Entrevista da semana
FOTO: André Henriques/DGABC

Promovido ao posto de coronel da Polícia Militar, Fernando Carvalho Ricardo assumiu oficialmente o CPA/M-6 (Comando de Policiamento de Área Metropolitana 6), responsável pelo policiamento dos sete municípios. A nomeação, efetivada em 29 de maio, consolidou a trajetória de um oficial que construiu a carreira na região. Ricardo passa a liderar cerca de 3.000 policiais militares.
Entre as prioridades anunciadas para a nova gestão estão a melhoria da infraestrutura dos quartéis, o fortalecimento do atendimento às ocorrências de violência doméstica e uma atuação pautada pela transparência.
RAIO X
Nome: Fernando Carvalho Ricardo
Aniversário: 21 de junho
Onde nasceu: Santo André
Onde mora: São Bernardo
Formação: Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública e Engenharia Civil
Um lugar: Grande ABC
Time do coração:São Paulo
Alguém que admira:Ozires Silva, engenheiro aeronáutico brasileiro
Um livro: Código Da Vinci, de Dan Brown
Uma música: We are the champions, por Queen
Um filme: A Vida é Bela (1997), de Roberto Benigni
O sr. acaba de ser promovido ao posto de coronel e comandante do CPA/M-6. O que esse momento representa em uma carreira dedicada à Polícia Militar?
Representa o coroamento da carreira, mas um coroamento parcial. Porque ainda há muito a ser feito. Quando falo em coroamento, pode parecer que está tudo concluído, que não há mais nada a fazer. Muito pelo contrário. É um clichê do Homem-Aranha: ‘com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’. É um clichê, mas uma grande verdade. Sentar nesta cadeira de comandante me traz três vezes mais responsabilidade do que eu tinha no 6º Batalhão. Lá eu tinha quase 1.000 policiais sob meu comando. Aqui (CPA/M-6), são cerca de 3.000. Compromisso, trabalho, dedicação e empenho são palavras que precisamos colocar em prática para conduzir a Polícia Militar de maneira correta, dentro da legalidade. ‘Bandido bom é bandido morto.’ Eu não concordo com isso. Não pode ser assim. Essa não é a solução para os nossos problemas. Pode até parecer uma solução imediatista, mas não trará uma solução perene.
Qual a solução?
O que precisamos para melhorar a segurança pública é de polícia nas ruas, atuando com protocolos rígidos e com câmeras corporais. Em um momento subsequente, precisamos de uma legislação adequada, firme contra a criminalidade, e de um sistema que permita a ressocialização dos criminosos. A reincidência é um problema gravíssimo. Eu prendo, prendo, prendo, o indivíduo sai e continuo prendendo. Ficamos nesse círculo vicioso em que as pessoas se sentem mais inseguras do que nunca.
Como começou sua trajetória na Polícia Militar?
Comecei minha trajetória em 1996, na Academia do Barro Branco. Ingressei em janeiro daquele ano e, após concluir a formação, cheguei ao CPA/M-6 como aspirante, em 1999. Foram quatro anos de formação. Depois de me formar, fui recebido pelo coronel Nogueira e designado para o 6º Batalhão, em São Bernardo. Em 2005, fui para a Casa Militar, onde trabalhei na Defesa Civil. Tenho formação em Engenharia Civil, concluída aqui no Grande ABC, e isso contribuiu para minha atuação naquele período. Após a passagem pela Casa Militar, trabalhei durante um ano no 2º Batalhão de Choque, unidade responsável pelo policiamento em eventos. Atuamos em grandes shows, partidas de futebol do Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro, Libertadores e diversas outras competições realizadas em São Paulo. Quando fui promovido a capitão, fui classificado em Diadema. Trabalhei na cidade durante dois anos, em 2014 e 2015. Aproveito para destacar que, apesar dos desafios encontrados em Diadema, o 24º Batalhão é uma unidade de primeira linha. Lá encontrei profissionais incríveis, que se dedicam diariamente à segurança da população. Como minha origem profissional estava em São Bernardo e eu havia iniciado minha carreira na cidade, retornei ao 6º Batalhão em 2016, durante a gestão do coronel Faro. Permaneci lá por dez anos, de 2016 a 2026, até ser promovido ao posto atual.</CW>
O sr. construiu praticamente toda a sua carreira no Grande ABC. O quanto esse conhecimento do território e das características das cidades auxilia agora no comando do CPA/M-6?
