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A IA como cabo eleitoral

Carol Guerini
01/07/2026 | 10:41
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Em 1965, Victor Nunes Leal publicou o clássico Coronelismo, Enxada e Voto, dissecando as entranhas do ‘voto de cabresto’ na Primeira República. Ali, o cabo eleitoral era uma figura de carne, osso e truculência, que controlava o cidadão pela dependência econômica ou coerção geográfica. 60 anos depois, o mandonismo local não usa mais botas de montaria. Para as eleições de 2026, o novo agente de persuasão opera no silêncio do feed: a Inteligência Artificial Generativa. 

A questão ultrapassa a mera delegação de tarefas cotidianas. Se a criação é uma dádiva humana, o dilema da escolha tornou-se o nosso castigo. De erro em erro, transferimos pequenas decisões diárias às máquinas e, sem perceber, permitimos que perfis aparentemente inofensivos atuem como novos coronéis digitais, alimentados por um algoritmo desenhado especificamente para sequestrar a economia da atenção. Entramos na era da manipulação psicométrica refinada, onde as diretrizes de moderação das grandes plataformas e os limites impostos pelos tribunais parecem tentar conter um transbordamento com as mãos. Enquanto o arcabouço normativo foca no combate às deepfakes, o verdadeiro perigo transita na sutil arquitetura de influência cotidiana. 

O exemplo pedagógico dessa mutação atende por avatares hiper-realistas, como o perfil da carismática ‘Dona Maria’. Criada por IA generativa, a persona simula a vizinha ideal: comenta a novela, compartilha receitas de bolo e, de forma homeopática, destila juízos de valor político com uma falsa isenção que desarma qualquer senso crítico. O eleitor não consome mais uma proposta de governo; ele absorve a visão de mundo de um robô programado para parecer seu amigo. 

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As plataformas formam bolhas enviesadas que asfixiam o processo decisório humano, o qual, para a livre formação do voto, necessita de ambientes plurais. Ao moldar preferências antes mesmo da definição das candidaturas, essas ferramentas transformam o cidadão em um consumidor passivo de realidades customizadas. O perigo pelo fator tempo e ausência de fiscalização estrita é muito maior no período pré-eleitoral do que nos 45 dias em que efetivamente ocorrem as campanhas oficiais. 

Gerenciar o próprio algoritmo e questionar a origem dos afetos digitais tornou-se o principal ato de legítima defesa democrática. Afinal, quem não cuidar das próprias interações nas redes correrá o sério risco de delegar a soberania do próprio voto a uma ferramenta sem ética, espírito ou liberdade. 

Carol Guerini é advogada, com atuação voltada à análise institucional, governabilidade e aos efeitos das decisões públicas na vida municipal.

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