Política Titulo Resistência

Cultura urbana ocupa espaço político entre a juventude do Grande ABC

Crescimento de investimento público e de movimentos periféricos colocam hip hop e coletivos no centro do debate regional

Felipe Delmondes
Especial para o Diário
24/05/2026 | 08:37
Compartilhar notícia
FOTO: Isadora Schmitt/Divulgação
FOTO: Isadora Schmitt/Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Especialistas e políticos apontam que o hip hop e os movimentos de rua se consolidaram como espaços de formação crítica fora da política tradicional. Enquanto jovens criticam a aproximação de parlamentares apenas em períodos eleitorais para co-optação de votos, as batalhas de rima expandem sua atuação além de praças e pistas de skate do Grande ABC. Recentemente, a cena cultural periférica consolidou sua influência direta na construção da opinião da nova geração regional sobre desigualdade social, identidade e pertencimento coletivo.

De olho nesse movimento, as prefeituras têm ampliado o investimento em cultura. Em Mauá, os recursos da Secretaria de Cultura saltaram de R$ 8,9 milhões em 2022 para R$ 19,7 milhões em 2025. Diadema acompanha a tendência com a projeção de R$ 22,3 milhões para a Pasta em 2026. Já Ribeirão Pires registrou R$ 818,8 mil em investimentos diretos ao longo de 2024, valor somado a R$ 1 milhão captado via Lei Paulo Gustavo para o financiamento de 51 projetos locais. 

As prefeituras afirmam ainda ter ampliado políticas voltadas à descentralização territorial, fortalecimento de coletivos culturais e incentivo às expressões artísticas urbanas. Entre as ações citadas estão rodas de improviso, saraus, oficinas, editais culturais, eventos ligados ao hip hop, graffiti e apoio a coletivos independentes. 

DGABC

Em Santo André, a Prefeitura destacou iniciativas como o Mês do Hip Hop, o projeto Polifonia Urbana e editais com pontuação adicional para projetos ligados a territórios periféricos. Ribeirão Pires informou que os editais vêm sendo construídos com participação de agentes culturais e coletivos locais por meio de consultas públicas e escutas com a comunidade artística.

Para o professor de filosofia da UFABC (Universidade Federal do ABC) Hugo Allan Matos, a aproximação entre cultura e debate público é inevitável dentro das periferias urbanas. “Não há separação entre cultura e política. Manifestações culturais periféricas historicamente funcionam como ambientes de socialização, organização coletiva e circulação de consciência crítica entre moradores mais novos.”

Allan avalia que o fortalecimento da produção cultural das periferias ampliou o acesso da população jovem a debates sociais e institucionais fora das estruturas formais. “A cultura, quando se populariza, garante um acesso que o Estado não o faz. Parte dessa geração (de jovens) passou a se reconhecer socialmente também por meio da arte produzida nas ruas e periferias.”

LEIA TAMBÉM:

Brasil não é menor nem menos competitivo do que ninguém, diz Lula

Destaque entre as lideranças jovens da política brasileira, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) aponta a cultura pop e a internet como influências determinantes em sua trajetória pública. O parlamentar afirma que a direita passou a ocupar espaços digitais e de linguagem jovem antes dominados por setores progressistas. “A juventude se afastou da política tradicional porque ela se tornou artificial, burocrática e distante da realidade”, declara.

Segundo Kataguiri, criadores independentes e influenciadores passaram a dialogar de maneira mais eficiente com os jovens do que partidos e estruturas tradicionais. O parlamentar também critica o uso ideológico de eventos culturais financiados pelo poder público e defende políticas culturais sem direcionamento partidário.

Já o vereador de São Bernardo Ananias Andrade (PT) avalia que a cultura periférica ocupa hoje um papel central na formação crítica da juventude justamente por funcionar como ambiente de expressão coletiva e construção de identidade. “A maior fronteira em disputa no mundo é a cultura. Quem domina a cultura domina o sujeito”, pontua.

