Gerações Entre gestores da nova geração e líderes de famílias tradicionais, o desafio apontado é oferecer soluções inéditas para problemas antigos
FOTOS: André Henriques/DGABC e Claudinei Plaza/DGABC

O cenário político do Grande ABC combina tradição familiar e renovação geracional no comando dos Executivos municipais. Em cidades como São Caetano, o prefeito Tite Campanella (Republicanos) representa a continuidade de grupos políticos tradicionais, enquanto Santo André tem no prefeito Gilvan Ferreira (Cidadania) um dos exemplos mais jovens da região. Apesar das diferenças de perfil, os atuais chefes do Executivo na região têm idade média de cerca de 48 anos, em um contexto em que discursos de modernização e renovação convivem com estruturas políticas consolidadas e trajetórias de continuidade administrativa.
Para o cientista político Tunico Vieira, a discussão sobre renovação costuma ser mais simbólica do que estrutural. “Noventa e nove por cento das pessoas eleitas não pregam o que vão executar de acordo com o mandato”, afirma.
Na avaliação do especialista, a verdadeira renovação não passa apenas por uma troca geracional. “Deve ser discutida uma prática diferente para as mesmas políticas públicas”, pontua.
No campo do Executivo, Gilvan representa a narrativa de gestão jovem e digitalizada. Eleito aos 32 anos como o prefeito mais jovem da história de Santo André, construiu um discurso baseado na modernização administrativa. “Já crescemos conectados. Então, entendemos a tecnologia como uma ferramenta essencial de gestão para cortar burocracias e facilitar a vida do cidadão”, defende.
A tecnologia e as redes sociais são o motor dessa nova geração também no Legislativo. O vereador rio-grandense Léo Alves (PSDB), de 24 anos, destaca o uso de ferramentas criadas durante seu mandato para estreitar laços com os eleitores. “Criei o Gabinete Online para que qualquer cidadão pudesse entrar em contato comigo de forma mais fácil. Acredito que a minha geração traz mais proximidade e transparência.”
Além das telas, outros parlamentares destacam que a juventude traz um olhar pragmático para as dores antigas da região. O vereador de São Bernardo e presidente estadual do Cidadania, João Viana, eleito o mais jovem de sua cidade aos 24 anos, cita a mobilidade urbana como exemplo. “O que a gente traz, principalmente, é um novo olhar sobre tudo. Sei o que é a dor do jovem que estuda em São Paulo e trabalha em São Bernardo”, pontua.
Esse incômodo com o status quo regional também motivou Matheus Brizotto (PL), parlamentar de 29 anos de Ribeirão Pires. “Cresci ouvindo as pessoas chamarem Ribeirão Pires de cidade-dormitório. Sempre enxerguei um enorme potencial na cidade, ao mesmo tempo, me incomodava ver esse potencial ser pouco valorizado e aproveitado”, afirma.
Se parte da nova geração aposta na idade e na tecnologia como diferenciais, outros nomes mais novos preferem focar na entrega de resultados. Em Diadema, o prefeito Taka Yamauchi (MDB), que não vem de uma família com tradição política, mas já está disputando eleições desde 2012, avalia a questão por outra ótica. “Acredito que a renovação não deve ser medida pela idade ou pelo tempo de política, mas pela capacidade de apresentar soluções e gerar resultados para as pessoas”, afirma.
O prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani (PSB), que aos 41 anos é um dos prefeitos mais novos da região, reforça que o foco da gestão deve ser a eficiência. “Minha entrada na política nasceu do desejo de transformar a realidade da cidade onde cresci. A política, quando exercida com seriedade e compromisso, é a ferramenta mais poderosa para melhorar a vida das pessoas.”
A continuidade de sobrenomes tradicionais é outro traço forte na região. Em São Caetano, Tite Campanella vivencia essa realidade. De uma das famílias mais influentes da política local, reconhece que a herança traz grandes responsabilidades. “O sobrenome abre portas para o reconhecimento, mas não substitui o trabalho.”
Tite argumenta que a diferença para a geração familiar anterior passa pela adaptação às novas demandas: “Meu compromisso é governar olhando para o futuro, sem perder os valores que ajudaram a construir São Caetano, com forte foco em planejamento, inovação e transformação digital. A renovação não está necessariamente ligada ao sobrenome, mas às ideias”.
O vereador de Santo André Lucas Zacarias (PL), de 36 anos, tem raízes profundas na política local. Seu pai, Luiz Zacarias (PL), foi vice-prefeito de 2017 a 2024 e cumpriu cinco mandatos no Legislativo. “A renovação política independe de novos pares ou grupos. Está na capacidade de oxigenação das ideias”, sustenta.
O teste real sobre a renovação este ano, segundo Tunico Vieira, não estará na idade do RG ou no alcance digital. “As pautas sempre são as mesmas. Então, é necessário ter discussões eficientes para problemas antigos que não foram solucionados”, conclui.
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