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Instinto materno é mito? Psicóloga explica

Especialista afirma que o amor pelo bebê pode ser construído e que a cobrança por uma maternidade automática aumenta culpa no pós-parto

08/07/2026 | 13:58
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Nem toda mulher olha para o bebê logo depois do parto e sente que sabe exatamente o que fazer. Algumas têm medo de dar banho, insegurança para amamentar, dificuldade para entender o choro ou estranham a nova rotina. Ainda assim, muitas escondem essas dúvidas por receio de parecerem menos mães.

A ideia de que toda mulher nasce pronta para cuidar de um filho ainda atravessa a maternidade. Ela aparece em frases como “na hora você vai saber”, “mãe sente” ou “isso é instinto”. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, essa crença pode aumentar a culpa de mulheres que não vivem a chegada do bebê como uma experiência imediata de plenitude.

Segundo a especialista, amor materno e instinto materno não são a mesma coisa.

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“O amor materno existe, mas é uma construção. Instinto materno, não. A forma como uma mulher vai se relacionar com a maternidade depende do momento histórico, da cultura em que ela está inserida e da rede que existe ao redor dela”, afirma.

Rafaela explica que cuidar de um bebê envolve aprendizagem. Amamentar, reconhecer sinais de sono, lidar com o choro, estabelecer uma rotina e se adaptar à nova identidade de mãe não são tarefas que aparecem prontas. Elas são construídas com tempo, orientação, apoio e convivência.

A cobrança pelo chamado instinto materno também pode dificultar que mulheres peçam ajuda. Quando se espera que a mãe saiba tudo naturalmente, qualquer dúvida passa a ser vivida como falha pessoal. O medo, a ambivalência e o cansaço acabam sendo escondidos.

Essa pressão fica ainda maior no pós-parto, período marcado por privação de sono, mudanças hormonais, recuperação física, excesso de palpites e responsabilidade intensa sobre o recém-nascido. Em vez de receber acolhimento, muitas mulheres escutam que deveriam estar felizes.

Para a psicóloga, romantizar a maternidade pode ser um fator de risco para o adoecimento emocional. Isso não significa negar o vínculo entre mãe e bebê, mas reconhecer que ele pode se formar de maneiras diferentes.

Uma mulher pode amar o filho e, ao mesmo tempo, estar exausta. Pode desejar cuidar do bebê e não ter energia. Pode se sentir feliz com a maternidade e também sentir saudade da vida anterior. Essas experiências não tornam a mãe menos capaz.

O problema aparece quando a sociedade transforma a maternidade em uma prova de desempenho. A mulher passa a ser cobrada por estar disponível, segura, produtiva, bonita, grata e emocionalmente estável em um dos períodos mais exigentes da vida.

Para Rafaela, substituir a ideia de instinto por apoio muda a forma de olhar para o pós-parto. Em vez de perguntar por que a mãe não sabe lidar com tudo, a família pode perguntar do que ela precisa. Em vez de esperar que ela dê conta sozinha, a rede pode dividir tarefas.

“O cuidado com a saúde mental materna começa quando a mulher deixa de ser tratada como alguém que deveria saber tudo por natureza. Mãe também aprende. E não deveria precisar aprender sozinha”.




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