Longevidade Com aumento da expectativa de vida, mercado se renova com empresários que usam maturidade para construir marcas consistentes
Celso Luiz/DGABC

O avanço da população com mais de 50 anos tem redesenhado o perfil do empreendedorismo no Grande ABC, que está alinhado à tendência nacional. No Brasil, a economia prateada – conjunto de atividades econômicas que envolvem esse grupo – inclui 4,5 milhões de pessoas. O número cresceu 58,6% na última década, de acordo com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) Nacional.
A readequação do mercado ocorre em um contexto em que a expectativa de vida aumentou de 62 anos, em 1980, para 76 anos, em 2023. Na região, embora 50 mil empresas atuem com esse público, muitas ainda não se reconhecem como parte desse segmento, o que limita o aproveitamento de oportunidades.
Na prática, o empreendedorismo depois dos 50 anos se mostra em histórias de pessoas que se reinventaram e decidiram encarar novos desafios. É o caso da Carla Cássia da Silva Gonçalves, 56 anos, moradora do Jardim Borborema, em São Bernardo, que transformou hobby em renda durante a pandemia e hoje comanda a Farfalla Blu Aromas, loja de aromatizadores de ambiente e velas aromáticas.
“Depois dos 50, muita gente acha que você tem que ficar em casa, assistindo novela. Mas não é assim. Eu comecei a empreender nessa idade e continuo trabalhando, aprendendo e fazendo o que gosto”, conta. Hoje, ela concilia o negócio com o trabalho no setor audiovisual e chega a trabalhar até 18 horas por dia.
Apesar da realização pessoal, Carla reconhece obstáculos, principalmente na adaptação às novas ferramentas digitais. “Essa parte de tecnologia é a maior questão. Já postei coisa repetida, erro bastante, mas vou aprendendo”. A experiência de vida, no entanto, aparece como diferencial. “A maturidade traz outro olhar. A gente faz com mais cuidado, mais calma.”
Segundo a analista de negócios do Sebrae-SP Gracielle Alves, esse diferencial no perfil pode ser uma vantagem competitiva. “Eles têm menos pressa por resultado imediato. Trabalham com mais cautela, mais persistência e mais cuidado na entrega. Enquanto os mais jovens buscam retorno rápido, o empreendedor mais experiente tende a construir negócios mais sólidos, com foco na qualidade e na consistência.”
O etarismo – a discriminação contra os mais velhos – também pode se colocar como um entrave durante a jornada. “Muitas vezes é o próprio empreendedor que se limita por achar que não consegue mais aprender ou competir”, diz.
Se para alguns o empreendedorismo surge como complemento de renda, para outros vira atividade principal. É o caso de Said Elia Shehady, 71, dono da Papelaria Papagaio Verde, no Centro de Ribeirão Pires. Após trabalhar por décadas com TI (Tecnologia da Informação), ele viu no comércio uma oportunidade de mudar de vida aos 48 anos.
A decisão de sair do setor veio com o avanço da idade e o ritmo acelerado da área. “Chega um ponto em que você precisa se atualizar o tempo todo. As coisas mudam diariamente. Depois de certa idade, quando uma nova oportunidade surge, é necessário aproveitar”, explica.
Mesmo fora da TI, ele afirma que a tecnologia passou a dominar o dia a dia do negócio e exigiu adaptação. “Hoje, 90% do nosso trabalho é no WhatsApp. Antes era tudo mais simples, agora tem muita modernização”, conta. Para acompanhar as mudanças, ele trouxe o filho para a operação. “Ele cuida dessa parte. Todos se ajustam juntos”, diz, ao destacar que o uso de ferramentas digitais se tornou essencial para manter o negócio competitivo.
De acordo com pesquisa da GEM (Global Entrepreneurship Monitor), feita pelo Sebrae e a Anegepe (Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo). os donos de pequenos negócios com idade entre 65 e 74 anos empreendem mais por oportunidade do que por necessidade no Brasil, como é o caso de Said Shehady.
Hoje, a papelaria conta com 18 funcionários e se tornou sua principal fonte de renda. O empresário destaca que a mudança também trouxe ganhos na qualidade de vida, com uma rotina mais próxima de casa e maior autonomia. “Melhorou muito minha vida. Trabalho perto, consigo almoçar em casa e criei uma clientela fiel”, afirma.
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