Eu pertenço ao Grande ABC. É um pertencimento total. Esse conhecimento auxilia muito no trabalho, mas também traz, mais uma vez, uma responsabilidade maior. Afinal de contas, se eu conheço tão bem o Grande ABC e trabalhei tantos anos aqui, como não encontrar soluções? Por isso, esse histórico me traz uma obrigação ainda maior de fazer uma boa gestão, porque, no fim das contas, eu não tenho o direito de dizer que não conheço a região. Talvez alguém que chegasse agora pudesse alegar desconhecimento sobre determinadas questões. Eu não posso. Se acontecer algo de errado e vierem me questionar – e esse é o papel da imprensa livre, séria e imparcial, que é um dos pilares da democracia –, não poderei usar esse argumento. Portanto, o conhecimento da área e do território não apenas ajuda na gestão, mas também aumenta a responsabilidade que eu tenho diante da população.
Quais características diferenciam o Grande ABC de outras regiões?
Um dos principais aspectos que diferenciam o Grande ABC é a grande circulação de pessoas e a presença de importantes corredores viários. Temos o Sistema Anchieta-Imigrantes, o Rodoanel e a Avenida dos Estados, que atravessa a região e, em muitos trechos, possui características de rodovia intermunicipal. A Avenida dos Estados, por exemplo, conecta municípios do Grande ABC e também atende uma parcela significativa de moradores da Zona Leste da Capital. Ela funciona como uma importante via de ligação regional, recebendo diariamente um grande fluxo de veículos e pessoas que muitas vezes estão apenas de passagem pela região. Essas características criam uma dinâmica própria para o policiamento, porque os problemas de segurança pública não respeitam limites administrativos. Somado a isso, o Grande ABC possui uma condição socioeconômica diferenciada e um Produto Interno Bruto bastante relevante. Isso acaba despertando o interesse de criminosos que vêm à região para praticar, principalmente, crimes patrimoniais.
Diante dessas características, como a Polícia Militar atua para reduzir os índices de criminalidade e direcionar o policiamento para as áreas mais vulneráveis?
É muito importante que as pessoas registrem os crimes. Os Boletins de Ocorrência têm um papel fundamental para o trabalho policial. Quando são bem elaborados e indicam com precisão o local onde o crime aconteceu, eles nos permitem planejar melhor o policiamento e reforçar as regiões mais afetadas. A criminalidade segue determinados padrões e, quando esses dados são analisados de forma adequada, conseguimos desenvolver ações preventivas para evitar que novos crimes ocorram naquela área. Por isso, eu digo que é necessário entender que registrar um Boletim de Ocorrência é, acima de tudo, um ato de cidadania. A partir desses registros, identificamos os chamados pontos quentes da criminalidade, os hotspots, locais onde há concentração de ocorrências. Com essas informações, podemos reforçar o policiamento e direcionar recursos para impedir que esses crimes continuem acontecendo. Portanto, a combinação entre grande circulação de pessoas, importantes eixos viários, divisas complexas e relevância econômica faz com que o Grande ABC tenha características muito particulares do ponto de vista da segurança pública
Quais são os principais desafios e objetivos que o sr. estabeleceu para a sua gestão?
Eu destaco três prioridades para a minha gestão. A primeira é melhorar as instalações da Polícia Militar no Grande ABC. Temos quartéis que precisam de investimentos e melhores condições de trabalho. Pode parecer uma questão interna, mas ela impacta diretamente o atendimento à população. Um policial que encontra um ambiente adequado para trabalhar tem mais condições de prestar um serviço de qualidade. O segundo objetivo é aumentar a quantidade de viaturas nas ruas. Não estou falando necessariamente da compra de novos veículos, mas de recuperar e colocar em operação viaturas que hoje estão paradas por questões mecânicas, administrativas ou financeiras. A meta é ampliar a presença policial e otimizar os recursos já existentes. A terceira prioridade é fortalecer o atendimento às ocorrências de violência doméstica. Essa é uma diretriz da comandante-geral da PM, Glauce Anselmo Cavalli, e uma pauta que exige atenção especial. Estamos falando de casos de agressão contra mulheres e outras situações de vulnerabilidade que demandam resposta rápida e qualificada da Polícia Militar. Além desses três pontos, também manter uma gestão pautada pela transparência. A população tem o direito de saber tanto sobre os acertos quanto sobre os erros da instituição. Quando houver falhas, elas serão reconhecidas e tratadas com seriedade, seja por meio de treinamento, correção de procedimentos ou responsabilização, quando necessário.
Pela primeira vez em quase 200 anos de história, a Polícia Militar de São Paulo é comandada por uma mulher. No Grande ABC, também tivemos recentemente a tenente-coronel Viviane à frente do 24º Batalhão em Diadema. Há um movimento dentro da corporação para ampliar a presença feminina em cargos de comando?
Sim, esse é um tema que está sendo discutido e amadurecido dentro da instituição. Estamos avaliando possibilidades e estudando algumas condições relacionadas a esse processo. Acredito que, nos próximos dias, poderemos ter novidades para o Grande ABC. Neste momento, não posso antecipar nenhuma informação porque as decisões dependem da comandante-geral, mas nos próximos dias acredito que teremos novidades no Grande ABC.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.