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Valter Patriani: ‘Recalculamos a rota e vamos continuar a nossa história’

Nilton Valentim
22/06/2026 | 08:27
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FOTO: Claudinei Plaza/DGABC (imagem ilustrativa)
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC (imagem ilustrativa) Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


“Tem hora que o dono precisa voltar ao negócio.” É dessa forma que Valter Patriani justifica o retorno ao comando da construtura que fundou há 15 anos. Após um período de expansão agressiva, a empresa fechou 2025 com prejuízo na casa dos R$ 300 milhões e colocou o mercado em alerta. Patriani identificou o custo das obras, principalmente pela alta dos juros, como o principal gargalo a ser enfrentado. Com isso, a companhia está em fase de transição para atuar exclusivamente como incorporadora. Ou seja, vai elaborar projetos e vender os imóveis, mas contratará outras firmas para levantar os prédios. “A lição de casa, de estruturar a empresa, já foi 80% feita”, garante.

RAIO X

Nome: Valter Patriani

DGABC

Aniversário: 6 de janeiro

Onde nasceu: Novo Horizonte, Interior de São Paulo

Onde mora: Santo André

Formação: Ensino médio

Um lugar: Bariloche, Argentina 

Time do coração: Novorizontino

Alguém que admira: Steve Jobs, fundador da Apple

Um livro: Operação Cavalo de Troia, de J.J. Benitez

Uma música: Construção, de Chico Buarque

Um filme: Star Wars, “sou fã da série”.

Qual é a atual situação da Construtora Patriani?

A Patriani é uma empresa de 15 anos e tem origem no Grande ABC, com foco no médio e alto padrões. A ideia sempre foi ter plantas mais tecnológicas, disruptivas. A Patriani precisava entrar no mercado com alguma coisa diferente. Tanto que os primeiros prédios com vaga com tomada para carro elétrico, nós que fizemos. Começamos a pensar em imóveis que seriam modernos daqui a 20 anos. E sempre em boas localizações. E a Patriani começou a vender com boa velocidade. Nós tivemos um crescimento até maior do que muitas construtoras. No ano de 2021, mesmo com a Covid, nós vendemos 11 prédios. Mas se a venda foi boa, nós também tivemos muitos problemas para construir, a logística atrapalhou as margens da Patriani. Mas entregamos todos. Os prédios vendidos em 2021 foram entregues em 2024. A partir de 2023, os juros subiram de uma forma desproporcional, ninguém imaginava que nesta época estaria em torno de 15%. Isso inegavelmente atrapalha os negócios e também impactou a Patriani. Porque as vendas perderam velocidade. Então nós tivemos que dar uma recalculada na rota. E começamos a fazer isso no ano passado. Precisávamos pagar menos juros, renegociar melhor com fornecedores, porque tínhamos que entregar os prédios. E pegamos outras construtoras para continuar as obras. Porque o mais importante naquele momento era entregar os prédios. E aí a Patriani começou um processo de reestruturação, para encontrar o seu melhor caminho. Éramos construtora e também incorporadora. São duas atividades diferentes. Nesse novo cálculo de rota, decidimos não ser mais construtora. Tanto que a gente volta a lançar (empreendimentos) com boa velocidade a partir do ano que vem no Grande ABC. A lição de casa de estruturar a empresa já foi 80% feita. Agora, que está mais equilibrada, que acertamos os custos e fizemos os ajustes, vamos voltar a trabalhar. Este ano nós não lançamos nada. Tiramos a força dos lançamentos, estruturamos melhor a empresa. Agora, nos próximos projetos, a Patriani será uma incorporadora, ou seja, nós vamos vender, organizar, pensar bons projetos, mas na hora de construir, vamos chamar uma construtora parceira para fazer isso.

E como será essa nova linha de atuação da empresa?

A Patriani continuará com o seu time de planejamento de incorporação. Que é aquele que cria o produto, que estuda o mercado, que conversa com o cliente e vende. A gente vai lá, prospecta um terreno, aprovamos o projeto, lançamos e vendemos. Na hora de construir, será uma construtora que vamos contratar.

A Patriani fez demissões?

Quando a gente diz que saímos de 1.500 funcionários para 50, isso é mal interpretado. Esses funcionários continuam (trabalhando). Eles mudaram de empresa. As obras seguem. E, ao contrário, a Patriani neste momento contrata. Só que para as construtoras que estão assumindo as nossas obras. Não tivemos nenhum trabalhador desempregado.

Como visualiza o futuro da empresa?

No ano passado, tivemos que encarar o nosso problema: estávamos pagando muito juros e precisávamos arrumar a empresa. A Patriani precisava dar alguns passos para trás para poder dar muitos passos para frente. Então, a gente parou um pouquinho, se arrumou, está se ajustando, entregando as obras. Neste ano nós vamos entregar seis prédios. No ano que vem, vamos entregar mais seis. Toda vez que eu entrego um prédio, a dívida diminui. A Patriani está com R$ 300 milhões de prejuízo, mas é contábil. Existe até entregar o prédio. Nós vamos continuar sendo a Patriani de sempre. Arrojada, dinâmica, pensando muito em prédios tecnológicos e para a classe média. Não vamos mudar nosso destino. A gente vai continuar a nossa história. E eu acho que nós temos uma boa história! E 80% da reestruturação já foi feita. Agora eu me sinto mais confiante e 2027 será um ano especial para a Patriani.

Se pudesse olhar no rosto de cada cliente da Patriani, o que o sr. diria?

Eu diria que nós vamos entregar o imóvel que ele comprou e no prazo, porque os prédios estão bem ajustados.

O sr. avalia que a empresa cresceu rápido demais? Ou foi muito agressiva?