O professor de direito e sociologia da Universidade São Judas Irineu Bagnariolli afirma que manifestações culturais periféricas passaram a ocupar também um papel de pertencimento, identidade territorial e discussão social entre moradores mais novos da região. Para o docente, transformações urbanas e econômicas alteraram as formas tradicionais de participação institucional no Grande ABC. “Rap, hip hop, slam e trap passaram a funcionar também como ambientes de expressão social e identidade territorial”, destaca.

Para o professor, o crescimento institucional dessas manifestações ainda convive com dificuldades estruturais de financiamento e continuidade. “Muitas iniciativas culturais periféricas acabam dependendo de mecanismos pontuais de financiamento, o que dificulta planejamento de longo prazo e consolidação dessas ações como políticas permanentes”, diz.

A influência da cultura urbana sobre a nova geração também passou a mobilizar diferentes campos ideológicos. A vereadora de São Caetano Bruna Biondi (Psol) afirma que batalhas de rima e saraus funcionam como ambientes de resistência e convivência coletiva nas periferias. “Nas batalhas se encontra uma cultura de paz.” 

O crescimento das rodas culturais e saraus acompanha também um cenário de afastamento da população jovem da política institucional tradicional, fenômeno apontado por pesquisadores e percebido pelos próprios frequentadores da cena cultural regional. Morador de São Caetano, Henrique Carlos Castilho Mangueira, de 20 anos, afirma que boa parte da formação crítica dessa geração acontece através da música, do convívio social e da arte consumida diariamente. “Todo mundo toma partido de uma ideia a partir do convívio e da cultura que consome”, afirma.

Mangueira avalia que o rap ainda ocupa um papel importante de crítica social entre o público jovem, principalmente quando comparado à política institucional. “Hoje a realidade do jovem está muito mais inserida no hip hop do que numa pauta política em discussão”, diz. Segundo ele, estilos mais comerciais da música também acabam influenciando comportamentos ligados ao consumo e à ostentação. “O jovem vê uma vida de luxo e começa a sentir que a própria realidade vale menos.”

A percepção aparece também entre frequentadores da cena cultural das sete cidades. O estagiário em comunicação Carlos Eduardo Barbosa, de 20 anos, morador de São Bernardo, afirma que a música, as redes sociais e os eventos culturais periféricos influenciaram seu interesse por debate público e ajudaram a moldar posicionamentos e opiniões entre pessoas dessa faixa etária. Segundo ele, batalhas de rima e saraus também funcionam como pontos de encontro capazes de afastar adolescentes da violência.

Carlos ainda critica a aproximação de políticos com os movimentos urbanos apenas em períodos eleitorais. “Esses interesses deveriam ser discutidos em outros momentos e com pautas mais profundas”, diz.

Para o rapper e artista andreense Lucas Mokai, o hip hop se tornou um ambiente de acolhimento, identidade e discussão social para moradores das periferias. “O jovem chega naquele lugar e consegue participar. Isso dá pertencimento”, afirma. Para Mokai, o caráter político do movimento está ligado diretamente às experiências vividas nas periferias. “O hip hop nasceu das mãos da juventude, de uma juventude que precisava se reunir e se expressar”, afirma.

O artista visual e produtor cultural de São Bernardo Renê Muniz afirma que a própria origem da cultura urbana já carrega um componente ligado à ocupação de territórios e à resistência periférica. “A manifestação da arte urbana nasce até contra uma repressão. Então ela já nasce nesse cunho político”, afirma.

Segundo Renê, o Grande ABC se consolidou nos últimos anos como um dos principais polos de produção artística periférica do Estado, principalmente através de rodas de improviso, saraus, graffiti e coletivos independentes espalhados pelas sete cidades. “A região é um celeiro, produz muito, porém a gente ainda não tem muitos equipamentos para mostrar isso aqui”, diz.

Questionadas, as prefeituras de São Bernardo, São Caetano e Rio Grande da Serra não retornaram até o fechamento da reportagem.





Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;