancos.
Segundo Jamille Cavalcanti, professora do curso de Administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o cenário não pode ser explicado apenas pela dificuldade de conseguir emprego, mas também por fatores econômicos, familiares e sociais. “O abandono escolar costuma estar associado à baixa renda, à necessidade de contribuir com o sustento da família, à dificuldade de transporte e à percepção de que a formação oferecida não dialoga com as oportunidades reais de trabalho.”
A especialista destaca que as mulheres enfrentam obstáculos ainda maiores devido à sobrecarga das responsabilidades de cuidado. “Muitas jovens deixam de estudar ou trabalhar não porque não desejam construir uma trajetória profissional, mas porque não têm rede de apoio, creche, divisão equilibrada das responsabilidades domésticas ou condições materiais para permanecer na escola e no trabalho.”
Ela também critica o uso do termo “nem-nem”, que, na avaliação, reforça uma visão equivocada sobre essa parcela da população. “É muito problemático porque produz uma leitura moralizante, como se esses jovens estivessem nessa condição por escolha, preguiça ou falta de esforço. Essa visão esconde causas estruturais profundas”, completa.
Para a docente, a discussão precisa deixar de responsabilizar os jovens individualmente e concentrar esforços na ampliação de políticas públicas voltadas à permanência na escola, à qualificação profissional e à criação de oportunidades de trabalho decente.
“A pergunta central não deve ser ‘por que eles não querem trabalhar?’, mas quais condições sociais, educacionais, familiares e econômicas impedem esses jovens de estudar, se qualificar e trabalhar.”
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