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Carlos Saldanha: ‘Ganhar prêmios é a consequência de todo projeto’

06/07/2026 | 10:00
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Carlos Saldanha é referência nacional no cinema. Diretor, animador e produtor brasileiro, participou da criação de franquias como A Era do Gelo e Rio. Também concorreu ao Oscar de Melhor Animação com O Touro Ferdinando (2017), longa que dirigiu. Após sua primeira experiência em um filme live-action, Harold e o Lápis Mágico (2024), Saldanha se une à Buena Vista International, selo da The Walt Disney Company, para produzir um projeto brasileiro ambicioso: 100 Dias. O longa conta a história de Amyr Klink, que realizou a histórica travessia do Atlântico Sul a remo, e já desponta como um potencial candidato a premiações.

RAIO X

Nome: Carlos Saldanha

DGABC

Aniversário: 24 de janeiro

Onde nasceu: Rio de Janeiro

Onde mora: Nova York, nos Estados Unidos

Formação: Ciência da Computação, com mestrado em animação

Um lugar: Brasil 

Time do coração: Flamengo

Alguém que admira: A esposa, Isabella Scarpa

Um livro: Cem Dias Entre Céu E Mar, de Amyr Klink

Uma música: Samba do Avião, de Antônio Carlos Jobim

Um filme: Blade Runner - O Caçador de Androides, de Ridley Scott (1982)

Depois de mais de duas décadas dirigindo animações, como o Sr. se sente à frente de um live-action baseado em uma história real?

Foi uma experiência única contar essa história. Sempre trabalhei com time criando ilusões. São filmes de animação em que a gente criava mundos e contava histórias, coisas que talvez nem existissem. E essa foi a primeira vez que eu contei uma história verídica. Foi um desafio para mim, no sentido de que eu não estava acostumado a fazer esse tipo de história. Mas, ao mesmo tempo, foi muito gratificante, porque eu aprendi muito fazendo. Me conectei muito com o Amyr, com a história dele. Já tinha lido o livro dele (Cem Dias Entre Céu E Mar) quando era mais jovem, então já era fã. Isso ajudou muito. Mas, nesse mundo, tinha coisa que filmamos que era em tanque, com fundo azul. Depois a gente teve que colocar mar, colocar peixe, colocar baleia, colocar tudo. Então, na verdade, tem um pouco de animação também na história. Não consigo fugir 100%.

Em Rio e A Era do Gelo, o Sr. criava mundos. Em 100 Dias, precisava respeitar uma história real. Você se sentiu mais livre ou mais limitado? 

Claro que tem as limitações físicas, porque se filma aquilo que vai ver. Mas, ao mesmo tempo, se tem descobertas durante a filmagem. Trabalhando com o ator ali na hora, você descobre momentos, emoções e tudo mais, que na animação é uma coisa mais planejada. Pode acontecer também, mas no live-action isso é muito importante. Conforme filmamos, vamos contando a história e vendo o filme se formando na cabeça. Vai vendo os atores se desenvolvendo e o personagem se transformando. Não precisa entrar no mundo mágico. Já está ali fazendo tudo o que precisa fazer. Os dois processos, animação e live-action, têm muita semelhança no processo criativo, na forma como você executa algumas coisas. Só que o live-action é uma coisa do momento. Na animação, você vai mexendo até o fim.

Já se fala em 100 Dias como aposta brasileira no Oscar após dois anos de indicações. Como o Sr. se sente em relação a isso? Pressiona o resultado final da produção?

De forma alguma. Isso está mais na cabeça das pessoas que estão em volta. Na minha cabeça não passa isso. O que passa pela minha cabeça é o seguinte: eu estou terminando um filme, vou lançar ele e espero que as pessoas gostem. Espero que elas vão assistir, porque isso é o mais importante. Não basta só fazer um bom filme. As pessoas têm que conferir, têm que assistir, porque, senão, a gente não tem oportunidade de fazer outras boas obras depois. Então isso é muito importante. O mais importante agora é que o longa seja visto, que o pessoal curta o filme e goste do que eu estou fazendo. Agora, ganhar prêmios é a consequência de todo projeto. Se acontecer, vai ser a cereja do bolo. Vai ser ótimo. Se acontecer, vou ficar muito feliz, se não acontecer também, estou feliz com o que a gente fez, com o projeto e a equipe. O processo foi incrível.

Qual a participação do Amyr Klink nesse longa? Ele chegou a dar sugestões de roteiro e na produção?

O Amyr sempre foi uma inspiração para mim. Eu já seguia ele, já curtia o trabalho, tinha lido o livro, achava um cara muito interessante. Então, quando a história veio para mim, fiquei muito animado de poder fazer. Mas eu tinha que conhecer ele. A gente almoçou e jantou, e foi incrível, porque ele é uma pessoa muito carismática, interessante e tem histórias incríveis. Fiquei ainda mais animado de fazer o filme, porque tive a oportunidade de conhecer melhor quem ele era. Foi muito gratificante isso, porque, durante o processo de criação, a gente conversava. Quando eu tinha dúvidas, queria aprender, porque tinha uma responsabilidade grande, de contar a história com ele vivo. Fiz muita pesquisa pessoal. Eu fui além do livro, na verdade. Quando eu tinha dúvidas sobre alguma coisa que estava no livro, eu falava para ele: ‘Pô, Amyr, como é que você fez isso? Como é que aconteceu isso? Como é que estava?’. Fui fazendo essas perguntas, e foi muito importante nesse processo, porque as respostas dele me davam inspiração para eu criar as cenas o mais próximo possível do que poderia ter acontecido. Sempre foi, e continua sendo, um relacionamento muito legal com ele, com a família dele. É interessante porque ele assistiu ao filme umas duas semanas atrás e ficou emocionado. O grande prêmio é quando ele vê o filme e se vê, achando que a história foi bem contada.

