Depois Delas Atais de Souza Costa, de São Bernardo, deixou três filhos, de 10, 13 e 21 anos, que terão suporte das tias
Silvia e Sandra de Souza Costa relembram momentos felizes em família e lamentam perda da irmã FOTO: André Henriques/DGABC

A história de uma família unida, marcada por uma tragédia inesperada, ganhou um futuro incerto que precisa começar a ser redesenhado em meio à dor da separação. Há nove dias, a ajudante de cozinha Atais de Souza Costa, 39 anos, foi morta em São Bernardo pelo marido, o caminhoneiro Sidnei Rosa Lopes 52, que em seguida fugiu, mas posteriormente foi encontrado sem vida na Represa Billings.
O casal, junto há 17 anos, deixou dois filhos, Jonathan Souza Lopes, 10, e Laura Souza Lopes, 13, além da promotora de vendas Brenda Maria de Jesus, 21, filha de um relacionamento anterior de Atais.
As irmãs da vítima de feminicídio, a promotora de vendas Silvia de Souza Costa, 33, e a dona de casa Sandra de Souza Costa, 45, que moram em Diadema, na divisa com o município são-bernardense, sentem a responsabilidade de suprir a presença da figura materna. “As crianças ficaram órfãs de mãe e pai”, ressalta Sandra.
A primogênita ainda tenta processar o repentino e traumático rompimento com a mãe, enquanto planeja seus próximos passos. “Agora, sem ela, vou cuidar dos meus irmãos. Vou trabalhar, tirar minha carteira de motorista para poder levá-los ao médico, dar acompanhamento psicológico e o que eles precisarem”, relata Brenda.
A jovem, que está morando temporariamente na casa das tias, pretende voltar para a residência da família, onde tudo aconteceu, no bairro Cooperativa, para viver com os irmãos, que no momento estão com a avó paterna. “As crianças também querem. Eles disseram que vão manter o quarto da mãe fechado do jeito que está por enquanto, mas também existe a possibilidade de alugarem um outro lugar que não tenha essas lembranças”, conta Sandra.
Silvia, que morou por anos com o casal e acompanhou o crescimento dos sobrinhos, diz que, mesmo que a filha mais velha de Atais queira assumir este compromisso, sempre vai estar por perto. “A Brenda está sendo forte, mas ainda é muito jovem, tem que sair e se divertir, então sempre que precisar eu vou lá dormir com as crianças”, garante a promotora de vendas. “A gente vai assumir o lugar da Atais, eles não têm mais a mãe e o pai. Antes aqui éramos três e agora somos só nós duas”, ressalta Sandra.
Os demais irmãos, de um total de dez filhos, moram na Bahia, onde também reside a mãe, Maria Ribeiro, 66. “Ela não pode acompanhar o velório e enterro pela distância, mas desmaiou quando soube da morte da filha. Agora ela está bem, sendo muito forte, mas acho que ainda não caiu a ficha. É uma tristeza muito grande tudo isso, parece que vou acordar de um pesadelo”, descreve Sandra.
As irmãs lamentam a perda de sentido das celebrações em família. “Não somente o Dia das Mães, mas todas as festas, como Natal e Ano Novo, porque as celebrações eram realizadas na casa da Atais”, lembra Silvia. LEMBRANÇAS Há dois meses, em uma festa em família, Sandra conta que insistiu para tirar uma foto com todos os familiares reunidos. “Consegui fazer o registro, mas não imaginava que seria o último. Não consigo acreditar que minha irmã foi embora tão cedo e que nunca mais vou vê-la.”
A dona de casa enfatiza a personalidade alegre da irmã, que estava sempre com um sorriso no rosto. “O que mais vou sentir falta é da alegria dela. A Atais era uma pessoa muito boa, conselheira, era da paz, não gostava de briga, era chamada de psicóloga da família. É o que vou guardar da minha irmã, que era uma excelente mãe e tinha um coração maravilhoso. Uma mulher vaidosa e cheia de sonhos, que foram interrompidos.” EM MEMÓRIA Essa é a segunda reportagem da série Depois Delas, criada em memória a todas as vítimas, mães e órfãos do feminicídio. Neste domingo (10), Dia das Mães, será publicada a terceira e última história.
O feminicídio da ajudante de cozinha Atais de Souza Costa, 39 anos, ocorrido na sexta-feira (1°), na residência da família, no bairro Cooperativa, em São Bernardo, foi motivado por ciúmes excessivo de acordo com relatos de familiares. O caminhoneiro Sidnei Rosa Lopes, 52, estava bastante insatisfeito com o fato de a esposa ter iniciado uma atividade profissional após passar boa parte dos anos de relacionamento como dona de casa.
Lopes matou a mulher com um tiro na cabeça, na frente de dois filhos da vítima, Jonathan Souza Lopes, 10, e Brenda Maria de Jesus, 21. “Assim que cheguei lá, o menino estava desesperado e me disse: ‘Tia, meu pai matou minha mãe, eu não quero ficar órfão’. A Laura estava na casa dos tios e, quando soube, passou mal”, conta a irmã caçula de Atais, a promotora de vendas Silvia de Souza Lopes, 33.
O caminhoneiro ficou foragido após o feminicídio, mas foi encontrado morto na segunda-feira (4) na Represa Billings, em trecho da Zona Sul da Capital, durante patrulhamento de rotina.
Uma das irmãs da vítima, a dona de casa Sandra de Souza Costa, 45, relata que todos tinham um ótimo relacionamento com Sidnei Lopes e sua família. “Tinha muito ciúmes e estava possessivo desde que a Atais começou a trabalhar, mas nunca íamos imaginar que isso poderia acontecer. As crianças estão sofrendo pela perda dele também, eram apegadas ao pai”, enfatiza a tia.
Sandra afirma que, para controlar a esposa, o marido chegou a se matricular na mesma academia. “Ele era muito inseguro por Atais ser bonita e mais jovem, mas não sabíamos o que minha irmã estava passando, ela não contava. Após sua morte, soubemos que ele já deu um tapa nela.”
A família não tinha conhecimento do histórico de agressão. “Ela desabafou somente há dois meses e comentou que queria se separar porque ele estava com um comportamento estranho, que acordava no meio da noite com o marido olhando para ela e que sentia medo”, compartilha Sandra.
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