Instabilidade Valores do frete e da nafta petroquímica disparam com instabilidades globais e empresas do Grande ABC precisam repassar para clientes
André Henriques/DGABC

As constantes oscilações dos preços internacionais dos barris de petróleo, provocadas pela guerra no Irã e impasses sobre o Estreito de Ormuz, têm desafiado o setor de plástico nacional. A nafta petroquímica, uma das principais matérias-primas para produção de polietileno, é derivada desse recurso, que ultrapassou US$ 100 em diversos momentos desde o início do conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro. Empresários da região relatam alta de 20% no frete e de 70% a 100% nos insumos.
A Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) afirma que a indústria de transformação é a principal prejudicada por enfrentar compressão de margens e dificuldade de planejamento diante da volatilidade. De acordo com a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), o Brasil tem 12.600 empresas desse setor, que produzem mais de 200 mil itens.
A Maximu’s Embalagens Especiais, sediada em Ribeirão Pires e com clientes dos setores automotivo, hospitalar e eletrônico, aponta que, além da alta direta do insumo, o aumento de gastos com combustíveis tem prejudicado as operações. “É uma insegurança sem precedentes. O setor de plásticos clama por transparência e intervenção para assegurar o abastecimento do mercado”, afirma o diretor da empresa, Márcio Grazino. No Grande ABC, o diesel chegou a R$ 8,50 em meados de março.
De acordo com o diretor comercial da Maximu’s, Erick Souza, não deu para segurar os acréscimos. “Tentamos segurar o máximo que conseguimos, mas chegou uma hora que foi necessário repassar. O polietileno chegou a subir 100%. Buscamos aumentar o percentual de material reciclável, porém não dá para refazer a engenharia de tudo.”
Para ele, mesmo que o conflito no Oriente Médio termine em breve, as repercussões vão continuar nos próximos meses. “O mercado está sedento por boas novidades. Apesar disso, a cadeira de produção global levará um bom tempo para se corrigir. O choque de oferta e a crise faz com que demore para os valores voltarem aos antigos patamares.”
Em Mauá, o diretor comercial da Coplas Indústria de Plásticos, no Sertãozinho, Cláudio Acemel, ainda tenta segurar os aumentos para não assustar os clientes. “O frete subiu 20%, as embalagens, 30%, e a matéria-prima virgem, a nafta, aumentou 70%. Mas, em alguns casos, fizemos reajustes de, no máximo, 15%.”
A Abiplast aponta que o Brasil não possui produção local suficiente para atender a demanda por resinas, o que torna a indústria nacional dependente de importações. “A situação também é sensível no mercado de PVC. As importações são importantes para equilibrar esse mercado, mas as dificuldades logísticas e comerciais associadas ao cenário internacional ampliam as incertezas sobre a continuidade desse fluxo”, informa em nota.
O presidente-Executivo da Abiquim, André Cordeiro, alerta que o cenário indica urgência no enfrentamento dos gargalos de oferta e de custos no suprimento nacional de insumos para a petroquímica. “Essa condição é indispensável para sustentar a competitividade da indústria, reduzir vulnerabilidades externas e assegurar o desenvolvimento de uma cadeia mais robusta, integrada e preparada para os desafios do cenário global.”
André Cordeiro não intitula a situação como “crise”, mas sim momento de “alta pressão”. Para ele, há a necessidade de políticas que reduzam custos estruturais, especialmente energia e gás natural, e fortaleçam a base produtiva nacional. “Para o consumidor final, os impactos tendem a ser difusos e diluídos, sem caráter generalizado. O que tem acontecido se somou a impasses estruturais de competitividade já existentes.”
Diz, ainda, que o atual panorama amplia a relevância de uma agenda coordenada entre todos os elos da cadeia produtiva para avançar no aumento do suprimento local de gás natural e de seus líquidos. “Também estruturar um mercado regulatório que viabilize preços mais competitivos para essas moléculas e ampliar a oferta de nafta petroquímica em condições alinhadas à competitividade internacional.”
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