Dia Nacional de Combate ao Abuso Em 2025, foram 444 queixas envolvendo crianças e adolescentes, aumento de 20% em comparação com 2024, com 370 ocorrências
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O número de denúncias de violação sexual contra crianças e adolescentes nas sete cidades do Grande ABC cresceu 20% em um ano. Em 2025, foram registradas 444 queixas no Disque 100, plataforma de notificações do governo federal, ante 370 em 2024. Somente neste ano, de janeiro a abril, foram contabilizadas 103 ocorrências. Nesta segunda-feira (18) é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
A gerente técnica institucional do instituto Ficar de Bem, Lígia Vezzaro Caravieri, organização que atua no Grande ABC, afirma que o aumento das denúncias está relacionado à maior conscientização da população sobre o abuso e à capacidade de identificar esse tipo de violência.
“A escola tem papel fundamental neste processo, visto que a maior parte das violências ocorre no ambiente familiar. O vínculo criado com o professor pode incentivar a criança ou o adolescente a fazer um relato espontâneo. Por isso, é fundamental que esses profissionais recebam formação adequada. A educação sexual não deve ser voltada apenas aos pais e familiares.”
R.N, 39 anos, moradora de São Bernardo, sofreu abusos do padrasto dos 10 aos 14, quando decidiu pedir ajuda. “Fugi de casa e minha mãe continuou com ele, que nos ameaçava muito, falava que ia nos matar, chegou a me dar facadas. Fiquei tão desesperada que fui um dia à delegacia. Passei pela promotora e por uma psicóloga, mas parecia que elas achavam que estava mentindo. Minha avó conseguiu a guarda e acabei nunca procurando ajuda psicológica”, conta.
Atualmente, com três filhos, a vítima sofre com crises de ansiedade e evita sair de casa. “Tenho pânico de encontrá-lo. Tinha medo de ter uma filha, mas acabei tendo uma e ainda o vi na rua quando estava grávida dela. Cheguei a pedir as contas do meu trabalho porque o encontrei lá perto. Tudo o que me lembra esse homem me trava. Tenho inclusive dificuldade de me relacionar por medo de colocar minha família em risco”, compartilha.
A psicóloga e professora da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), em São Bernardo, Angelica Capelari, afirma que essas consequências são comuns em pessoas com histórico de abuso na infância.
“O trauma pode reverberar por toda a vida, dependendo da duração e natureza do abuso, quem praticou e a forma de acolhimento após a experiência. Em geral, um dos impactos é a dificuldade de estabelecer relações socioafetivas, além de uma maior probabilidade de baixa valorização e crises de depressão. É importante buscar atendimento psicoterápico e até psiquiátrico para que possa proporcionar melhor qualidade de vida”, orienta.
No fim do mês passado, um caso ganhou repercussão e causou comoção em todo País. Dois garotos, de 7 e 10 anos, foram vítimas de estupro coletivo na Zona Leste da Capital. Os criminosos eram pessoas de confiança, que chamaram as crianças para empinar pipa. A violência foi filmada e o material amplamente divulgado na internet. Os suspeitos, um adulto e três adolescentes, foram identificados e detidos.
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Sinais
A advogada criminal e docente da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Patrícia Maria Villa Lhacer, destaca a importância de observar sinais de violência física, como hematomas, arranhões ou queimaduras, e mudanças comportamentais, como medo excessivo, tristeza, isolamento social e queda brusca no rendimento escolar sem justificativa.
As denúncias podem ser realizadas pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia, nos conselhos tutelares, no Ministério Público e no 190 da Polícia Militar. “Procure reunir os principais dados da ocorrência, como nome dos envolvidos e endereço. E o maior número de provas possíveis, entre elas filmagens e prints de conversas, além de buscar testemunhas”, aconselha.
Mães e pais correspondem a 38% dos autores de abuso
As mães foram apontadas como autoras do abuso em 104 (23,4%) das denúncias do Disque 100. Já os pais são responsáveis por 64 dos casos (14,4%), enquanto padrastos ou madrastas representam 52 (11,7%) e outros familiares são 61 (13,7%) das queixas. O restante das violações foi cometido por grupos diversos, como amigos da família, vizinhos e professores.
Entre as vítimas, 286 são meninas, 100 meninos e em 58 casos não foi identificado o gênero da criança ou adolescente. Bebês de até 1 ano aparecem em seis ocorrências. Crianças de 2 a 5 anos representam 49 das notificações e entre 6 e 11, são 126. Adolescentes representam 45,5% do total. De 12 a 15 anos foram 149 casos e de 16 a 19 totalizam 53.
No ano passado, a instituição Ficar de Bem acolheu 151 crianças e adolescentes que sofreram abuso sexual. Desse total, 109 (72%) são do gênero feminino e 42 (28%) do sexo masculino.
Em relação à idade, até 6 anos foram 27 casos (18%), de 7 a 11 anos 45 (30%) e de 12 a 17 anos 79 (52%). Os autores são, em sua maioria (70%), homens, com 63 denúncias, e 27 mulheres (30%), sendo mães responsáveis por 22 (24%) ocorrências de violação (26%), pai 23 (26%) e padrasto 12 (13%).
“É importante também desmistificar que o agressor é somente homens, apesar de ser maioria. Mulheres também abusam, assim como meninos são abusados”, acrescenta a gerente técnica institucional do instituto, Lígia Vezzaro Caravieri.
Com sede em Santo André e com outras cinco unidades na região, sendo três em São Bernardo e duas em Mauá, a instituição Ficar de Bem possui parceria com as prefeituras de Santo André, São Bernardo e Diadema para o acolhimento de vítimas de violência doméstica.
Além de abrigar as crianças e adolescentes, a entidade promove ações preventivas por meio de palestras e educação sexual infantil em comunidades e escolas, orientando pais, educadores e toda a sociedade sobre como identificar uma vítima.
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