Discriminação Participação delas no mercado de trabalho aumentou em dois anos, mas remuneração está longe do ideal, aponta relatório do governo
André Henriques/DGABC

O número de mulheres empregadas cresceu 11% entre 2023 e 2025, passando de 7,2 milhões para 8 milhões, um acréscimo de 800 mil trabalhadoras. Entre mulheres negras, o avanço foi ainda maior, de 29%, chegando a 4,2 milhões. No entanto, quando se fala em salário, as brasileiras recebem, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado.
Os dados são do 5º Relatório de Transparência Salarial, dos ministérios das Mulheres e do Trabalho e Emprego. A renda feminina representa 35,2% da massa salarial (soma de todos os rendimentos recebidos pela população ocupada do País), abaixo dos 41,4% de participação no emprego.
“A desigualdade de gênero nas empresas brasileiras está diretamente ligada ao machismo estrutural. A gente vem de uma sociedade em que as mulheres tiveram acesso mais tardio ao mercado de trabalho e isso ainda impacta a forma como elas são vistas profissionalmente”, diz a especialista em diversidade e inclusão organizacional Andressa Dantas. “Na prática, isso se traduz em promoções que acontecem mais para homens, porque eles não engravidam e não se afastam, por exemplo. Existe um olhar enviesado”, complementa.
A realidade descrita pela especialista é sentida pela analista comercial Eloisa do Nascimento Nunes, 35 anos. Grávida de oito meses, ela relata que o impacto da maternidade vai além do período de afastamento. “Interfere muito na carreira. Quando a gente volta, sempre existe a dúvida de como vai ser recebida e se ainda teremos o mesmo espaço dentro da empresa”, diz a moradora do bairro Cantareira, em São Bernardo.
Ela destaca que a forma como a empresa lida com a gestação faz diferença na segurança profissional da mulher. “Depende muito da liderança e do ambiente de trabalho. Já vivi situações diferentes e isso muda completamente a forma como encarar esse momento, que deveria ser tranquilo.”
A operadora de produção Sandra Barbosa Machado, 52, do Jardim Inamar, em Diadema, trabalha há 22 anos em uma empresa de autopeças na região e já presenciou diferenças no tratamento entre homens e mulheres. “Você pode fazer a mesma função que um homem, ou até mais, mas ele sempre vai ter mais vantagem, seja no salário ou no reconhecimento”, relata.
De acordo com ela, além da diferença no ambiente profissional, há uma cobrança maior sobre as mulheres fora dele. “A mulher precisa dar conta de tudo, trabalho, casa e filhos. Quando alguma coisa dá errado, a culpa quase sempre recai sobre a gente.”
Pesquisa divulgada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC aponta que a presença das mulheres na indústria metalúrgica da região subiu 11,20% entre 2006 e 2026 – foi de 11,6 mil trabalhadoras para 12,9 mil.
Para que os rendimentos acompanhem a presença no mercado, seria necessário um acréscimo de R$ 95,5 bilhões na massa salarial das mulheres. O relatório aponta que essa correção teria impacto direto no consumo das famílias, mas enfrenta resistência das empresas por elevar custos.
A discrepância pouco mudou desde a criação da Lei de Igualdade Salarial, em 2023. No salário mediano, a diferença subiu de 13,7% para 14,3%. Já no rendimento médio, passou de 20,7% para 21,3%, mantendo o cenário de estabilidade.
Por outro lado, cresceu o número de estabelecimentos com menor desigualdade. Aqueles com até 5% de diferença no salário mediano aumentaram 3,8% e chegaram a 30 mil. Já os com até 5% de diferença no rendimento médio cresceram 4,3%, totalizando 17,4 mil. O relatório mostra que o avanço indica tendência gradual de redução das disparidades corporativas.
Segundo a especialista Andressa Dantas, o ponto-chave é que as companhias entendam que empregar não é apenas colocar alguém para ser um número em uma linha de produção. “Quando existe um departamento de recursos humanos e uma diretoria engajada com a equidade de gênero é possível criar um recorte social que começa a entender a importância de todas as pessoas estarem envolvidas nesse processo. Quando uma empresa expressa que ela é contra pagar salários diferentes por conta do gênero do trabalhador, ela mostra para toda cadeia de funcionários, fornecedores e ao mercado que ela não aceita atitudes discriminatórias.”
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.