Entrevista da Semana Titulo Entrevista da Semana

Carlos Pracidelli: ‘Só o futebol explica a tragédia do 7 a 1 em 2014’

Angelo Verotti
29/06/2026 | 08:26
Compartilhar notícia
FOTO: Reprodução/Instagram
FOTO: Reprodução/Instagram Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Com a experiência de quem integrou a comissão técnica brasileira na conquista do pentacampeonato mundial em 2002, no Japão e na Coréia do Sul, mas chorou a derrota para os alemães em 2014, no Brasil, o ex-preparador de goleiros da Seleção Carlos Pracidelli se revela defensor do treinador Carlo Ancelotti, além de colocar o País entre os favoritos ao título em 2026, ao lado de Alemanha, Argentina, Inglaterra, França e Portugal. O ex-goleiro do Santo André e ex-auxiliar técnico de Felipão destaca a qualidade individual de Messi, Cristiano Ronaldo, Mbappé e se diz totalmente favorável à presença de Neymar no grupo que está no Mundial.

RAIO X

Nome: Antonio Carlos Pracidelli

DGABC

Aniversário: 3 de março

Onde nasceu: São Paulo

Onde mora: São Paulo

Formação: Economia

Um lugar: Inglaterra 

Time do coração: Palmeiras

Alguém que admira: Luiz Felipe Scolari (Felipão)

Um livro: A Arte da Guerra, de Sun Tzu

Uma música: Deixa a vida me levar, de Zeca Pagodinho

Um filme: A Arte da Guerra – History Channel

O Brasil foi pentacampeão mundial em 2002 com elenco formado por estrelas como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. Nesta edição, os torcedores questionam o nível técnico do elenco e até a qualidade do técnico italiano Carlo Ancelotti. As críticas são justas?

Eu não gosto de fazer comparações, porque cada seleção teve o seu momento, a sua época. Sei como foi em 2002, 2006, 2014, enfim. E, agora, chegamos em 2026 com uma safra que, se formos analisar individualmente, possui jogadores que representam muito bem o Brasil na Europa. Disputam grandes ligas e são importantíssimos nos clubes em que atuam. E tem mais: quase todo mundo, principalmente as pessoas ligadas ao futebol, pediam a presença de um treinador estrangeiro na Seleção.

Você também é favorável a presença de um técnico do Exterior à frente da Seleção mesmo com o Brasil tendo tradição na função com campeões como Felipão, Parreira, Zagallo, Tite, entre outros?

O Ancelotti é um grande treinador, fantástico, supervitorioso. Temos que acreditar na evolução do Brasil durante a Copa e deixar ele trabalhar. Que ele possa realizar um grande Mundial, levar nossa Seleção à final e, por que não, trazer o tão sonhado hexa. Creio que o Brasil ainda vai dar grandes alegrias ao povo.

A Seleção tem potencial para ser campeã? 

Tenho acompanhado os jogos. Se voltássemos um bom tempo atrás, a Seleção Brasileira seria a grande favorita ao título. Atualmente, coloco o País nesse rol, mas há também outras grandes seleções entre as favoritas. Equipes poderosas como França, Alemanha, Inglaterra, Argentina e Portugal, além de um ou outro país que sempre acaba aparecendo. Mas acredito que o Brasil tem todas as possibilidades de conseguir o título mundial. Não é o grande favorito, mas está entre eles com certeza.

Quais as suas expectativas em relação à participação do Brasil no mata-mata?

São jogos complicadíssimos. Não só para o Brasil, mas para todas as outras seleções classificadas. E em partida eliminatória tudo pode acontecer. Agora, equipes que possuem jogadores com qualidade individual sempre levam um pouco mais de vantagem. Acho que iremos entrar nessa nova fase com dois atletas altamente técnicos, casos do Neymar e do Vini Jr., que poderão fazer frente a qualquer seleção que também tem jogadores de qualidade individual.

E o que pode falar do Japão, nosso adversário?

O Japão é uma seleção que já vem participando praticamente de todas as últimas Copas. É uma escola muito rigorosa em termos de posicionamento tático, de bom preparo físico. Mas acredito que o Brasil deverá chegar às oitavas de final, pois possui melhor equipe, jogadores com características mais de definição. O Brasil terá um pouco de dificuldade por tudo isso que eu falei, mas vai avançar.

Analisando as características de cada seleção, vê alguma em vantagem?

A Argentina possui muita qualidade, e também tem o Messi, um jogador que está fazendo a diferença. Se você pegar a França, além do conjunto, tem a individualidade de um Mbappé. Se pegar Portugal, tem o Cristiano Ronaldo, um recordista. A individualidade está fazendo a diferença nesse Mundial. E no caso do nosso Brasil temos a esperança no Neymar. Mesmo que a condição dele não seja a melhor, é um jogador que considero tão fundamental na Seleção como o Messi é na Argentina, como Mbappé é na França e o Cristiano Ronaldo é em Portugal. Não apenas eu, mas todos estão ansiosos para que o Neymar esteja bem fisicamente, porque, tecnicamente, tenho certeza que pode ser fundamental, peça importantíssima na individualidade que as outras equipes possuem e que nós vamos ter com a qualidade que ele dá.

A aposta de Ancelotti no goleiro Alisson como titular é alvo de muitos questionamentos, principalmente entre torcedores. Como profundo conhecedor da posição, tem alguma restrição ao nome?

