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A cada duas horas, uma mulher é ameaçada no Grande ABC

Foram 3.912 casos em 2025; especialista aponta que crime pode anteceder agressões mais severas

22/04/2026 | 08:00
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FOTO: Freepik Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Mesmo com a redução no número de casos, o crime de ameaça contra a mulher segue como um dos mais frequentes no Grande ABC. Dados da SSP (Secretaria da Segurança Pública) mostram que, em 2025, foram registrados 3.912 B.O. (Boletins de Ocorrência) na região, diminuição de 16,5% em relação aos 4.687 casos contabilizados em 2024. Ainda assim, o volume representa, na prática, média de 11 por dia, ou um a cada 2 horas e 14 minutos.

A análise das ocorrências revela que São Bernardo lidera o número de registros, com 973, seguido por Santo André (957) e Mauá (915). Na sequência aparecem Diadema (630), Ribeirão Pires (212), São Caetano (129) e Rio Grande da Serra (96).

Para a delegada titular do 8º DP (Distrito Policial) de São Bernardo, Liliane Doretto, a queda no índice deve ser analisada com cuidado. “Interpreto esse cenário com seriedade e cautela. A redução estatística é positiva, porém não elimina a gravidade do problema. Quando ainda existem milhares de registros significa que muitas pessoas seguem vivendo sob medo, pressão psicológica e risco concreto”, afirma.

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Segundo ela, o crime de ameaça costuma ser um indicativo de possíveis situações mais graves no futuro. “A ameaça, tecnicamente, costuma ser um marcador inicial da escalada da violência. Em inúmeros casos, ela antecede agressões físicas, perseguição, cárcere psicológico e, em situações extremas, o feminicídio”, explica.

PERFIL

O levantamento também traça o perfil das vítimas. Em 2025, a faixa etária mais atingida foi a de 36 a 40 anos, com 624 registros. Para a delegada, esse dado reflete um momento específico da vida das mulheres. “Essa faixa etária reúne fatores sociais importantes: relacionamentos mais longos, filhos, patrimônio em comum e responsabilidades financeiras. É justamente nesse período que muitas mulheres buscam reorganizar a vida e encerrar vínculos abusivos”, diz.

Liliane destaca que a tentativa de ruptura pode desencadear reações violentas por parte do agressor. “Muitos autores não aceitam perder o domínio que exerciam na relação”, completa.

Outro ponto de atenção é o crescimento de crimes relacionados, como a perseguição. Os dados saltaram de 1.309, em 2024, para 2.012, em 2025. Para a delegada, o aumento está ligado tanto à maior conscientização quanto ao uso de tecnologia. “Hoje, a vítima reconhece melhor que insistência obsessiva, vigilância e controle digital, aparecimento constante em locais frequentados e mensagens reiteradas não representam afeto e, sim, violência. Além disso, o sistema de segurança pública passou a acolher melhor esse tipo penal, estimulando o registro”, afirma.

Já crimes como calúnia, difamação e injúria tiveram leve alta, passando de 3.317 para 3.326 casos, enquanto a lesão corporal dolosa também cresceu, de 2.890 para 2.916 ocorrências no mesmo período.

AGRESSORES

Nos casos de ameaça computados em 2025, a maior parte das ocorrências está relacionada a vínculos afetivos. União estável aparece com 1.270 casos, seguida por envolvimento amoroso (1.013), casamento (798) e relações de parentesco (678), o que reforça o caráter doméstico desse tipo de crime.

Diante desse cenário, Liliane reforça a importância da denúncia. “O boletim formaliza os fatos, permite investigação, subsidia medidas protetivas, demonstra reincidência e produz histórico probatório. Muitas tragédias são antecedidas por sinais ignorados ou não oficializados. Sem esse registro, o Estado muitas vezes entra tardiamente no caso”, conclui.

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