Entrevista da Semana
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O diretor de jornalismo da TV Bandeirantes, Fernando de Lima Mitre, avaliou os desafios da democracia brasileira, o cenário político para as próximas eleições e os impactos da polarização no debate público durante entrevista ao Diário. Com mais de cinco décadas de atuação na cobertura política, o jornalista destacou a importância dos debates eleitorais, defendeu o papel do jornalismo profissional em meio ao avanço das redes sociais e afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Messias Bolsonaro (PL) continuam sendo as principais forças políticas do País. Mitre também comentou a dificuldade de renovação das lideranças nacionais e os desafios para o crescimento econômico brasileiro.
RAIO X
Nome: Fernando de Lima Mitre
Aniversário: 15 de agosto
Onde nasceu: Oliveira, Minas Gerais
Onde mora: São Paulo
Formação: Letras com pós-graduação em Teoria Literária
Um lugar: Oliveira, Minas Gerais, e Lisboa, Portugal
Time do coração: Flamengo
Alguém que admira: Machado de Assis, na Literatura, e Fernando Henrique Cardoso, na política
Um livro: O Idiota, de Fiódor Dostoiévski
Uma música: As rosas não falam, de Cartola
Um filme: Cidadão Kane (1941), de Orson Welles
O sr. acredita que os debates ainda influenciam o voto como aconteceu em outras eleições?
Sim. O debate continua sendo fundamental. Dependendo do cenário eleitoral, pode até definir uma eleição. Quando a diferença entre os candidatos é muito grande, o impacto tende a ser menor. Mas quando a disputa está equilibrada, o debate pode ser decisivo. Isso acontece porque existe uma parcela do eleitorado que ainda está indecisa ou que não está totalmente convencida da escolha que fez. É justamente esse grupo que costuma decidir o resultado de uma eleição. Além disso, o debate oferece algo que uma entrevista não oferece. Em uma entrevista, o candidato responde às perguntas do jornalista. No debate, ele sabe que suas respostas serão imediatamente confrontadas pelos adversários. Isso permite que o eleitor veja melhor como o candidato pensa, reage e defende suas posições.
O sr. acompanha as eleições há muitos anos. O que mais mudou nos debates políticos na TV desde os anos 1980 e 1990?
Mudou muito. Mudou tudo. Os debates são muito diferentes hoje do que eram antigamente. A Band realizou o primeiro debate presidencial da história do Brasil, em 1989, e eu acompanhei diretamente essa produção. Naquele momento, as regras eram mais flexíveis porque não havia experiência anterior com esse formato. Havia uma espontaneidade muito grande, já que estávamos construindo algo novo, com muitos candidatos dividindo o mesmo estúdio. Mas a importância daquele debate ia além da televisão. O Brasil estava saindo de um longo período de ditadura e, pela primeira vez, diferentes correntes ideológicas apareciam juntas diante do eleitor. Havia candidatos comunistas, liberais, social-democratas, representantes de diferentes visões políticas. Foi um momento muito importante para a democracia brasileira. Talvez tenha sido um dos momentos mais marcantes da minha vida profissional. Depois disso, os debates evoluíram, assim como evoluíram os meios de comunicação e a própria política brasileira.
Com o crescimento das redes sociais, o jornalismo político na televisão continuará forte ou o digital deve dominar esse espaço?
Hoje, o funcionamento dos debates é muito diferente do que era no passado. O primeiro debate de 1989 tinha começo, meio e fim em si mesmo. Depois ele era reproduzido pela imprensa e pelos próprios candidatos. Naquela época, a edição de um debate era algo fundamental e gerava longas discussões entre emissoras e partidos. Hoje isso não existe mais. Nos primeiros minutos, ele já está fragmentado e circulando por toda parte. As redes sociais recortam trechos, editam conteúdos e reproduzem aquilo que cada pessoa considera mais interessante. Essa fragmentação pode ser perigosa porque nem sempre apresenta o contexto completo. Cada um seleciona aquilo que quer mostrar. Por isso, o jornalismo profissional continua sendo essencial. Quem busca informação precisa recorrer a veículos que trabalhem com critérios e responsabilidade.
A polarização política no Brasil é algo passageiro ou veio para ficar?
Espero que passe, porque a polarização é um problema muito grave para a vida pública brasileira. Uma das suas consequências mais negativas é o empobrecimento do debate político. Em vez de discutir ideias, programas e soluções para os problemas do País, muitas vezes o foco passa a ser apenas o confronto e as agressões. Por isso o papel do jornalismo é tão importante. Cabe ao jornalista tentar recolocar os temas relevantes no centro da discussão e ir além da polarização, trazendo para o debate os problemas reais do Brasil e as possíveis soluções para eles.
Faz sentido discutir mudanças no funcionamento do STF(Supremo Tribunal Federal), como limites de mandato para ministros?