O Sr. passou boa parte da carreira fazendo filmes para um público global. Quais são as principais diferenças entre o Brasil e o Exterior?

Penso que, em nível, tanto lá como aqui fui muito bem assessorado. Tinha uma equipe incrível aqui e lá nos Estados Unidos também. Nesse ponto, acho que o Brasil não tem nada a dever. Temos ótimos profissionais de produção. Talvez não tenha a mesma quantidade que tem lá fora, porque lá é uma indústria muito maior. O que a gente tem aqui, e que lá fora às vezes é mais difícil, é um jogo de cintura maior, uma forma de chegar onde você precisa chegar com menos recursos, ou com soluções mais criativas. Os projetos aqui são mais baratos, o custo de fazer as coisas é menor, mas isso não significa que a produção tenha menos qualidade. Os orçamentos no Exterior são diferentes, mas isso não significa, necessariamente, que as produções sejam melhores. Há um modelo diferente do Brasil, mas, na essência, é muito parecido. O que a gente gostaria, justamente, é que houvesse um pouco mais de investimento no cinema brasileiro, como existe lá fora. Acho que isso faria com que mais pessoas estivessem produzindo e surgissem projetos maiores. Esse, por exemplo, foi um projeto de grande desafio, porque tem muito efeito especial. Se eu fosse fazer esse projeto lá fora, ele custaria, no mínimo, dez vezes mais.

No campo de efeitos especiais, animação e trabalho autoral, uma discussão que vem crescendo nos últimos anos é a inteligência artificial. Qual seria o limite dessa tecnologia?

A inteligência artificial já chegou para ficar. Não é uma tecnologia passageira. Pelo contrário. A tendência é ela ficar cada vez mais poderosa, intuitiva e melhor. Temos que aprender a lidar com isso e abraçar essa tecnologia para o próprio futuro do cinema e dos projetos. Como tudo, ela tem vantagens e desvantagens. Mas, se olharmos para a inteligência artificial realmente como uma ferramenta, como alguma coisa que melhora o seu dia a dia, acho que ela pode ser muito proveitosa para todos. Há muitas coisas em que ela já é uma realidade e já ajudando bastante. Por exemplo, na parte de som. Quando havia muito barulho de vento, ventiladores e máquinas jogando água, era infernal, e havia diálogos importantes. Em alguns momentos, a gente simplesmente não podia aproveitar aquele áudio por causa do ruído. O pessoal de som que trabalhou no filme tinha ferramentas que limpavam esses áudios de forma impressionante. Antigamente, se a gente não tivesse isso, teria que refazer a cena. Não existia outra opção. Às vezes, por exemplo, a câmera ficou um pouco fora de foco. Já existem programas que ajudam a trazer o foco de volta e você não perde o plano que queria. São ferramentas nas quais vale a pena prestar atenção e entender o que vai ser feito daqui para frente. Mas coisas de criação são difíceis de substituir. Aquilo que depende de um olhar criativo e de uma execução criativa, manual, eu acho que vai ser difícil substituir.

E, depois de tantos anos, como analisa as mudanças no mercado de filmes, principalmente em relação à indústria cinematográfica e à produção de filmes?

Acho que, com a pandemia, as coisas deram uma estremecida. O foco ficou muito voltado para o streaming, para plataformas como Netflix, Amazon e Disney+. Isso alterou um pouco a dinâmica do cinema. Agora, aos pouquinhos, essa dinâmica está voltando. Mas, com essa incerteza sobre o sucesso dos projetos, o que eu tenho notado é que existe um pouco mais de cautela na produção. Não chega a ser medo, mas há um pé atrás em relação a qualquer projeto. Quem produz procura acertar mais do que errar. E, para acertar, muitas vezes a opção é fazer só coisas que as pessoas já conhecem, fazer sequências ou adaptar propriedades intelectuais que já têm um público interessado. Isso é bom, mas, ao mesmo tempo, é ruim. É bom porque tenta trazer as pessoas de volta ao cinema. A parte ruim, para mim, é que você acaba dando menos oportunidades para histórias originais. Estamos vendo grandes produções, muito caras, mas que já não estão tendo o mesmo sucesso de bilheteria. Isso acende um alerta de que talvez esse receio de apostar em histórias originais também esteja diminuindo a vontade das pessoas de ir ao cinema. É como se o remédio usado para resolver um problema agora estivesse começando a mostrar sinais de desgaste. As pessoas já estão cansadas de ver o dois, o três, o quatro, o cinco da mesma história. Ainda faz sucesso, claro, e isso é bom. Mas eu espero que a indústria continue incentivando projetos originais. Para conseguir isso, acho que também precisa haver uma adaptação das produtoras. Fazer filmes com orçamentos que permitam contar boas histórias, mas que também não representem um risco tão grande para quem está investindo. Acho que o segredo está nesse equilíbrio. A indústria está se reestruturando e se reinventando.

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