Eu acho que a gente foi agressivo, mas não sei se foi demais. Mas crescemos rápido. O crescimento da Patriani estava planejado. A Patriani não previu o aumento brutal dos juros. Em 2022, 2023, não havia essa previsão. Os juros brasileiros são muito altos e os negócios não suportam. Se você pegar o balanço das empresas, o pior problema é o custo da dívida. Se eu não tivesse crescido, teria menos problemas? Mas naquele momento não foi um ato irresponsável. Agora, você vai dizer, ‘mas você é ingênuo, você acreditou no Brasil?’ Eu acreditei no Brasil, sim. Mas não deveria ter acreditado? Não quero pensar assim, quero pensar que naquele momento nós tínhamos uma política, um governo estimulando as construções, o Brasil seguia bem, tínhamos uma ideia de economia, o Brasil crescia perto de 2,5%, mas aí teve um desequilíbrio nas contas públicas, o governo gastou mais do que o normal, os juros subiram, o mercado ficou difícil e a Patriani entrou nisso. Mas eu não queria dizer que foi um ato de ousadia, que foi um ato de crescimento. Naquele momento, a Patriani estava com boas oportunidades e tinha de seguir. Só que veio a crise dos juros e nos machucou.

Do ponto de vista prático, o que o sr. está fazendo para pôr a casa em ordem?

Fizemos uma redução grande de custos. O nosso custo maior estava nas obras, que é onde tínhamos um desequilíbrio. O custo de obra oscilou muito, o da mão de obra subiu muito para nós, começou a faltar funcionários, nós tivemos que pegar funcionários por um custo maior do que o previsto. Então, por isso, a principal arrumação da Patriani é que nós vamos contratar alguém que faça isso bem (construir). A nossa especialidade é vender bem, e nós tínhamos uma construtora. Mas a Patriani construía só para ela. Nós vamos tentar pegar construtoras que constroem para todos no mercado e que tenham um ganho de escala melhor. Eu vendia bem, tinha bons produtos, construía bem até então, só que o custo da obra estava saindo do orçamento. O que vamos fazer daqui para frente é continuar construindo, mas deixando essa tarefa para alguém com mais experiência.

Existe alguma possibilidade de a Patriani pedir recuperação judicial?

Não. Desde o ano passado, quando a Patriani anunciou a reestruturação, o mercado falou sempre que poderia ter uma RJ (Recuperação Judicial), e desde lá nós estamos desmentindo. Era uma possibilidade na época, mas nós achamos que tínhamos de fazer a lição de casa e também proteger os clientes. Tínhamos que entregar os prédios. A Patriani era uma empresa com CEO, tinha presidente contratado. Os nossos executivos eram muito profissionais, mas não deu certo. O nosso presidente acabou não conduzindo a companhia do jeito que queremos, e a hora em que a Patriani teve que fazer a sua estruturação, eu preferi assumir a companhia diretamente. Tem hora que o dono precisa voltar ao negócio.

Na prática, o que muda com o sr. à frente do negócio?

O que muda é que a visão do dono é sempre mais conservadora. Porque o executivo, ele executa e o dono olha para o futuro. Eu precisava olhar, precisava que o dono moldasse o futuro da Patriani. Eu precisava saber qual era a escolha da Patriani para o futuro. Então, quando eu assumi a companhia, tirando o executivo profissional, eu percebi qual era o nosso maior problema: obras. No futuro, podemos até voltar a ser uma construtora. Mas, nesse momento, o foco é ser uma incorporadora tec-nológica, que tem produtos admirados, que os clientes gostam, e podemos pedir para outras construtoras grandes fazerem esse trabalho para nós.

Como o sr. vê o Grande ABC e como imagina o futuro da região?

É uma terra de oportunidades. Eu sou bairrista, porque, como eu sou do (Grande) ABC, acho que a qualidade de vida é melhor do que em São Paulo. Tudo aqui é mais perto, é mais fácil. As burocracias são menores e o acesso à comunidade é maior. E são cidades muito grandes. Santo André está próximo de 800 mil habitantes, São Bernardo, de 850 mil. (A região) tem um poder econômico extraordinário. Hoje, nós estamos experimentando uma migração de pessoas, porque a cada dia também tem mais empregos no Grande ABC. Por isso, a cada dia também as pessoas estão precisando sair menos para trabalhar em São Paulo. A Patriani continuará a investir e se volta ainda mais para o Grande ABC nesta retomada.

A Patriani tem 20 empreendimentos em construção. Qual a previsão de entrega e quantos são no Grande ABC?

Praticamente todos estão em obras, e até o fim de 2027, nós vamos entregar 16. Vão ficar quatro para 2028. Temos a maior obra civil do (Grande) ABC, são seis torres no Nova Petrópolis (em São Bernardo), o projeto da (Avenida) Kennedy, também em São Bernardo, o da (Avenida) Industrial, em Santo André. E em São Caetano, nós temos dois para entregar entre o fim deste ano e o começo do outro.

Ano passado circulou um vídeo que mostra o sr. sendo vítima de um arrastão, próximo de uma obra. Aquele foi o momento mais complicado da sua vida?

Não, não foi. Eu já tinha tido outros assaltos na vida. Já tinha tido outras experiências muito desagradáveis. Claro que fiquei muito assustado. Foi um fato que me marcou, porque me deu a impressão de um sequestro. O jeito que eles me fecharam na rua. Sabe a sensação que tive? Que seria sequestrado. Eu diria que, nos tempos recentes, foi o que mais me chateou. Agora, essa travessia da Patriani também tem sido uma experiência muito forte, só que de uma forma diferente.

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