O Supremo é uma instituição fundamental para o funcionamento da democracia. Sem ele, o sistema não funciona. Isso não significa que não existam conflitos entre os poderes ou críticas a determinadas decisões. Há dúvidas e questionamentos sobre algumas atitudes de ministros e sobre mecanismos de funcionamento da Corte. Um exemplo são as decisões monocráticas, que considero exageradas. A legitimidade é muito maior quando as decisões são tomadas pelo plenário. Mas uma coisa é discutir aperfeiçoamentos. Outra é enfraquecer a instituição. Preservar e prestigiar o STF como instituição é algo básico para a democracia.
O sr. acredita que a democracia brasileira está forte?
Minha própria trajetória ajuda a responder essa pergunta. Como repórter, acompanhei momentos que antecederam o golpe de 1964 e vi de perto o enfraquecimento da democracia. Anos depois, acompanhei a campanha das Diretas Já e o processo de redemocratização. Também participei da cobertura dos debates presidenciais que ajudaram a consolidar esse processo. A democracia brasileira está aí e está consolidada, mas ela exige vigilância permanente. A história do Brasil mostra que não faltaram episódios de ataque às instituições democráticas. Nós precisamos da democracia, mas ela também precisa que a sociedade a proteja continuamente.
O Lula continua sendo uma figura forte politicamente, mas está envelhecendo. O sr. acha que a esquerda tem hoje algum nome com a mesma força nacional?
Com a mesma força, não. A maior força da esquerda brasileira continua sendo o Lula. Assim como o Bolsonaro é a maior força do outro lado. São as duas grandes forças políticas que continuam disputando espaço no País. Quando o Lula esteve fora da disputa, o candidato foi o (Fernando) Haddad. O PT não trabalhou intensamente para construir um sucessor do Lula, mas há alguns nomes fortes. Entre eles, o Haddad é provavelmente o mais citado.
E na direita ou no centro, existe hoje um nome realmente forte para 2026?
Quem tem voto é o Bolsonaro. Foi ele quem escolheu seus representantes políticos e continua sendo a principal referência desse campo político. Hoje o cenário ainda gira em torno do petismo e do antipetismo, do bolsonarismo e do antibolsonarismo. Essas continuam sendo as principais forças em disputa.
Nomes como Fernando Henrique Cardoso e José Serra fazem falta para a política brasileira?
É evidente que fazem falta. Fernando Henrique já está fora de combate político e Serra também está afastado. Tivemos um período importante de social-democracia no governo após o Plano Real. Fernando Henrique era um candidato improvável e acabou realizando um governo altamente positivo. Quando lançou a URV (Unidade Real de Valor – uma moeda virtual, cujo valor era atualizado diariamente para combater a hiperinflação), muita gente acreditava que seria apenas mais uma tentativa de enfrentar a inflação, mas o projeto foi brilhante e deu certo. Naquele momento, a inflação era talvez o principal problema do Brasil. Mas o País continua enfrentando muitos desafios. O mais importante é que a democracia prevaleça, que as eleições prevaleçam e que a vontade popular seja respeitada.
Por que o Brasil tem tanta dificuldade para renovar lideranças políticas?
Essa é uma questão complexa. As gerações vão se sucedendo e, muitas vezes, grandes lideranças surgem de forma inesperada. Fernando Henrique era professor universitário. Tornou-se ministro da Fazenda, lançou o Plano Real e pouco tempo depois era presidente da República. Ele próprio chamava isso de um “curto-circuito” da política. O mesmo aconteceu com Lula. Quem imaginaria que um líder sindical do (Grande) ABC, quando fundou o PT, se transformaria em uma das maiores lideranças políticas da história do País? A política tem muito disso. Às vezes, os grandes nomes aparecem quando ninguém espera.
Depois de tantos anos cobrindo política, o sr. está mais otimista ou mais pessimista com o futuro do Brasil? O que mais impede o País de crescer?
O Brasil tem um problema evidente de crescimento. Eu me lembro de quando (Richard) Nixon se encontrou com Mao Tsé-Tung. Naquele período, o PIB (Produto Interno Bruto) da China era menor do que o do Brasil. Basta comparar onde a China chegou e onde nós estamos hoje. O País precisa aprender a crescer. Precisa aumentar sua produtividade, reduzir entraves à geração de riqueza e criar condições para que o empreendedor possa produzir e investir. Também precisamos de políticas com continuidade e responsabilidade fiscal. O crescimento brasileiro continua sendo muito baixo e esse é um desafio central para o futuro.
O sr. se considera uma pessoa de direita ou de esquerda?
Não acredito muito nessa divisão. Acredito em valores. Talvez, se eu morasse em um país como a Suíça, me considerasse alguém de centro. Mas o Brasil é um País com enormes desigualdades sociais. Por isso, é impossível ignorar questões sociais. O País precisa de políticas eficientes de redistribuição de renda para enfrentar suas injustiças e melhorar as condições de vida da população.
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