Temos que entender o porquê da convocação dos goleiros Alisson, Ederson e Weverton. O nosso treinador está há pouco mais de um ano no Brasil. Toda a vida dele foi na Europa, nas grandes ligas mundiais. E ele tem o Alisson e o Ederson como referências de goleiros que até pouco tempo ele estava enfrentando. Tenho certeza que esse foi o motivo da convocação dos dois. Não que não tenham potencial, mas faltou tempo para ele conhecer outros goleiros. Exceção ao Weverton, porque quem o conhecia mais era o Taffarel (treinador de goleiros da Seleção), até pelas convocações anteriores. Então, tudo isso, por si só, já justifica a convocação do Alisson, do Ederson e do Weverton.

Destacaria outros nomes para a posição?

Eu diria que o Brasil está muito bem servido de jovens goleiros, como é o caso do Hugo (Souza), que voltou a ter o seu momento no Corinthians. O Palmeiras trouxe o Carlos Miguel. Temos o Brazão, do Santos, fantástico. Há ainda o Léo Jardim, do Vasco, que há um bom tempo vem fazendo excelentes campeonatos. Só que o Ancelotti não teve tempo para acompanhar esses goleiros no Brasil. Acredito que passando o Mundial, já pensando em 2030, ele deve iniciar a renovação da Seleção, movimento que, certamente, começará pelo gol. 

Acredita que eliminação precoce possa resultar em pressão para troca de comissão técnica, apesar de o Ancelotti ter renovado contrato até 2030?

(A CBF) Tem que dar continuidade (ao trabalho). Você não vai fazer uma reformulação na equipe durante a Copa. Quando acabar, com certeza vai começar o processo de renovação, e em todas as outras posições também. Temos jogadores que, em 2030, já estarão numa certa idade. Mas é bom deixar claro que não é por causa da idade que determinado atleta vai deixar de ser convocado. No Brasil, outros jovens jogadores vão aparecer. Como é o caso do Endrick, que ainda não teve grande oportunidade na Seleção; do Estêvão, que, infelizmente, teve essa contusão que o tirou da Copa. Para mim, ele seria, juntamente com Neymar e Vini Jr., destaque da equipe. Jogadores altamente capacitados para levar o Brasil à final do Mundial. 

Muito se questiona se o Brasil ainda revela talentos como em outras épocas...

Sim, aqui é o País do futebol. Esses garotos já nascem com dom. E o Brasil sempre vai continuar fornecendo jogadores da qualidade do Estêvão, do Endrick, do Vini Jr., do Rodrygo, que também ficou fora do Mundial por contusão. Todos esses atletas tem mais duas, três Copas pela frente. Além disso, outros irão surgir no Brasileiro, nos regionais. Jovens valores com potencial enorme. É verdade também que estamos perdendo esses atletas precocemente, como foram os casos do Endrick e do Estêvão, os dois mais recentes. Para você ver como o Brasil é forte nesse sentido. Tenho certeza que a safra de jovens valores seguirá. Os clubes hoje estão se se preparando cada vez mais no departamento amador, fazendo com que esses talentos tenham toda a condição de serem lapidados da melhor maneira, para que sejam esses fantásticos jogadores que estamos vendo no Brasil.

O sr. e os demais integrantes da delegação tiveram em 2002 a oportunidade de celebrar o pentacampeonato mundial, mas também viveram a frustração da derrota, por 7 a 1, para a Alemanha, que tirou a chance de título no Brasil, em 2014. Como lidar com esses sentimentos?

Sobre as Copas de 2002 e de 2014 não gosto de fazer comparações porque foram momentos distintos. Em 2002, graças a Deus, conseguimos o tão sonhado pentacampeonato mundial. E o tão sonhado hexa acabou não acontecendo em 2014. Mas o que eu posso dizer é que, em 2002, tudo foi feito para que a gente chegasse na final. Aconteceu de uma maneira super certa que culminou na conquista do pentacampeonato. O mesmo trabalho foi desenvolvido em 2014, para que naquele jogo, naquela semifinal contra a Alemanha, não acontecesse aquela tragédia. Mas, infelizmente, aconteceu. O único esporte que eu conheço que pode fazer com que situações dessa natureza ocorram é o futebol. Tudo foi feito para que chegássemos à grande final, que seria no nosso país, no Maracanã. Era o sonho de todo brasileiro, de todo jogador, de toda a comissão técnica. Chegamos tão perto e não conseguimos. Mas como falei, o futebol fez com que o final (da história) fosse outro. 

O senhor mantém contato com os campeões de 2002?

Sim. Com o Felipão constantemente. Eu trabalhei com ele 26 anos. Nosso último trabalho foi em 2023, 2024, no Atlético Mineiro. Foi quando saímos do clube e ele resolveu encerrar a carreira como treinador. E eu, pelo fato de já estar como auxiliar técnico e preparador de goleiros dele durante praticamente todo esse tempo, decidi que no momento que ele resolvesse parar, eu também iria. E foi o que aconteceu. Mas eu falo também com outras pessoas, tipo (ex-auxiliar técnico Flávio) Murtosa, Paulo Paixão (preparador físico), os médicos Rodrigo Lasmar e (José Luiz) Runco. E com os jogadores também, mas pouco, porque cada um tem a sua vida, então, às vezes, fica difícil você ter um contato mais frequente. Mas a gente mantém um certo contato.

LEIA MAIS:

Fernando Mitre: ‘A democracia está consolidada, mas precisa de vigilância’




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;