Indústria dos cosméticos Crianças e pré-adolescentes usando retinol, ácido hialurônico e cremes anti-idade; especialistas apontam risco de irritação e consumo precoce
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Já ouviu falar em ‘cosmeticorexia’? Trata-se de uma obsessão patológica por procedimentos estéticos e rotinas de cuidados com a pele (ou skincare) para alcançar uma ‘pele perfeita’. Hoje, crianças e pré-adolescentes de 10 a 12 anos têm cada vez mais problemas relacionados à própria imagem e utilizam produtos destinados para adultos. As chamadas ‘Sephora Kids’ são uma tendência de consumo e comportamento que ganhou força nas redes e já desperta preocupação também no Brasil. Estudos da Northwestern Medicine sobre vídeos desse tipo mostram rotinas com média de seis produtos e custo mensal estimado em US$ 168, além de pouca presença de protetor solar nos conteúdos analisados.
No centro desse movimento estão produtos como retinol, ácidos esfoliantes e outros ativos normalmente associados a cuidados da pele adulta. No Brasil, a indústria de beleza e cuidados pessoais é ampla e relevante: a ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) afirma que o país é o terceiro maior mercado consumidor do setor no mundo. Ao visitar lojas localizadas nos shoppings Shopping Cidade São Paulo e Shopping Pátio Paulista, como Bel Cosméticos, L’Occitane au Brésil, Creamy Skincare, Mundo do Cabeleireiro, Premier Cosméticos, ADCOS e Sephora, a gama deste tipo de produtos é vasta, sem nenhuma restrição de compra para menores. Questionadas, nenhuma das empresas se manifestou sobre o assunto.
O que dizem os especialistas sobre os riscos à saúde
Dermatologistas alertam que o problema não é apenas o uso isolado de um cosmético, mas a repetição de etapas e a combinação de produtos desnecessários para uma pele ainda em desenvolvimento. O uso precoce de ativos mais fortes pode provocar irritação, vermelhidão e dermatite de contato, além de aumentar a sensibilidade da pele.
“A pele infantil é mais fina, mais sensível e possui uma barreira de proteção menos desenvolvida. Isso faz com que absorva mais substâncias químicas, aumentando o risco de irritações”, alerta Paula Sian, dermatologista especializada em Farmacodermia pela UNIFESP.
A especialista também chama atenção para o uso de produtos voltados ao envelhecimento por quem ainda não envelheceu. “Não faz sentido introduzir ativos anti-idade em crianças e adolescentes. Além de não trazer benefício, pode comprometer a tolerância a produtos no futuro”, afirma.
O que diz a lei - e o que as marcas ignoram
No Brasil, a Resolução 163 do Conanda considera abusivo o direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente. O texto também define que essa comunicação inclui anúncios, embalagens, promoções, merchandising, páginas na internet e a disposição de produtos nos pontos de venda.
“Ao se dirigir ao público infantil com linguagem, apelo visual ou estratégia de venda voltados à persuasão, a marca entra numa zona de risco regulatório. Quando um cosmético possui ativos capazes de comprometer a pele da criança, como o retinol ou ácidos, a ausência de um aviso ostensivo de restrição etária, tal como ‘uso adulto’ ou ‘proibido para crianças’ deixa de ser uma falha comum para se tornar a omissão de um dado essencial de segurança”, afirma Alexandre Rosas Papai, advogado especialista em direito do consumidor.
Na prática, isso abre espaço para questionar campanhas, embalagens chamativas e conteúdos que misturam entretenimento e propaganda, especialmente quando alcançam crianças sem repertório crítico formado.
O caso da Sephora na Itália
O tema também ganhou força fora do Brasil. Em março de 2026, a AGCM (Autoridade de Concorrência e Mercado) da Itália abriu uma investigação sobre a Sephora por suspeita de marketing de produtos de beleza para crianças, inclusive por meio de micro influenciadores jovens. Segundo o órgão regulador, a prática poderia estimular uma obsessão precoce por skincare entre menores.
Além da pele: o impacto no comportamento
Mais do que uma tendência de consumo, o fenômeno revela uma entrada precoce de padrões adultos na rotina infantil. Ao reproduzirem hábitos de autocuidado complexos e produtos antienvelhecimento, crianças passam a internalizar a ideia de que precisam tratar sinais que ainda nem existem.
O que os pais podem fazer
A orientação dos especialistas é manter a rotina no básico: limpeza suave, hidratação simples e acompanhamento dermatológico quando houver necessidade. Em caso de dúvida, a recomendação é evitar a introdução de ativos fortes sem orientação profissional.
“A principal orientação é não ceder ao apelo das redes sociais. É importante trabalhar a autoestima da criança para que ela não dependa apenas da aparência ou da validação externa”, reforça Paula Sian.
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